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PATRIMÔNIO CULTURAL

Banda Revoltosa: Centenária e em constante renovação

Das quase 200 orquestras filarmônicas que existem em Pernambuco, trinta são centenárias. Confira a narrativa feita a partir de entrevista com membros da Sociedade Musical 5 de Novembro, que fará cem anos em 2015 e foi agraciada no fim de 2013 com o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Por: Maria Peixoto

Ao chegar em Nazaré da Mata para conhecer a Sociedade Musical 5 de Novembro, reconhecida como Revoltosa, achei que me depararia com integrantes antigos, já que se trata de uma banda musical que, em 2015, vai completar 100 anos. Qual não foi minha surpresa ao ver que o mais velho integrante é o atual presidente da sociedade, Josenildo Dias, de 40 anos.

Costa Neto

Insistindo em minha suposição, busquei entrevistar os músicos mais antigos que ainda moram na cidade: Seu Cosmo, José Ferreira e José Dias. Porém, a “memória fraca” e a avançada idade de Seu Cosmo e José Ferreira impossibilitaram nosso diálogo com eles. Conversamos então, não sem grande dificuldade, com Seu José Dias, que aos 85 anos está perdendo o sentido que lhe foi mais rico quando ainda tocava seu trombone: a audição.

Costa NetoQuando Seu Zé Dias chegou à Revoltosa, em 1944, ela já existia há 29 anos. Ele, há apenas 16. “Em 1946 eu me formei na banda, era muito fraquinho, mas toquei no carnaval de Tracunhaém”, diz. Depois disso, foram mais 42 carnavais com a orquestra, em diversos municípios do estado. Apesar do período não ser o único evento em que a banda se apresenta, ainda hoje é esse o período de maior retorno financeiro para os músicos. “Eu era filho de pobre e quando eu tocava a coisa melhorava. Meu pai trabalhava com lanche, vendia pão. Minha mãe era lavadeira. Nesse tempo eu fiz a casa todinha. Eu trabalhava muito. Onde tinha festa eu tava”, conta Seu Zé Dias, que também exerceu a profissão de sapateiro. Daquela época para hoje, a diferença é enorme: “Antigamente tinha mais entusiasmo. O povo tinha mais gosto. Hoje nem sócio tem”, lamenta o trombonista.

Uma rivalidade histórica
Misto de brincadeira e coisa séria, uma das tradições das bandas musicais é a competição entre elas. O envolvimento que o músico costumava ter com sua orquestra era comparado a uma espécie de vínculo familiar. Semelhante ao que vemos hoje nas torcidas de futebol, quanto maior a paixão, mais ferrenho era o apreciador de cada orquestra. Em Nazaré, a disputa histórica é entre a Capa Bode (também patrimônio vivo) e a Revoltosa. O apelido “revoltosa” vem daí, inclusive, pois foram músicos dissidentes da  Capa Bode que deram origem à Revoltosa.

“Num era brincadeira não, era um negócio sério. Principalmente em carnaval. Era sério, a gente brigava. Era uma ignorância, era feito o maracatu, se elas se encontravam, acabava num barulho. Hoje tá mais civilizado. Naquele tempo as sociedades eram rivais. Tinha até admirador da Revoltosa que não ia na sede da Capa Bode”, lembra Seu Zé Dias, que confessa ter passado um tempo na Capa Bode, por causa de uma briga que teve com um professor:

“Eu fazia serão, não podia chegar na hora certa. Mas ele [o professor] não considerava isso. Eu era empregado dos outros, trabalhava na fábrica, ganhava pelo que fazia. Aí eu sempre chegava atrasado no ensaio. Ele reclamou umas duas vezes. Aí um dia eu cheguei e ele disse a mim ‘Você toda vez chega atrasado e ainda com cara feia’. Aí eu disse a ele ‘Professor, pra eu nascer com a cara bonita eu tinha nascido uma mulher’. A sala tava cheia de gente. Aí ele ‘Vá embora’. Aí eu fui. Quando eu sai ele disse ‘Ele vai fazer falta, mas eu já botei pra fora, tá botado’. Aí foi quando o pessoal da Capa Bode me chamou e eu fui. Num fui com tanta vontade, né, mas ele me botou pra fora… Chegava gente lá em casa, na oficina pra me chamar, eu dizia ‘Não, ele me botou pra fora, eu num vou mais não’. Depois de uns tempos eu sai da Capa Bode, ele foi lá e me chamou”.

Após quatro anos na oponente, Seu Zé Dias voltou pra Revoltosa, onde estava sua verdadeira paixão. E foi nela onde ficou até ser proibido pelo médico de tocar. Seu coração não aguentava mais tanto esforço.

Costa Neto

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Zé Dias e Josenildo, duas gerações de músicos da Revoltosa

A rivalidade entre a Revoltosa e a Capa Bode vinha do amor que as pessoas tinham por cada uma das bandas, que as faziam tomarem partido e até mesmo financiá-las. “Hoje, a rixa simboliza a busca por uma apresentação de cada vez mais qualidade”, afirma o presidente Josenildo. Apesar de lembrar que os mais antigos ainda insistem em nem passar pela calçada da banda oponente. Ele guarda em seu arquivo um caderno de atas do início da banda. Nele, uma das pautas registradas era um convite que a Revoltosa recebeu para um duelo com a Capa Bode, quem perdesse pagaria cerveja a outra. Outra coisa que ele guarda como memória da banda centenária são as partituras escritas à mão “tem umas partituras ali muito antigas, escritas à pena, cada coisa linda”.

