Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

PATRIMÔNIO CULTURAL

“Faço as máscaras da alegria do Carnaval de Pernambuco”

Com mais de 60 anos dedicados à confecção das máscaras de papangu, Lula Vassoureiro recebeu em 2013 o título de Patrimônio Vivo do Estado. O Cultura.PE conversou com o mestre em fevereiro deste ano e disponibiliza agora um relato deste momento, onde Lula narrou algumas memórias e acontecimentos marcantes de sua trajetória. Confira!

Por Tiago Montenegro

Por pouco, bem pouco mesmo, o artesanato pernambucano não perdeu para o circo a honra de ter entre seus representantes um artista da grandeza de Amaro Arnaldo do Nascimento, o nosso Lula Vassoureiro.

Costa NetoCom sete anos incompletos, o menino Amaro, nascido na cidade de Bezerros, no Agreste pernambucano, optou no susto por um dos destinos mais incertos que há: fugir com um circo. Hoje, com 69 anos de idade, Lula sorri ao lembrar-se do momento em que inventou ser órfão para que Seu Valdecir, o dono do circo em questão, o levasse para longe dali em um antigo Alfa Romeu.

“Fui daqui pra Paulo Afonso limpando o carro do patrão, ajeitando uma coisa ou outra e quando cheguei lá ainda tive que cavar o buraco pra armar o circo… vê que profissão! Tudo isso pra não passar fome, morria de medo de passar fome”. Ninguém soube de Lula até ele completar 13 anos e conseguir voltar para Bezerros, já palhaço e mágico formado. “Cheguei, pedi a benção a meu pai, minha mãe reclamou alguma coisa, ele disse deixa o menino andar, e ficou por isso mesmo”.

Figura lembrada em diversos momentos da nossa conversa, o pai de Lula, Seu José Arnaldo do Nascimento (Zé Vassoureiro), foi o precursor das máscaras que, hoje, ele espalha pelo mundo. “Deus me deu um dom, mas meu pai não queria que eu fosse artesão. Meu primeiro troféu foi uma pisa”.

Aos seis anos, de tanto assistir Zé Vassoureiro criar burrinhas, máscaras e bois, Lula decidiu surpreendê-lo com “uma peça no capricho, toda pintadinha, bem feita mesmo”, lembra. “Ele virou a cabeça, olhou assim pra mim e perguntou: quem fez isso? Respondi: seu filho. Ele disse: Olhe, você trabalha muito bem, mas tá esquecido que eu lhe disse pra não pegar em fôrma minha. Aí revidei: Mas papai, o que eu vou fazer se eu já pedi pra ir pra escola umas trezentas vezes e o senhor não me botou ainda? Só porque o seu pai não botou o senhor também? O que eu tenho a ver com isso? Depois disso, veio a pisa, meu primeiro troféu”.

Perto de completar 70 anos, Lula parece ter conseguido conciliar a admiração que sempre sentiu pelo pai com o entendimento de suas limitações à época: “Ninguém sabia o que era artesanato. Turista, então, nem se fala! Ele tinha razão, que pai ia querer filho artesão?” Sem nunca ter frequentado a escola, Lula conta que só foi virar doutor aos olhos do pai quando Zé Vassoureiro adoeceu e já não podia mais dar conta dos pedidos: “É com o doutor ali, ele dizia apontando pra mim”.

Mais que dar continuidade ao trabalho do pai, Lula reinventou o símbolo ‘máscara de papangu’ a partir da sua própria compreensão artística e visão de mundo. Para ilustrar, imagine a confusão: em pleno Carnaval, uma criança se assusta e cai pra trás ao ver alguém usando uma máscara horrenda. Pois quando isso aconteceu, o pai de Lula até preso foi. “As máscaras já foram coisa de assombração, hoje são de alegria. Faço as máscaras da alegria do Carnaval de Pernambuco”, orgulha-se.

“Minha vida é um romance”
Desde as primeiras peças de roi-roi e mané gostoso até o título de patrimônio vivo de Pernambuco, não têm faltado emoções na vida do artista e mestre Lula Vassoureiro.

Num dia qualquer de 1975, casou às cinco da tarde e às sete da noite já estava solteiro novamente. Um desentendimento ainda na saída da Igreja pôs fim ao casamento mais curto do qual se tem notícia na região até hoje. A terceira e atual companheira, Maria do Céu, ele foi conhecer no enterro da segunda esposa, com a qual teve dois de seus três filhos.

Mesmo após uma dezena de viagens ao exterior representando a cultura nacional, além de ser um dos poucos brasileiros no Livro dos Recordes por ter criado, em 1997, a maior máscara do mundo (5,5m de altura), Lula faz questão de compartilhar algumas vitórias mais cotidianas, não menos marcantes em sua trajetória pessoal: “Tenho diabetes e preciso tomar insulina duas vezes por dia, me cuidar mesmo. Já tem oito anos que não bebo”.

