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Um prédio com quase um século de história

Val Lima

Cine Teatro Guarany está na memória dos triunfenses (Foto: Val Lima)

Cine Teatro Guarany está na memória dos triunfenses (Foto: Val Lima)

Cine Teatro Guarany, que faz parte da memória de Triunfo, celebra nove décadas com a finalização da primeira etapa de sua requalificação, a ser festejada no FPNC 2012

Por Raquel Holanda

Ao chegarmos a Triunfo, no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, nos deparamos com uma paisagem aconchegante e rica em detalhes. No Centro da cidade, vemos o Lago João Barbosa Sitônio, localizado numa planície envolta por morros e serras. De um lado, está a prefeitura do município; do outro, a imponente edificação do Cine Teatro Guarany. A arquitetura neoclássica do prédio chama a atenção do visitante, sendo uma das edificações mais altas do lugar, constituída por três pavimentos.

A construção do que é hoje tido como um dos cartões postais da cidade começou em 1919 e levou três anos para ser concluída, fruto da iniciativa dos irmãos Manoel e Carolino Siqueira Campos (ou Duduzinho, como era chamado). “A sociedade triunfense promovia grandes bailes no Cine Teatro Guarany, um deles o Baile Branco e Rosa, um tradicional momento em que as pessoas finas da cidade se encontraram no mês de maio”, conta o triunfense Assis Timóteo sobre as solenidades do prédio nos anos de 1920 a 1930. Nas duas décadas seguintes, Assis Timóteo relembra que as festas eram organizadas, em sua maioria, para comemorar a formatura das novas magistradas do Stella Maris, colégio de freiras franciscanas alemãs.

Entre as memórias de um e outro morador, fomos conhecendo um pouco da história desse prédio quase secular que acaba de finalizar a primeira etapa do seu processo de requalificação, envolvendo revisão de cobertura, telhado, elétrica, pintura externa e interna, esquadrilha e hidráulica. Segundo Célio Pontes, diretor de Gestão de Equipamentos Culturais da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), a requalificação do Cine Teatro Guarany faz parte da política de reestruturação dos espaços culturais do Estado e que está prevista para acontecer em três etapas. “Terminamos apenas a primeira etapa da requalificação do Cine Teatro Guarany. As próximas duas acontecem a partir deste semestre e a intenção é encerrá-las em 2013. Com isso, o equipamento ganhará sistema de climatização, novas poltronas e sua caixa cênica será reformada”, explica o gestor. A primeira etapa das obras custou R$ 132 mil. A estimativa é que o Governo do Estado invista mais R$ 700 mil até o final da requalificação do equipamento.

Lembranças

Para muitos triunfenses, o Cine Teatro Guarany representa um lugar de boas lembranças de uma vida cultural ativa. Antônio de Bino trabalhou no espaço dez anos e acompanhou de perto sua programação artística nas décadas de 1960 e 1970. A exibição de filmes era o que mais movimentava o local neste período. “O Guarany faz parte de uma parte boa da minha vida. Naquele tempo, o cinema reunia muita gente, principalmente nas sessões do sábado e domingo. Depois que ele parou com sua programação até deixei de entrar no prédio, não queria chorar”, fala emocionado o ex-funcionário da bilheteria da casa.

Apresentações de peças nacionais também estavam na programação do cine teatro, desde sua criação até os anos 1970. Sua inauguração, em 1922, foi marcada com o espetáculo “Cenas mudas” e encenaçãoes como “A louca do jardim” e “Fabíola” estão entre as que passaram pelo Cine Teatro Guarany ao longo de sua história.

A decadência do Guarany teve início com crises políticas e econômicas, fazendo ter sua propriedade vendida ainda nos anos 1920. Na década de 1950, o prédio foi comprado pela Província Franciscana da Ordem do Brasil, voltando a funcionar como cine teatro. As inconstâncias do seu funcionamento novamente fez suas atividades tornarem a ser encerradas e, em 1985, foi aberto um processo de tombamento estadual que gerou a aquisição do prédio em 1988, pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.

“Durante muitos anos, o prédio foi abandonado, entrou em decadência e aos poucos foi sendo esquecido”, lamentou Assis Timóteo sobre as diversas fases em que o Cine Teatro Guarany ficou fechado. Após a aquisição do espaço pela Fundarpe, o prédio sofreu frequentes intervenções e até o ano que vem espera-se adequá-lo para seu pleno funcionamento. A notícia foi vista com bons olhos por Antônio de Bino, que diz aguardar ansioso para ver o espaço em pleno vapor. “Se Deus quiser, ele vai voltar a ser o que era antes. Sinto saudade do tempo que trabalhava lá, sempre lembro de quando as sessões de cinema acabavam e eu fechava o prédio e ia caminhando para casa”, recorda Antônio.

Luiz Confeitinho ficou conhecido pelos anos nos quais vendia confeitos e doces na frente do Cine Teatro Guarany. Esse tempo ficou para trás nos anos de 1960, mas o apelido continuou com ele. “O Cine Teatro era muito animado, pessoas até de cidades vizinhas chegavam a vir para Triunfo só para ir ao cinema”, lembra Confeitinho, ao enfatizar que durante muitos anos a única opção cultural da cidade era o cinema.

A sétima arte ainda hoje toma conta do Guarany. Desde 2008, o prédio recebe o Festival de Cinema de Triunfo, realizado pela Secretaria de Cultura e Fundarpe. O evento reúne anualmente, no local, a exibição de produções nacionais em mostras competitivas, e o prédio passa também a ser a casa de excelência dos eventos cinematográficos do estado. Neste ano, a quinta edição do festival acontece de 6 a 11 de agosto. Antes, entre os dias 24 e 29 de julho, este mês, o espaço recebe uma programação intensa de espetáculos de teatro e dança, todos abertos ao público.

 

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