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PATRIMÔNIO CULTURAL

O Hércules do frevo

Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Maestro Ademir Araújo - ou Maestro Formiga - dá um exemplo de vitalidade que se renova há mais de cinco décadas de trajetória artística, como um dos mais respeitados nomes do frevo pernambucano

Costa Neto

por Leonardo Vila Nova

Aqui trabalha um maestro!”. Foi com essa frase, dita a plenos pulmões, e acompanhada de um sorriso orgulhoso, que fui (muito bem) recebido no lugar marcado para a entrevista. Era evidente o meu olhar curioso, correndo cada detalhe que compunha a sala daquele escritório nada convencional, localizado no bairro da Boa Vista, centro do Recife. No lugar do computador, um teclado musical. Pelas mesas, armários e gavetas, viam-se discos aos montes, algumas partituras, medalhas e condecorações (além de um brasão do América Futebol Clube pendurado numa das paredes). À minha frente, um atencioso e divertido anfitrião, Ademir Araújo – conhecido também como “Maestro Formiga”.

O biotipo um tanto quanto mirrado, que lhe rendera o apelido, parece não dar conta do artista que se agiganta à frente da Orquestra Popular do Recife, sob o seu comando há quase quatro décadas. Instrumentista, compositor, arranjador e regente, Ademir é dono de dezenas de condecorações que ganhou ao longo da vida, como, por exemplo, a Medalha do Mérito da Cidade do Recife, o título de Memória Viva do Recife e de homenageado do carnaval da capital pernambucana, em 2008.

Agora, Ademir é também Patrimônio Vivo de Pernambuco, título que recebeu no final de 2013 e que veio coroar uma trajetória repleta de frevos, valsas, choros, maracatus e de uma energia que impressiona e se renova por carnavais a fio.

Personalidade musical das mais respeitadas por artistas de várias gerações – inclusive pelos roqueiros e “mangueboys” -, aos 71 anos, Ademir não é daqueles maestros convencionais.  Despojado, sempre com seu indefectível boné, óculos escuros e correntes no pescoço, passa ao largo de qualquer pompa ou comportamento cerimonioso. É uma antítese desse estereótipo. Hiperativo e conversador, toma de assalto qualquer um com o seu jeitão falante e agitado ao discorrer a respeito de qualquer assunto ou para exaltar qualquer visgo de memória que surja ao longo da conversa, mesmo que um pensamento lhe interrompa, de repente, uma linha da raciocínio anterior.. Com a voz já rouca do tempo e rápido nos gestos e no falar, Ademir estava às vésperas de mais um carnaval e com ele, uma maratona de apresentações junto à Orquestra Popular do Recife. Portanto, nesse caso, tempo é ouro! Mas ele já está acostumado e, sem cerimônias, conversa um tanto, bastante atencioso. E, assim, tome prosa e cafezinho!

Reprodução / Costa Neto

Reprodução / Costa Neto

Ademir Araújo (dir.), em 1975, recebe das mãos do então prefeito do Recife, Augusto Lucena (esq.), a Medalha do Mérito Cidade do Recife

Carnaval, pra mim, é todo dia!“, é assim que Ademir comenta sobre a agitada vida urbana no centro do Recife, e sobre como ele se insere artisticamente em meio a essa “selva de pedras”. Lá, além do seu escritório, também fica o estúdio onde costuma ensaiar. Cotidianamente, fazem parte de sua vida carros buzinando, vendedores ambulantes anunciando seus produtos à venda, pessoas pra lá e pra cá, sempre correndo, atrasadas, embaladas pelo ritmo frenético que a contemporaneidade nos impõe. Pra ele, isso tudo já é um verdadeiro carnaval. “A única diferença é que no Carnaval as pessoas se pintam, usam fantasias, mas no dia a dia é essa agitação o tempo todo. Pra mim, parece tudo uma festa. É festa todo dia!“. E é nesse “caos civilizado” em que vive Formiga. Porém, sem deixar a peteca cair ou perder a inspiração musical que o acompanha o tempo inteiro, aonde quer que vá.

Com uma formação musical construída dentro do universo erudito, ele sempre procurou se utilizar do aprendizado técnico que foi adquirindo durante décadas de estudos a serviço de uma música que transborda empatia popular.  “Quero ser erudito sendo popular, quero ser popular sem ser erudito!”. Para Ademir, a música não está engessada em compartimentos. Ela deve, sim, é agregar as pessoas, e não separá-las em nichos. Por isso, com a mesma desenvoltura com que faz uma valsa, ele envereda pela ciranda, pelo maracatu, pelo samba e, obviamente, pelo frevo. O frevo, que é justamente o ritmo mais popular do carnaval pernambucano, mas não menos sofisticado, por isso. E com o qual ele passeia desde sempre. O frevo que está presente o tempo inteiro nas suas memórias, no seu falar, nos seus gestos, na sua respiração. Ele vive frevo e é dele que se faz, perfaz e se reinventa como artista, como ser humano. São, certamente, indissociáveis.