Reprodução / Costa Neto

Reprodução / Costa Neto

Registro da produção da maior máscara já feita por Lula

Os cuidados com a saúde e também a atuação como defensor do artesanato em fóruns e conferências pelo país não impedem a realização das oficinas para crianças e adolescentes em escolas públicas, projetos sociais e em seu Centro de Cultura Popular. Anualmente, cerca de 10 mil crianças conhecem a arte de Lula e ajudam a propagar a tradição que sustenta o Carnaval de Bezerros.

O folião
Carnaval que ele vive antes e também durante! Concurso de melhor fantasia, Lula já ganhou 21 edições. Só parou de concorrer porque, confessa, estava perdendo alguns clientes: “Percebi que as pessoas tavam deixando de me pedir máscara porque as que eu usava sempre ganhavam”. Fazia sentido.

Reprodução / Costa Neto
Antigamente, conta Lula, “tinha mais urso, sanfoneiro, tocador de gaita, Carnaval era assim. E o papangu engraçado, que saía pelas casas pedindo taco de carne, farinha… uma fome desgraçada”, sorri.

“Meu pai só falava de Carnaval, o bicho era criativo”. Gostava tanto que em 1956 fundou o Bacalhau na Vara do Zé Vassoureiro, o atual Bloco do Bacalhau, que arrasta cerca de 8 mil pessoas pelas ruas de Bezerros, sempre na quarta-feira ingrata.

Dá um trabalho danado botar o bloco na rua. “A sorte é que minha mulher dá o maior valor e organiza tudo, tem ano que eu digo não vou mais fazer e ela: você não vai, mas eu vou!”. É Maria do Céu quem coordena o preparo dos 200 quilos de bacalhau servidos anualmente aos foliões, ambulantes, policiais, entre outros trabalhadores do Carnaval, que também integram o bloco.

Centro de Cultura Popular
Em Bezerros, todo mundo sabe onde fica. O espaço cultural de Lula, onde o artista comercializa suas produções e expõe boa parte de seu acervo, troféus e outras memórias, foi construído em 1985. “Eu mesmo faço a manutenção, com o dinheirinho das oficinas que dou por aí”, explica.

Nos fundos da casa fica o ateliê de Lula. Enquanto conversava comigo naquela manhã de fevereiro, passeava pelos muitos moldes de máscaras, das bem pequenas até aquelas que o prefeito tinha encomendado para enfeitar o Carnaval 2014 na cidade. Se o ateliê de um artista é mesmo uma extensão palpável de seu imaginário criativo, chama à atenção a forma como Lula decidiu organizar o dele: uma sala de aula. Como se o mais importante não fosse a obra em si, mas o processo de criação e o repasse das técnicas. Atitude à altura de um patrimônio cultural.

Costa Neto

As “fôrmas do velho pai” ainda estão por lá. Algumas danificadas. Certamente, são importantes registros do Carnaval de outros tempos. Para Lula, talvez também signifiquem presença, reverência.

“Ai de Bezerros se não fosse Lula”
A avó de Lula, Dona Marculina, ficou arretada por demais quando seu marido voltou do Cartório com o registro de nascimento do bebê Amaro. “Ela queria que meu nome fosse Lula, em homenagem a Luiz Gonzaga. Pelo que dizem, foi uma briga danada”, comentou. Não tinha como saber, a pobre Dona Marculina, que alguns anos depois, o neto não apenas seria reconhecido no mundo todo pelo nome que queria, mas também estaria na mesma categoria dos artistas que costumava admirar.

A relevância do conteúdo artístico criado por Lula há muito extrapolou as fronteiras de Bezerros. Mas é particularmente por lá que ele percebe a importância do trabalho ao qual dedica sua vida: “O povo me diz Ai de Bezerros se não fosse Lula! Qual doutor não largaria seu anel de ouro, prata ou diamante no lixo pra ser Lula Vassoureiro?”. De fato, inserir uma cidade no mapa da cultura nacional; formar mais de 300 artesãos; e perceber que sua arte estimula o turismo, a economia e impulsiona a vida de muita gente são mesmo marcas invejáveis de se ter na vida.

Expostos nas paredes do Centro ou bem guardados em sua casa, Lula contabiliza mais de 600 certificados, quase 100 prêmios, muitos quilos de recortes e impressos sobre sua trajetória. O primeiro troféu, bem simples, ele ainda guarda. Ganhou da Prefeitura e diz que é “para lembrar que foi por causa desse que veio todo o resto”.

Inclusive ser reconhecido como Patrimônio Vivo da cultura pernambucana. “Até o mês passado eu tinha que trabalhar pra comer, agora dá pra ficar mais tranquilo. Começo uma peça, paro um pouquinho, vou ali comer alguma coisa, depois volto… é outra vida, outro momento”, explica.
Costa Neto

Em 2014, ano do 105º aniversário do Papangu, Lula foi o homenageado do Carnaval de Bezerros. Mais de 30 blocos de papangus desfilaram pela cidade, em uma clara demonstração de que a brincadeira tradicional segue fortalecida, renovada. E tem tudo para continuar assim. Tem Lula Vassoureiro.

< voltar para home