Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

PATRIMÔNIO CULTURAL

Palestra destaca o valor e significado dos bens culturais do Recife

Conversa teve a presença do historiador Leonardo Dantas, que opinou sobre o que precisa ser tombado para que seja preservada a memória da cidade

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Ministrada por Leonardo Dantas, palestra ‘O que precisa ser tombado no Recife?’ foi realizada nesta quarta (16), na sede do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural

Marcus Iglesias

Uma conversa com a proposta de entender melhor o que é o Recife, bem como o significado e valor dos seus bens culturais, para que assim possa ser contada sua história. Na manhã desta quarta-feira (16) a sede do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, no bairro da Boa Vista, abriu as portas para o historiador Leonardo Dantas, também integrante do Conselho, que ministrou a palestra O que precisa ser tombado no Recife?. O encontro, uma das atividades da 10ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, evento promovido pela Secretaria de Cultura estadual e Fundarpe, foi um verdadeiro resgate dos símbolos patrimoniais e afetivos da capital pernambucana.

Participaram deste momento outros integrantes do Conselho de Preservação Patrimonial de Pernambuco, como a vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, e nomes como o professor e historiador da UFPE, George Cabral, que também é presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP) – a mais antiga instituição cultural do estado.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

O encontro contou com a presença de vários conselheiros e do professor da UFPE e historiador George Cabral

A palestra teve a proposta de ressaltar, sob o ponto de vista de Leonardo Dantas, alguns bens culturais do Recife que necessitam de um tombamento para que a história da cidade seja preservada e repassada da melhor maneira. Para isso, o historiador brindou o público com uma aula sobre a capital pernambucana. “Recife era o porto da capitania de Duarte coelho, que chega para fundar uma feitoria com o intuito de desenvolver o centro da capitania. Olinda, por sua vez destruída pelo incêndio, não ficando pedra sobre pedra, força sua população a migrar para a cidade vizinha e fica nas sombras enquanto a capital crescia. Um detalhe curioso é que em 1966 uma comissão de historiadores chegou à conclusão de que o início da população do Recife estava em Olinda, porque quando Duarte Coelho chegou aqui Olinda já existia”.

De acordo com Leonardo Dantas, a história da capital pernambucana é contada com fatos, mas também muita ficção. Há por exemplo o mito de que os holandeses eram permissivos com o culto religioso, o que não é verdade. “Eles abriam para os judeus desde que os encontros fossem feitos de portas fechadas e reprimiam fortemente os católicos. Todas as igrejas foram tomadas para o público luterano e anglicano. Somente Frei Manoel Calado podia rezar missa dentro da sua casa e também com as portas trancadas”, explicou o historiador. Mas há também fatos, segundo ele concretos, como o grupo de judeus que saiu do Recife para fundar na América do Norte a cidade de Nova Iorque. “Ao todo, 23 famílias saíram daqui com destino aos Estados Unidos. O ex-presidente Barack Obama, inclusive, assinou durante seu governo um decreto que nomeava a cidade do Recife como berço da nação hebraica nos EUA”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Para Leonardo Dantas, é necessário compreender melhor os bens culturais e patrimoniais do Recife para que se possa contar da melhor forma a história da cidade

Leonardo Dantas também deu detalhes sobre a formação da cidade, que atendia aos grandes comerciantes, os quais por sua vez atendiam à Igreja. “Depois da expulsão dos holandeses, Recife recebe uma imigração muito grande de portugueses vindos do norte de Portugal que vieram cuidar do comércio. Lembrem-se que neste período o sujeito passava a vida toda fazendo boas ações pra conseguir sua cadeira no céu. Logo, os clubes sociais da época eram as irmandades e confrarias. Cada parcela dessa sociedade procurou se abrigar e usar suas horas de lazer dentro das suas irmandades. A primeira delas, a Ordem Terceira de São Francisco, reunia grandes comerciantes. Destaque para Antônio Fernandes de Matos, responsável pelo início da construção da Capela Dourada e da Igreja do Espírito Santo”.

Apesar de ser uma irmandade voltada para os nobres da época, a Ordem Terceira de São Francisco não impediu que no início do século 18 tivesse como seu presidente um ex-escravo chamado Luís Cardoso. Ele veio trabalhar no Recife com um comerciante alemão e com o tempo conseguiu comprar sua carta de alforria para depois se transformar no segundo homem mais rico da capitania. “Tanto o Antônio Fernandes de Matos como Luís Cardoso não deixaram herdeiros e doaram todo seu patrimônio para a Ordem Terceiras. Até hoje esse legado está ai. Foi um período de muita riqueza na cidade. Nenhuma obra do Recife do século 18 foi feito pela coroa portuguesa, e sim pelo seu comércio”, esclareceu Leonardo Dantas.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Como conselheiro, Leonardo Dantas é relator do processo de tombamento da Cruz do Patrão, cujo pedido segue em análise na Secult-PE e Fundarpe

Para ele, ainda há muito a ser preservado para que se possa contar a história da capital pernambucana da melhor forma. “Eu defendo, por exemplo, a necessidade do tombamento urgente da paisagem do Capibaribe, do bairro de Dois Irmãos até a antiga Ponte Giratória no centro do Recife, porque a calha do rio nem a Prefeitura sabe mais do verdadeiro mapa. Nos últimos anos as incorporadoras foram avançando e construindo dentro do Capibaribe, e não foram pequenas construção, mas prédios de 30 andares”.

“Outra coisa que não se apercebe são os sítios urbano recifenses. Um deles é o Sítio dos Manguinhos, hoje ocupado pela Arquidiocese do Recife e Olinda. Temos outro na Av. Rosa e Silva, onde fica a Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, que originou o bairro de mesmo nome”, opinou o historiador, citando outros espaços que precisam ser tombados para que a memória do Recife seja preservada. “Faz-se necessário o tombamento de bens que remontam ao início da capital pernambucana, a exemplo da Cruz do Patrão, monumento de balizamento náutico do século 18 e que se encontra ainda hoje no mesmo local”, disse Leonardo Dantas, que é relator do processo de tombamento deste bem, atualmente em análise na Secult-PE e Fundarpe.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Leonardo Dantas destaca o recente tombamento do Cemitério de Santo Amaro, uma das mais importantes galerias de arte ao céu aberto projetada pelo arquiteto francês Louis Léger Vauthier

“Por outro lado, temos alguns avanços neste sentido. Conseguimos recentemente o tombamento do Cemitério de Santo Amaro, uma das mais importantes galerias de arte ao céu aberto. Um cemitério que foi projeto pelo arquiteto francês Louis Léger Vauthier, e que tem o primeiro prédio gótico do Recife. Ainda assim, temos outros bens a serem tombados, a meu ver, como o Mercado e as fachadas e azulejos do bairro da Boa Vista, presentes fortemente na Rua Velha, Rua de Santa Cruz e Rua da Glória, bem como a Basílica do Colégio Salesiano”, opinou.

Pouca gente sabe, mas a abertura do processo de tombamento de um bem cultural ou natural pode ser solicitada por qualquer pessoa. No entanto, é fundamental que o solicitante descreva com a máxima exatidão possível a localização, dimensões, características do bem e justificativa do porque estar sendo solicitado o tombamento. Mais detalhes sobre como iniciar um processo de tombamento de algum bem cultural podem ser encontradas no Portal Cultura.PE

< voltar para home