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Vaqueiros que cantam poesia, ou os poetas que chamam gado no Sertão Central

“Eu dormindo, eu sonhava com corrida de mourão”, cantam Raimundo Gomes e Luciano                     Foto: Rubem Lima

“Eu dormindo, eu sonhava com corrida de mourão”, cantam Raimundo Gomes e Luciano Foto: Rubem Lima

Cobertura do III Encontro de Aboiadores, em Serrita

Por Maria Peixoto

 No Sertão há uma linguagem que só vaqueiros sabem falar e os bois entendem, o aboio. Misto de canto, chamado e lamentação,  no palco, o aboio fala de um eterno saudosismo sertanejo: saudade de ser vaqueiro, para aqueles que deixaram a profissão; saudade do Sertão, para aqueles que tiveram que ir embora ou até saudade de um tempo antigo que não volta mais, tempo onde ao invés de televisão, o povo se voltava pro oratório, ao invés de geladeira, o povo tomava a água dos potes de barro.

No campo, o aboio serve pra chamar o gado, “ele vai bater na porteira pelo chamado dos donos. Quando a gente aboia bem alto, ele se arrebanha”, conta Cláudio Ágria, que tem 48 anos e 15 de aboio. “Desde os 10 anos que eu andava no campo. A minha satisfação era pegar o boi, estrovar e botar na estrada”, conta.

Mas parece que mais do que dar uma ordem ao boi, aboiar é um carinho deles que tanto gostam dos animais, e tanto apreço têm a essa profissão. “O amor que eu tenho ao gado eu não doei por ninguém”, canta o aboiador. Cláudio diz que “o gado fica mais habilidoso, ele tem amor aos donos”. Seu Luciano, de 64 anos e 10 de aboio diz que nasceu vaqueiro e “termino minha vida lutando com o gado, se Deus quiser”. Ele canta com saudosismo a história daqueles que tem que fugir da seca: “Reparando a vacaria, saí com uma dor no peito vendo as vacas morrendo. E eu sem poder dar jeito. Os bezerros me arrodeando e o cachorro latindo, como quem tava me chamando..”

Quando não estão em serviço, os aboiadores são poetas cuja missão, segundo eles é “cantar a cultura do Sertão”. “Tou aqui pra prestar minha homenagem à cidade de Serrita e mostrar que eu faço parte da cultura do vaqueiro”, diz o aboiador Cassiano. Serrita é terra conhecida pela Missa do Vaqueiro, que acontece anualmente, em julho, quando vaqueiros de todo o nordeste se juntam em homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, primo de Luiz Gonzaga, assassinado em 1954.

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