Formação Musical
“Hoje ninguém fica mais 40 anos numa banda, como ficou Seu Zé Dias”, conta Josenildo. Porém, a Revoltosa acabou fazendo da necessidade de renovação dos integrantes, um trunfo. A sociedade musical ganhou formato de escola de música. “As crianças são nosso carro-chefe”, destaca. Hoje, o corpo musical da Revoltosa é formado majoritariamente por crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. Conforme vão se aprimorando na técnica do instrumento, deixam de ser alunos para integrar a orquestra ou ensinar aos demais. Foi esse o caminho do professor de percussão, Paulo Arselino, de 20 anos. Ele aprendeu a tocar aos 7 anos e atualmente divide seu tempo entre o trabalho com bandas profissionais e as aulas na Revoltosa.

Trajetória parecida com a do também professor Cláudio Marzo, de 33 anos. Com formação no Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO), Cláudio deseja que o aprimoramento técnico chegue aos demais jovens de Nazaré. Sonho que Josenildo também nutre, apesar de ele próprio não ter tido a oportunidade de cursar o conservatório. “Hoje a gente ainda sofre porque, por ser cidade de interior, o emprego é escasso, não tem pra todo mundo. O nosso sonho, vamos dizer assim, é tornar a sede da Revoltosa um Centro de Educação Musical, pra descentralizar de Recife”, afirma o presidente, apontando também para a necessidade de implantarem um plano pedagógico menos aleatório, mais técnico.  Além disso, a quantidade de instrumentos ainda não é suficiente para atender a todas as crianças: “Uma família de interior que ganha um salário mínimo não vai deixar de comprar comida pra comprar um instrumento, o mais barato é 600, 700 reais”, conta Josenildo.

Costa Neto

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Professor Cláudio Marzo sonha com Centro de Formação Musical

A diferença da escola da Revoltosa, que já funciona mesmo sem um método preciso, é a não exigência de conhecimento prévio dos alunos: “Aqui a gente começa do zero, diferente do conservatório. Pra entrar lá, tem que fazer uma prova. Aqui a gente pega a pedra bruta pra lapidar”, compara. “A teoria é o início. Quando o aluno começa a entender as figuras e tirar notas do papel, transformar aquilo em som. Depois tem a prática instrumental, quando começa um outro trabalho, que é lento, o corpo do aluno vai se adaptar ao seu instrumento”, narra o presidente.

O caminho para formalização da Orquestra em Centro de Educação Musical é longo, mas a estrutura para isso está sendo montada, com espaço para apresentações, salas para ensaios e cabines de estudos individuais. Tudo isso para preparar as novas gerações que vão cuidar deste patrimônio da nossa cultura. “Tem muitas bandas aí que tão fechando, inclusive centenárias, com mais idade do que a nossa”, lamenta.

O cuidado para manter a tradição
Josenildo entrou na Revoltosa em 1985, mesmo ano em que Seu Zé Dias teve que se afastar da banda. “Eu era menino, vinha aqui pra brincar, pra tocar. Era divertido, foi assim que começou a minha vida aqui”, lembra.  “Eu não escolhi meu instrumento, o maestro chegou e disse ‘olhe, tem um instrumento pra você aí, você quer?’ Aí eu perguntei ‘que instrumento é?’, ele respondeu ‘não, num queira saber, não. Você quer? É pegar ou largar!’, e eu peguei, era um barítono de pisto”, conta o presidente. Depois disso, Josenildo ainda aprendeu a tocar clarinete e trombone de vara e hoje dá aulas desses três instrumentos aos iniciantes.

Costa Neto

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Josenildo reverencia a memória dos fundadores da Revoltosa

As apresentações que mais lhe marcaram foram, claro, a sua primeira vez, em 1986, na Casa da Cultura, e outra no ano seguinte, na TV Universitária: “Foi muito especial. Quando eu me vejo no vídeo, nem me reconheço”, brinca.

É bonito perceber o cuidado e a dedicação que Josenildo nutre pela Revoltosa. Um dos poucos que, seguindo a tradição, permanece há décadas na orquestra. “Creio que se a gente se apagar, vai se apagar a história. A gente tem que preservar o nosso passado. Se a gente não preservar, vai se acabar”, afirma.

Incluindo Josenildo, 40 pessoas atuam hoje, voluntariamente, na banda. Apenas os professores recebem ajuda de custo.

Centenário
No próximo ano, no dia 14 de janeiro de 2015, a Revoltosa vai completar 100 anos. Os preparativos da festa já começaram. Josenildo revela que pretende prestar uma homenagem aos fundadores, Salustiano Correia e Maestro Joquinha, e aos integrantes antigos da banda, com um grande encontro de músicos da região. Tudo isso para celebrar um século de formação de músicos, de difusão da música erudita e popular pela Zona da Mata, de preservação desta que é um pouco da história da cultura pernambucana.

Reprodução/Costa Neto

Reprodução/Costa Neto

Foto histórica da Banda Revoltosa

História cravada ali, em Nazaré da Mata, terra dos maracatus e terra também de duas centenárias orquestras rivais que são agraciadas com o mesmo reconhecimento histórico, o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, a Sociedade Musical 5 de Novembro (Revoltosa) e a Sociedade Musical Euterpina Juvenil Nazarena (Capa-Bode).

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