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PATRIMÔNIO CULTURAL

O cinema de Lula, patrimônio de Pernambuco

Cineasta recifense Lula Gonzaga narra sua trajetória no cinema de animação de Pernambuco, que lhe rendeu o título de Patrimônio Vivo do Estado

por Marcus Iglesias

Jan Ribeiro

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Lula Gonzaga, Patrimônio Vivo de Pernambuco, é considerado em todo o Brasil como um mestre do cinema de animação

Quando o assunto é a história do cinema de animação em Pernambuco, um personagem torna-se central neste enredo. O cineasta Lula Gonzaga, de 65 anos, foi o primeiro pernambucano a enveredar pelos caminhos que unem o audiovisual ao desenho animado. Apesar de uma produção individual composta por apenas três filmes emblemáticos, sua postura diante da sétima arte, tratando-a como ferramenta de transformação social, fez dele um mestre reconhecido por muitos, não só no estado, mas em todo o Brasil e pelo mundo afora.

Por estes e outros motivos, no dia 20 de julho de 2016, Lula Gonzaga recebeu o que foi pra ele a maior das honrarias, o título de Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco. “Ao longo da minha vida tive o prazer de receber vários prêmios, mas ser reconhecido como Patrimônio Vivo é, sem dúvidas, a maior de todas essas homenagens”, revela, emocionado, durante entrevista concedida ao Portal Cultura.PE no Ponto de Cultura Cinema de Animação, em Gravatá, agreste do estado.

Entender o legado de Lula e seus projetos sociais requer uma visita à sua trajetória. As inspirações começaram ainda na infância, na fase em que ajudou um tio que trabalhava no Mercado de Casa Amarela. “Nessa época, eu ficava observando os bonecos de barro na feira, os cordeis, aquilo me encantava. Com quinze anos fui pela primeira vez ao cinema, o Rivoli, também em Casa Amarela. Ali foi plantada na minha cabeça a semente de juntar artesanato com cinema”.

Jan Ribeiro

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De acordo com Lula Gonzaga, seu projeto de vida sempre girou em torno do cinema de animação, explorando a cultura popular de Pernambuco

Infância e primeiros trabalhos no cinema

Em 1970, com 18 anos, Lula Gonzaga foi para o Rio de Janeiro trabalhar com cinema. Lá, integrou o quadro de funcionários da produtora Persin Perrin Produções. “Dividia pensão com um amigo que era sobrinho do famoso Coronel Ludugero (personagem de rádio criado pelo recifense Luiz Queiroga). E através desses contatos fui parar na produtora, onde fiz muitos amigos e aprendi bastante”. Durante um ano inteiro, Lula teve a oportunidade de trabalhar com todas as funções do processo de produção de um filme.

Já com 20 anos, resolve voltar para o Recife, onde passa a trabalhar na Center, uma das maiores produtoras de publicidade da capital . Lá, conhece o cineasta Fernando Spencer. A partir daí se junta a vários outros cineastas de Pernambuco para formar o que deu início ao Ciclo do Super8 no estado. “Foi quando realizei o primeiro filme de animação de Pernambuco, numa coprodução com Spencer, o curta Vendo Ouvindo (1972)”, conta ele. De intenso conteúdo político, o curta é uma crítica à censura da ditadura militar. Com este trabalho, Lula passou a ser considerado o primeiro animador de Pernambuco.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Vendo Ouvindo’ (1972) inaugurou o cinema de animação em Pernambuco

No cenário de crise pelo qual  passava a publicidade no Recife no ano de  1975, Lula volta ao Rio de Janeiro e retoma os trabalhos nas Persin Perrin Produções. “Um tempo depois, fiquei sabendo que a Refefê Produções, produtora do ator Reginaldo Farias, queria contratar alguém para ser motorista do cineasta Flávio Migliaccio. Eu aceitei e passei um ano trabalhando nessa função. Ficamos muito amigos. Depois ele me chamou pra ser assistente de direção para fazer uns desenhos para o filme Maneco, o Super Tio (1978)”, relembra Lula Gonzaga.

Durante a produção deste filme, Lula contou a Flávio Migliaccio sobre um projeto que tinha para realizar filmes de animação baseado em músicas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Surge assim a produção do seu segundo filme, A Saga da Asa Branca (1979). “Conheci o Humberto e ele não só me deu o direito autoral de Asa Branca para desenho animado, como foi bem solícito e fez a narração do curta”. Mas no dia que o curta foi lançado na TV, Teixeira faleceu. ”Foi uma tristeza muito grande, fiquei bastante abalado”, revela Lula Gonzaga, com lágrimas nos olhos. O projeto, que envolveria outras canções do compositor parceiro de Luiz Gonzaga, acabou se encerrando ali.

No entanto, a parceria com Flávio Migliaccio rendeu seu terceiro filme, O Cotidiano (1980), que trata sobre o consumismo desenfreado nas cidades. “Ele me ajudou com uma parcela do patrocínio e boa parte do material. Havia um galpão na produtora cheia de equipamentos velhos, que disseram que eu poderia pegar. Tanto esse filme como o ‘Asa Branca’ foram filmados na truca de 35mm”.

