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PATRIMÔNIO CULTURAL

Mesa-redonda sobre valorização e profissionalização da capoeira encerra Semana do Patrimônio

O encontro, que reuniu vários mestres capoeiristas pernambucanos, na UFPE, nesta quinta-feira (27), discutiu temas ligados à salvaguarda e preservação da capoeira

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

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Giorge Bessoni, Mestre Pirajá, Mestre Corisco e Mestre João Mulatinho comandaram a mesa-redonda

Bruno Souza

A 8ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, evento promovido pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura e Fundarpe, encerrou suas atividades nesta quinta-feira (27), com uma mesa-redonda sobre “Capoeira em Pernambuco – Saberes dos Mestres: profissionalização ou valorização ocupacional, apenas?” que reuniu, no Auditório I do Centro de Filosofofia e Ciências Humanas da UFPE, três grandes capoeiristas pernambucanos: Mestre Pirajá, Mestre João Mulatinho e Mestre Corisco. Comandado pelo professor Bartholomeu Tito Figueirôa, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE, e por Giorge Bessoni, técnico de Ciências Sociais do Iphan, o encontro trouxe à tona várias questões ligadas às formas de organização e formalização dos mestres e grupos de capoeira de Pernambuco, e, em especial, aos dilemas existentes frente à transmissão de saberes e a formação de novos mestres.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

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O professor Bartholomeu Tito Figueirôa, da UFPE, reiterou que a capoeira é mais do que arte, cultura e esporte, é uma ferramenta valiosa na educação de crianças e adolescentes

“É preciso dizer, logo de início que, além da sua importância sociocultural para a história de nosso país, a capoeira é uma ferramenta pedagógica importantíssima na formação e, porque não, no regaste de jovens de comunidades carentes da nossa cidade, como mostrou uma pesquisa que realizamos na Região Metropolitana do Recife, em 2008, para identificar os grupos e as mais variadas correntes capoeiristas recifenses”, disse o professor Bartholomeu.

Já Giorge Bessoni destacou que, embora a roda capoeira seja um Patrimônio Imaterial da Humanidade, reconhecido desde 2014 pela Unesco, é preciso criar mais ações de preservação e salvaguarda da manifestação cultural afro-brasileira. “Eventos, como esse de hoje, são importantíssimos para darmos visibilidade à capoeira, aumentarmos o grau de conscientização sobre sua importância e, acima de tudo, estimularmos a adoção de políticas públicas de salvaguarda e sustentabilidade deste importante patrimônio cultural por parte dos governos e da sociedade civil organizada”, afirmou.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Vários mestres capoeiristas compareceram à mesa-redonda

Mestre Pirajá relembrou toda a sua trajetória nas rodas de capoeira mundo a fora e, graças ao seu envolvimento com os grupos capoeiristas de Pernambuco, da Bahia e do Rio de Janeiro, deu uma verdadeira aula sobre o surgimento e a popularização do bem cultural. “Para mim, ao contrário do que muitos defendem, a capoeira surgiu nos quilombos, lugares onde haviam espaço e liberdade para que ela se desenvolvesse. Chegamos até aqui graças à luta de bravos capoeiristas, que não deixaram a peteca cair e deixaram esse belíssimo legado. Logo que comecei a dar aula aos meninos do Morro da Conceição, na Galeria do Ritmo, as mães me olhavam meio torto e não queriam saber do envolvimento deles comigo. Hoje, a capoeira está em todo mundo. E eu tenho o maior orgulho de ser capoeirista. Em relação à regulamentação de nossa categoria, acredito que não cabe a nós, enquanto mestres, tomar isso para si, mas, sim, aos órgãos governamentais. A nossa valorização quem nos dá é a nossa comunidade, que nos reconhece como mestres”, contou.

O Mestre Courisco, que tem uma vasta experiência na didática da capoeira, relembrou que todas as tentativas de regulamentar a profissão de capoeirista foram frustradas, e que vincular a atividade a qualquer órgão regulatório iria gerar um sério problema para identificar quem seriam ou não os mestres. “A profissionalização é muito importante, mas é preciso dizer que essa regulação exterior pode acabar com nossas tradições. Quem vai dizer quem é mestre ou não? E mais: que critérios serão utilizados nessa classificação? A capoeira, como disse o Mestre Pirajá, está no mundo todo, e percebe-se que há um interesse muito grande de algumas pessoas em assumir o protagonismo que hoje pertence aos mestres”, frisou.

Para finalizar, o Mestre João Mulatinho ressaltou que a capoeira precisa de liberdade para se desenvolver, e que é a diversidade que garante que ela esteja em tantos espaços e partes do mundo. “Capoeira é liberdade. Se ela enveredar pelas universidades, ela se torna em outra coisa, menos nesse jogo de liberdade que conhecemos hoje. Essa regularização pode acabar com o encanto e a magia da cultura capoeirista. Deixem a capoeira livre”, afirmou.

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