Costa Neto

Reprodução / Costa Neto

Documento que institui a entrega da Medalha do Mérito Cidade do Recife, a Ademir Aráujo, em 1975

Das cores para as notas
Curiosamente, foi por muito pouco que Ademir não enveredou pelo caminho das artes plásticas. “Eu nem sonhava em ser músico. Eu havia nascido pra pintura”, conta Ademir sobre sua primeira inclinação artística. Chegou a concluir o curso de Arte Decorativa, na Escola Industrial Agamenon Magalhães. Aluno dos mais aplicados, teve entre os seus professores Abelardo Paes Barreto. Ademir seguia tranquilamente seu curso e pensava em enveredar definitivamente pelo caminho da Arquitetura e da Engenharia. Isso até a música, bem por acaso, se manifestar em sua vida.

Foi em setembro de 1957, entre o 3º e o 4º ano de estudos, que a música pegou Ademir de jeito, e ele, então, decidiu trocar os pincéis, lápis e tintas pelos acordes, solfejos e a batuta. Durante o treinamento da Banda Musical da Escola Industrial, que se preparava para o desfile cívico de Independência do Brasil, enquanto os alunos marchavam, o grupo dava andamento ao seu repertório tradicional para desfiles. E foi durante a execução de “Wien Bleibt Wien” (“Viena sempre Viena”), de Johann Schrammel, que se deu o estalo em Ademir, de imediato. “Aquilo foi como um choque em mim. E, naquele momento em que terminaram de tocá-la, eu decidi que queria ser músico”. Pronto. Estava feito… e não tinha mais volta. Naquele instante, nascia o artista.

Daí em diante, a persistência fez parte do cotidiano de Ademir e se tornou o ingrediente principal para que ele alcançasse, obstinadamente, seu desejo. Qual o seu grau de instrução? Com muita honra, autodidata“, lembra Ademir a respeito de uma pergunta que lhe foi feita, certa vez, por Ariano Suassuna. No intento de se tornar músico, ele foi atrás das possibilidades que surgiram. Teve, de início, o apoio do maestro Edson Rodrigues, que lhe ensinou as primeiras notas. No entanto, em seu primeiro “teste”, não teve muito sucesso. Quando instado a solfejar a escala musical (reproduzir o som das notas musicais através do canto), Ademir foi totalmente desafinado, não acertou uma sequer. Teve de ouvir do maestro: “Rapaz, você tá muito bem na pintura. Fique por lá mesmo”. Mas a sua teimosia falou mais alto. O que poderia desencorajá-lo soou, na verdade, como um desafio que o instigou ainda mais. Passou a ter aulas diárias de teoria e solfejo com José Otávio Prazeres, sempre após os estudos na Escola Industrial.

Maio de 1958. Concurso da Banda Municipal do Recife. Ademir, com apenas 16 anos, ainda era muito “verde”, um iniciante, mas encheu-se de coragem e resolveu participar. “Eu ainda estava começando na música, né? Resolvi, então, me aventurar nessa”, lembra Ademir do sentimento que o moveu a arriscar-se no concurso. Entre mais de 100 candidatos, muitos deles profissionais, lá estava ele, no Teatro de Santa Isabel, com sua trompa sax-horn (ou saxotrompa, também chamada de “trompa cachorrinha”). Ademir, atirado que era, não se intimidou diante da concorrência, e acabou ficando entre os 26 selecionados. Era 7 de outubro,  dia do primeiro ensaio de Ademir já como integrante da Banda Municipal, e, a partir daí, Ademir, com pouco mais de um ano de envolvimento com a música, se tornava, então, um profissional. Inicialmente, ele continuou no sax-horn, até que, pegando dicas com os colegas, passou pro saxofone.

