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PATRIMÔNIO CULTURAL

Confraria do Rosário Comemora 10 anos como Patrimônio Vivo

Em Floresta, o cortejo e missa que celebram a identidade negra e acontecem sempre no dia 31 de dezembro contará com novidades por conta da data especial.

Jan Ribeiro

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A Confraria do Rosário, de Floresta, se prepara para a tradicional coroação do rei e da rainha, que acontecerá na celebração deste domingo (31).

Por Camila Estephania

A história católica conta que, na época em que os Europeus começaram a explorar a mão de obra africana, apareceu uma imagem de Nossa Senhora do Rosário no mar do continente. Os europeus tentaram tirar a estátua do local, mas somente quando os moçambicanos chegaram à praia batendo os seus tambores e lhes pedindo proteção, a imagem se soltou e foi levada pelas ondas até a areia. A partir de então, a santa passou a ser considerada a madrinha dos negros que, quando chegaram ao Brasil colonial, passaram a cultuá-la em diferentes partes do País.

Em Floresta, no sertão de Pernambuco, a Confraria do Rosário é uma dessas instituições ancestrais que permanecem até hoje comandando uma festa para a santa sempre no dia 31 de dezembro, como manda a tradição local. “O dia de Nossa Senhora do Rosário, na verdade, é no dia 7 de outubro, mas os negros daqui só tinham livre o dia 31 de dezembro, por isso, a coroação foi deslocada”, explicou João Luiz Silva, que desde 2007 é o rei perpétuo da irmandade. Na data em que a santa é mundialmente celebrada, a Confraria também faz uma comemoração em sua sede, onde também se promove reuniões mensais entre os confrades.

Jan Ribeiro

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Para celebrar os dez anos como Patrimônio Vivo de Pernambuco, a irmandade apresentará uma nova réplica da estátua da santa que fica na Igreja do Rosário.

NOVIDADES

Criada há cerca de 200 anos, a irmandade repete as tradições seculares, mas, neste domingo, a celebração também reserva algumas surpresas para quem acompanha o evento.  Em comemoração à sua primeira década como Patrimônio Vivo de Pernambuco, a Confraria distribuirá o calendário, que costumava ser entregue somente aos confrades, também para a comunidade que for assistir a coroação, marcada para começar às 5h da manhã com o café do Rei, na sede.

O cortejo até a Igreja do Rosário, que é acompanhado pela banda de pífanos, contará pela primeira vez com uma réplica da estátua da santa que fica dentro do templo. A iniciativa de fazer uma nova imagem teve como objetivo preservar a primeira representação que, assim como a Igreja, data de 1792. Além da réplica, que ficará guardada na Sede da Confraria durante o resto do ano, também foram compradas estátuas de quatro santos negros, sendo eles Santo Antônio de Categeró, São Benedito, Santa Josefina da Bakita e Santa Efigênia.

Antes da missa, também será lida uma carta de 1976 que uma senhora enviou para Floresta, sem o endereço de remetente, falando sobre o tempo em que viveu na cidade entre 1925 e 1930. “Ela fala da alegria ao ver a coroação da Confraria e isso é um registro sobre a irmandade e mais uma prova de que ela existe há mais de 100 anos”, esclarece João Luiz, ao lembrar que, até então, o registro mais antigo que havia sido encontrado sobre a irmandade havia sido o livro “Memória de uma cidade sertaneja no seu cinquentenário”, escrito por Álvaro Ferraz, de 1950. “Estamos tentando reunir o máximo de papéis que a gente tem”, completa ele, sobre a importância desses documentos para legitimar a ritual, que tem tradição oral.

Jan Ribeiro

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João Luiz Silva comemora o crescimento da Confraria do Rosário, de onde é o rei perpétuo desde 2007.