A fase da transmissão do saber

Em 1982, Lula Gonzaga se inscreve numa bolsa de estudos patrocinada pela CAPES/ MEC – Embrafilme, uma especialização na Zagreb Film, uma das maiores produtoras de animação da Europa. “Era pré-requisito ter nível superior e saber falar outra língua, inglês ou francês. Eu não tinha nada disso e até hoje não sei como fui convocado. Três foram classificados: eu, Marcos Magalhães, diretor do Anima Mundi, e Antônio Moreno. Ainda consegui por lá um estágio e estendi minha temporada na Europa, uma região onde aprendi muito sobre 3D e animação”.

Quando Lula volta a Pernambuco, já em meados dos anos 80, o então prefeito de Olinda, José Arnaldo, o convida para ser diretor de cinema da cidade. “Coloquei em prática um dos projetos que mais gostei de ter feito, o Cine Bajado, que durou cinco anos. Era um cinema que não tinha outro igual no Brasil. Ficava localizado atrás do Clube Atlântico e lá tinha mostras de filmes soviéticos, francês, cubanos, infantis, desenhos animados, e com um acesso bastante facilitado”.

Jan Ribeiro

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Um dos projetos executados por Lula Gonzaga foi o Cine Bajado, que durou cinco anos em Olinda

No começo da década de 90, Lula recebeu um convite da Prefeitura de Igarassu para realizar oficinas na cidade. “Passei quase quatro anos por lá e, em cada oficina, eu colocava na sala de aula 20 alunos, de 12 a 16 anos”. Alguns destes jovens atuam até hoje no mercado de trabalho audiovisual, como Filipe Falcão, professor de animação da AESO, André Rodrigues, diretor de animação, que dirigiu o filme O Trambolho, e Jonatta Tavares, que auxilia Lula Gonzaga no seu Ponto de Cultura.

Surge assim o Método OCA (Método Oficina de Cinema de Animação), que consiste na montagem de um estúdio itinerante com ferramentas de baixo custo voltada para a profissionalização de jovens de baixa renda “O OCA é democratizar o conhecimento da animação. Fiz mais de 200 oficinas pelo Brasil, sendo 90% no Norte e Nordeste e sempre pra quem precisava. Meu público era o MST, tribos indígenas, quilombos, lugares como Amazonas, Roraima, onde você imaginar. Essa acabou sendo minha base, minha raiz”.

Jan Ribeiro

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Outra contribuição de Lula Gonzaga foi o Método OCA, uma oficina barata e simples de ensinar cinema de animação que ele realizou mais de 200 vezes pelo país

Hoje localizado em Gravatá, Lula Gonzaga explica que o Ponto surgiu em Igarassu. “Anualmente, oferecemos de dez a doze oficinas, de dez a doze exibições, e três videoclipes. Já fiz trabalhos sobre os pontos de cultura de Lia de Itamaracá, Coco de Beth de Oxum, Boi da Macuca, Orquestra Henrique Dias e agora Cabras de Lampião, dentro de um projeto que batizei de Músicas Animadas”, explica.

Lula Gonzaga teve também papel importante na articulação de vários Pontos de Cultura, principalmente os localizados no Norte e Nordeste do país. “Fiz uma reunião pra conectar os pontos de cultura ligados ao audiovisual, e a partir daí surgiu a Rede Nordeste do Audiovisual. Depois entrei na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, na Comissão Latino-americana do Ponto de Cultura e na Comissão Nacional do Audiovisual do MinC”.

Jan Ribeiro

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A nova sede do Ponto de Cultura Cinema de Animação fica no município de Gravatá, onde o cineasta também vai inaugurar o Museu de Animação Luiz Gonzaga

Na primeira gestão da ex-prefeita de Olinda, Luciana Santos, em 2000, Lula Gonzaga coloca em prática outro importante projeto. “Surgiu então o Cinema na Praça, que durou quatro anos. Toda semana rodávamos Olinda inteira, entramos em favela, comunidades. Eu fazia questão de levar o cinema pra quem não tinha acesso. A programação contava com um longa nacional, dois filmes de animação e um curta-metragem pernambucano. Na época, só quem passava curta-metragem era a TV Brasil, o Canal Brasil e eu”, comenta aos risos e cheio de orgulho.

Atualmente, Lula Gonzaga foca seus esforços no Agreste de Pernambuco. Em 2013 e 2014, Lula realizou as duas primeiras edições do festival de animação do interior, o Animacine – Festival de Animação do Agreste, que aconteceu em Caruaru, Bezerros e Gravatá.  Além disso, a nova sede do Ponto de Cultura Cinema de Animação fica no município de Gravatá, onde o cineasta também vai inaugurar o Museu de Animação Luiz Gonzaga. O espaço começou a ser construído em outubro de 2015, com recursos da família e através de um financiamento colaborativo. “A ideia é que este espaço tenha oficinas permanentes, cineclube e uma sala pequena pra festival de animação, entre outras atividades”.

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