Costa Neto

Daí não parou mais. Ganhou o mundo fazendo do carnaval o seu mais importante e orgânico laboratório musical, tendo tocado em praticamente todas as agremiações e clubes da cidade. Pique não lhe faltava. “Eu começava a tocar no sábado, no Batutas de São José, no Cais de Santa Rita, e seguia, direto, até a segunda-feira, à noite. Aí eu dizia pra minha mãe: ‘Olhe, não fique preocupada, não’, e ia ‘mimbora’. Eu falava com o Guarda Municipal, chegava e dormia nos bancos de jardim. Quando dava 8h, as muriçocas me acordavam, eu pegava meu instrumento e continuava em outro canto, das 10h às 14h. Tocando, eu garantia meu rango do meio-dia, depois eu ia tocar a matinê. Às seis horas (18h), eu tomava uma sopa e seguia pra Madeira do Rosarinho, na Encruzilhada”, isso só pra ilustrar um pouquinho da odisseia que Ademir empreendia, que ainda incluía Clube das Pás e outros. Tudo para complementar o salário que recebia da Banda, que não era muito, nem pouco. Era “na medida”. Ademir gastou todo o seu primeiro ordenado na compra do  “Tratado de Harmonia Berlioz”, publicação que lhe serviu como base do aprendizado musical, mesmo que, para surpresa, fosse totalmente escrito em italiano. “Tem umas coisas parecidas com o português, né? Aí eu fui me virando“. E, assim, foi estudando.

Composições a mil por hora
Conversar com o maestro Ademir Araújo é uma overdose musical, sem exageros. A todo instante, suas memórias são cerzidas por músicas sempre associadas a períodos de sua vida. Em especial, suas composições, que marcam inteiramente o diálogo e vão delineando uma ordem pretensamente cronológica – por vezes, um pouco embaralhada para o interlocutor, tamanha é a velocidade com que elas lhe chegam à mente.

Em 2014, o primeiro frevo composto por Ademir completa 50 anos. “No ano 2000″, um frevo-de-rua, foi escrito em 1964, quando ele tinha entre 20 e 21 anos. A profusão de vozes de sopros, e o ideário futurista que a música sugeria renderam elogios de Waldemar de Oliveira, quando da sua participação no concurso municipal de músicas carnavalescas. Na ocasião, ele contou com  auxílio luxuoso de Naná Vasconcelos, na bateria, promovendo um diálogo entre o frevo e o jazz. Era o início de uma obra que consolidava sua marca registrada, a de compositor extremamente inovador em seus arranjos.

Costa Neto

Costa Neto

Partitura de “No ano 2000″, primeiro frevo escrito por Ademir, em 1964

Data desta mesma época “Prelúdio de Maracatu”, também escrita em festival, ficando em segundo lugar na disputa. Ela marca a aproximação de Ademir com Claudionor Germano, cuja participação na música foi acertada pouquíssimos minutos antes da sua apresentação, aos 45 do segundo tempo. E daí vieram tantas outras composições, como “Frevo na Tempestade”, feita na noite da enchente de 1966, quando Ademir, pequeno e magro, teve que revestir-se de uma força hercúlea para salvar sua mãe e tia da enchente. “Frevo Loucura”, que vislumbra um interno de um hospício que foge para a rua, atrás de uma orquestra de frevo.  Depois, vieram “Alô, Recife”, “Pra frente, Frevo”, “Aí vêm os palhaços”, e tantas outras que marcaram sua trajetória como compositor. Hoje, Ademir Araújo contabiliza quase 400 composições e um sem fim delas gravadas.

Nome respeitoso e respeitado
Pela sofisticação e arrojo que trazia em suas composições, Ademir aproveitou todo esse potencial para consolidar seu nome entre os grandes da música pernambucana. Ademir passou, então, a assumir importantes projetos musicais na cidade. Já esteve à frente da Banda Sinfônica do Recife (1984 a 1991), e, em 1977, assumiu a Direção Musical da Orquestra Popular do Recife (posto antes ocupado por Maestro Duda, desde a sua fundação, em 1975), e foi com ela que sua obra ganhou maior alcance. A história da Orquestra se confunde com a do próprio Ademir. Com ela, ele foi longe, ultrapassando as fronteiras do Brasil e chegando a países como Alemanha e Bélgica. Nos anos de 1980, outra empreitada: junto com Claudionor Germano, ele apresenta ao povo a famosa Frevioca, projeto concebido pelo jornalista e escritor Leonardo Dantas. Ela começou como um caminhão, decorado com motivos carnavalescos, com caixas de som e uma orquestra de frevo, percorrendo as ruas da cidade. Era o povo na rua e o frevo esquentando os foliões sob a batuta de Formiga. Apesar das mudanças estruturais (passou pra carroceria de ônibus e, depois, bonde), a Frevioca continua sendo um símbolo do carnaval de rua e popular no qual todo recifense gosta de se esbaldar.