HISTÓRIA

Apesar da ausência de materiais que provem a data exata de criação da Confraria do Rosário e sua coroação, a instituição conta com a memória repassada por antigos membros às gerações seguintes como álibi para o cálculo dos seus cerca de 200 anos.  “O propósito da Confraria era justamente mostrar que os negros também tinham sangue real. Eram coroados, podiam ser escravos, mas não eram qualquer um. A irmandade é uma forma de mostrar resistência e a importância do negro na sociedade de Floresta. A força deles na construção da cidade, que não foi feita somente por pessoas de sobrenome”, observa ele, sobre a prática de coroação, que é comum em outras rituais religiosos de matriz africana e foi levado para a celebração católica em questão pelos negros.

Se, na Europa, a monarquia muitas vezes justificava o seu poder como um atributo concedido por Deus, em Floresta, a coroação também é justificada por um milagre divino. Todo ano, a celebração elege um rei e uma rainha, que são duas pessoas comuns que já tiveram alguma promessa feita a Nossa Senhora do Rosário atendida. “Depois que a graça é alcançada, a pessoa vem conversar conosco e entra na fila de espera para ser coroada. Neste momento, já temos reis e rainhas até 2027. A coroação é o pagamento da promessa porque significa que ele vai servir à santa por um tempo”, explica João Luiz, esclarecendo que quando chega a vez do beneficiado ser rei ou rainha, ele tem que cumprir uma agenda de compromissos ao lado da irmandade, hoje composta por 65 pessoas.

O culto inteiro começa no dia 24 dezembro, quando o pau da bandeira de Nossa Senhora do Rosário é hasteado. No dia 31, a celebração se divide nas partes sacra e profana. Esse segundo momento acontece após a missa, quando o rei e a rainha desfilam de volta até a sede sob a trilha sonora da banda filarmônica Nelson Barros de Rosa, que toca ritmos como frevo e forró. De volta à casa da Confraria, o grupo continua a tocar enquanto é servido algum dos pratos típicos da região, como o arroz vermelho com carne de bode, que será o cardápio deste ano. Tudo se encerra até as 15h para que a cidade possa se preparar para a noite, quando se comemora festa do padroeiro da cidade, Bom Jesus dos Aflitos.

Jan Ribeiro

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Incentivar os jovens e a criação de um museu com todos os objetos já usados pela Confraria, estão estão entre os principais planos da irmandade.

PLANOS

Mesmo em tempos alardeados pela queda do número de fiéis da igreja católica, a Confraria do Rosário nunca foi tão forte em Floresta como é atualmente. “Eu acredito que melhorou muito. Há 15 anos, essa irmandade era composta por cerca de 12 pessoas, pouca gente vinha atrás do cortejo. Hoje temos nosso encontro de espadachins todo perfeito, com  todos os juízes, que vão no desfile, e temos a perspectiva de arrastar entre 500 e 600 pessoas”, explica João Luiz, sobre o crescimento do Patrimônio Vivo.

Para chamar a atenção dos jovens, o rei perpétuo acredita que as reuniões mensais na sede são fundamentais e, por isso, ainda planeja ampliar as ações no local. “Os confrades trazem seus filhos e a gente conversa sobre a importância cultural e religiosa disso e sobre identidade negra. Também damos palestras para escolas e, somente neste ano, foram mais de 300 alunos que nos visitaram”, diz ele, ao lembrar que não há restrições quanto às crenças religiosas de seus integrantes. “Não é uma irmandade quilombola, é mais que isso. Temos famílias quilombolas e outras famílias negras que não são. Também sabemos que alguns confrades participam de terreiro e não temos problemas com isso”, comenta ele, ao reconhecer o sincretismo religioso brasileiro.

Após uma década de tantas conquistas, a irmandade planeja o próximo passo com a criação de um museu. “Estamos tentando um espaço para montar um museu e promover outras atividades, como oficinas de zabumba e pífano, que possam ocupar os jovens”, idealiza ele, buscando incentivar ainda mais as futuras gerações. Enquanto isso, a Casa da Confraria do Rosário já funciona como uma espécie de museu, onde expõe coroas e roupas de reis e rainhas, espadas, o recente acervo fotográfico, dentre outros registros acerca da história da instituição.

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