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Festival pernambuco nação cultural

Um dia na aldeia dos Xukurus

Foto: Costa Neto

Foto: Costa Neto

Por Beto Silva

Festival Pernambuco Nação Cultural do Agreste Central. Tarde nublada; dia “gris”, diria meu velho avô Machado. Após uma almoço de ensaios verbais sobre literatura, educação, política de cotas e (por supuesto) mulheres, nos aprontamos para uma visita à aldeia Xukuru, onde acontecia o Encontro Juventude, Arte e Culturas Indígenas. Comigo, Cyl Gallindo: escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras, autor de “As galinhas do coronel”, “Um morto coberto de razão”, “Cadeira de Dinah” e “Milagre no jardim da casa grande”, dentre outras obras. Este agrestino de Buíque encontrava-se ávido por visitar o território, onde vários povos reuniam-se durante toda a semana.

Partimos sem mapa e com pouca orientação. Perguntávamos pela Serra do Ororubá e finalmente chegamos a uma aldeia: apenas para descobrirmos que o encontro era em outra. Afinal, são mais de 40 delas na região. A ignorância cobra seu preço ou, como diz minha mulher, “babaca tem a vida atribulada”.

Finalmente chegamos ao local correto, onde encontramos Chiquinho e Érika, e logo vou perguntando por Zé de Santa – vice cacique. Neste meio tempo, Cyl observa o tema do coco de roda que se desenvolve à nossa frente. Relatos de uma vida sem corre-corre, onde a preocupação repousa sobre coisas realmente importantes. No caso, o cavalo.
Chega Zé de Santa. Fala sobre a importância do “toré”, cerimônia por acontecer no final do encontro; reunião de várias tribos. Relata também sobre a construção de um documento coletivo; síntese de vários dias de conversa em torno de suas condições de vida, preservação de sua cultura e reivindicações sobre as demarcações de terra. O velho escritor recorda os dias de jornalista e fala sobre a matéria escrita há 14 anos, quando do assassinato do cacique Chicão. Antes mesmo de pôr seus pés pela primeira vez em território Xukuru, Cyl já amarrara seu destino ao deste povo.

O contista e poeta de Buíque observa o “enfeite de cabeça” (desconheço o termo Xukuru) de Zé de Santa e pergunta:
– Como posso ter um destes?
O índio fala:
– Assim.

E então retira o adorno da própria cabeça e o coloca na de Gallindo. Este sorri, involuntariamente ou não, agradece à maneira dos próprios Xukurus, que não dizem obrigado, palavra que não encontra paralalelo em sua língua mãe, apenas sorriem e dizem algo afetuoso. Um dos melhores momentos do festival acontecia diante dos meus olhos, na aldeia Capim de Planta.

*Beto Silva é gaúcho e secretário executivo de Cultura de Pernambuco.

 

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