Costa Neto

Costa Neto

Estreia da Frevioca, em 1985, nas ruas do Recife, sob o comando de Maestro Ademir Araújo

Parte de sua obra está registrada nos discos “Música erudita pernambucana” (2002), “O mestre de banda” (2010), “Os 12 trabalhos” (2012). Em uma audição destes trabalhos, é possível perceber porque que, além de toda essa trajetória pautada por sua genialidade, Ademir é tão respeitado e seu talento tão reconhecido. Ele consegue, com desenvoltura, passear pelos mais diversos estilos musicais. Em sua obra, é possível se deparar com cocos, valsas, caboclinhos, baiões, maxixes, choros, sambas, cirandas… Esse múltiplo criador fica mais evidente em “Os 12 trabalhos”, cujo nome é alusivo à Mitologia Grega, que envolve o semideus Hércules, onde cada faixa remete a um ritmo diferente. O álbum foi resultado de um projeto que teve o incentivo da Fundação Nacional da Arte – Funarte.

Música sem idade e sem fronteiras
No entanto, o incansável Formiga parece não se contentar apenas com uma dúzia de trabalhos, muito menos deitar em berço esplêndido após já ter recebido tantas honrarias ao longo de sua trajetória. Poderia até pendurar as chuteiras e dar por cumprida a sua missão como defensor fervoroso dos ritmos pernambucanos. Mas sua mente irrequieta e sua alma eternamente jovem o fizeram enveredar por mirabolâncias musicais ainda mais ousadas, caminhos não convencionais e dar mostras, mais uma vez, de sua constante instigação musical. Ademir não enxerga fronteiras para os mais diversos diálogos musicais. Foi assim quando criou os arranjos de sopro da música “Nascedouro”, da Nação Zumbi, para o disco “Fome de Tudo”.

Pri Buhr

Pri Buhr

Andreas Kisser (esq.), do Sepultura,  e Ademir Araújo (dir.), durante show da Orquestra Rockfônica, no 23º Festival de Inverno de Garanhuns (2013)

Foi assim com sua incursão pelo universo dos “camisas pretas”, com seu projeto Orquestra Rockfônica, grupo que faz releituras de clássicos do rock’n'roll em frevo. Integram o set list nomes como The Beatles, The Clash, Deep Purple, Rolling Stones, Motorhead, entre outros. O resultado é bombástico! Formiga parece se sentir tão à vontade tocando “Cabelo de Fogo” (do seu colega Maestro Nunes) quanto executando sua versão de “Paranoid” (Black Sabath). “A música permite que a gente possa passear por esses caminhos diferentes. Basta ter vontade e um tiquinho de ousadia. Eu, como não tenho medo dessas coisas, né?“, conta Ademir sobre sua incursão no mundo do rock, que promoveu um encontro inusitado entre a sua Rockfônica e o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, no 23º Festival de Inverno de Garanhuns. O resultado foi um bando de cabeludos, vestidos de preto, com as mãos pra cima, exaltando o som envenenado que veio dessa mistura com o rock e o frevo.

O frevo que toma conta do Brasil
Um dos sonhos mais acalentados por Formiga é que o frevo transcenda suas fronteiras, saia das ruas do Recife e das ladeiras de Olinda e tome conta de todo o Brasil, tornando-se tão popular quanto o samba. O primeiro passo foi dado há pouco mais de dois anos, quando ele esteve em Brasília (DF), a convite da Funarte, para dar uma oficina de reciclagem musical e descobriu que não existiam instrumentistas de sopro no local. De imediato, ele tentou dar um jeito nessa situação e procurou pessoas que pudessem apoiá-lo na ideia de criar a primeira orquestra de frevo da capital federal. E eis que surgiu a Orquestra Marafreboi, sob o comando do pernambucano Fabiano Medeiros. Esse foi o pontapé inicial para que Ademir ousasse ir ainda mais longe: criar a Orquestra Nacional de Frevo.

Costa Neto

Costa Neto

Ata de fundação da Orquestra Nacional de Frevo, assinada em 9 de fevereiro de 2014

Ao longo de dois anos, a ideia de reunir músicos de todo o Brasil foi sendo gestada, amadurecida. E no último dia 9 de fevereiro (Dia Nacional do Frevo) foi, oficialmente, criada (com registro em ata assinada por diversos músicos) a Orquestra Nacional do Frevo, em frente à Igreja do Carmo, em pleno bairro de São José (nascedouro do frevo pernambucano). Como uma espécie de homenagem, Frei Caneca foi eleito seu patrono. E Ademir agora está arregaçando as mangas num mapeamento de músicos de todo o Brasil que tenham interesse em participar desta empreitada. A internet tem sido sua aliada neste intento. “Uma rede de pessoas está participando desse processo. Nós pretendemos percorrer o país, com apoio dessas bases locais, pra ir atrás de músicos que queiram participar. Primeiro, tem que meter a cara e ir atrás“, explica. Se depender desse incansável Hércules, a orquestra será mais um dos seus trabalhos, realizado com louvor.

 

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