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PATRIMÔNIO CULTURAL

Protagonismo feminino no maracatu é abordado na Semana do Patrimônio

Evento debateu a importância das mulheres ocuparem mais papeis de liderança nas agremiações

Costa Neto

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Mestra Joana Cavalcante, regente do Nação do Maracatu Encanto do Pina, Lady Selma Albernaz, professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia da UFPE, e Jailma Maria Oliveira, Doutoranda do curso de pós-graduação em Antropologia da UFPE, durante a roda de diálogo realizada na Casa do Carnaval do Recife.

Por: Roberto Moraes Filho

Promovendo discussão sobre a presença da mulher nas tradições do maracatu, a 8ª Semana do Patrimônio, promovida pela Secult-PE, Fundarpe e contando com a parceria da Secretaria da Mulher de Pernambuco  e a Casa do Carnaval (Recife), realizou na manhã de terça-feira (18), a roda de diálogo ‘Patrimônio Cultural e Gênero: o protagonismo da mulher no Maracatu Nação’.

Contando com a mestra da Nação do Maracatu Encanto do Pina, Joana Cavalcante; a antropóloga e professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia da UFPE, Lady Selma Albernaz; e Jailma Maria Oliveira, Doutoranda do curso de pós-graduação em Antropologia da UFPE, a explanação inicial abordou questões como a hierarquia existente nas nações de maracatu, assim como o machismo predominante para a execução de determinados papeis e o domínio de funções, seguindo tradições já pré-estabelecidas.

“O significado do gênero é muito maior e mais complexo do que a simples classificação da divisão de tarefas. O masculino tem a tendência de ser superior e englobar a participação do gênero feminino como questão de domínio da situação”, explicou a professora Lady Selma. “A partir das posições que eles ocupam, é que estarão pautando a sociedade. Com isso, até hoje as mulheres formam o grupo social mais pobre e da sociedade, especialmente quando se trata da relação de ocupar posições de liderança”, completou.

Observando a composição dos maracatus nação a partir de sua tradição, a roda de diálogo refletiu também sobre a religiosidade dos grupos: “A côrte é feminina, apesar de ser composta tanto por mulheres como homens. Já o batuque, é extremamente masculino. Sendo o gênero feminino relacionado especialmente com o lado sagrado do maracatu, é ele que está responsável pela proteção espiritual do grupo”, observou Lady Selma.

“A convite do Mestre Luiz de França (Maracatu Leão Coroado), Marta Rosa se tornou a primeira mulher a tocar em público uma alfaia. Este fato, relacionado ao machismo que impera em diversos segmentos da cultura popular, não se trata de tirar o poder dos homens, mas sim, uma questão de ocupação da mulher pelo direito que ela também possui de exercer a determinada função”, ressaltou a professora.

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Para a mestra Joana Cavalcante, que cresceu dentro do terreiro do Maracatu Encanto do Pina e toca todos os instrumentos do grupo, exercer a função de líder foi vencer diversos preconceitos e demonstrar que a mulher pode e deve ocupar qualquer papel: “Dentro do terreiro e do maracatu, mulher sempre fez de tudo. O que divide um pouco é a questão dos homens cuidarem dos instrumentos e do batuque. Eu fiquei surpresa em saber que tinha sido a primeira mulher a tocar e a reger em um maracatu”, comentou.

“Hoje sinto que minha posição dentro do grupo é, sobretudo, a de preservar a religiosidade do maracatu, que está se deteriorando em virtude de outras criações externas às origens de terreiro, que não são voltadas para contribuir socialmente com a comunidade. Quero que a tradição do maracatu preserve especialmente o sagrado, a matriz africana e tudo o que o constitui desde a sua formação inicial”, ressaltou a mestra Joana.

Para a doutoranda do curso de pós-graduação em Antropologia da UFPE,  Jailma Maria Oliveira, no quesito de patrimônio, as nações de maracatus atualmente enfrentam um grande desafio, além da questão da aceitação do gênero feminino. “A religiosidade é um marcador importante e não se negocia, especialmente para a manutenção do maracatu. Entendo que para ser mestra de maracatu, como é o caso de Joana, é preciso conhecer e dominar não apenas a alfaia, como também preservar a religiosidade praticada. Cada grupo tem sua forma de lidar com a religião e isso precisa ser respeitado”, comentou.

Ao final da roda de diálogo, que também debateu questões relacionadas aos preconceitos vivenciados pelas religiões africanas, o público participante também opinou e fez perguntas para as participantes. Como um dos desfechos do debate, a professora Lady Selma enfatizou a questão da disputa de virilidade entre os homens, como um dos quesitos relacionados ao machismo. “A dificuldade de tocar abê, que é tido como um instrumento mais destinado às mulheres, é tão grande quanto tocar alfaia. A ideia do abê como beleza para a dança corporal desqualifica a ideia da mulher no poder, o que demonstra a questão da ocupação do homem nesta posição, desde as primeiras formações de maracatus”, destacou a professora.

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