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PATRIMÔNIO CULTURAL

Reisado de Inhanhum é patrimônio em busca de renovação

Comunidade quilombola no sertão pernambucano comemora o título de Patrimônio Vivo do Estado e define estratégias que apontam para a sobrevivência da expressão cultural secular

Rodrigo Ramos/CulturaPE

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Composto majoritariamente por pessoas idosas, grupo que é Patrimônio Vivo do Pernambuco enfrenta o desafio de renovar a tradição cultural

por Tiago Montenegro

No topo do Monte Carmelo, ponto privilegiado de observação do Rio São Francisco no município de Santa Maria da Boa Vista, Mestra Maria Emília lamenta a estiagem no sertão pernambucano e o assoreamento do território em que vive há 71 anos.

É as margens do rio símbolo de vida e resistência que ela dá continuidade a uma tradição cultural secular da região e um dos mais recentes Patrimônios Vivos de Pernambuco: o Reisado da comunidade quilombola do Inhanhum, ou simplesmente, Reisado de Inhanhum.

Sem registro preciso de fundação, a história do grupo é repassada oralmente pelos mais velhos do povoado, onde cerca de cem famílias residem atualmente e veem no folguedo popular um motivo de orgulho, de festa e de expressão de sua religiosidade.

Rodrigo Ramos/CulturaPE

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A mestra Maria Emília mantém a fé na brincadeira popular

“Tinha 12 anos quando comecei a dançar o reisado, era uma emoção muito grande porque naquele tempo não tinha os movimentos (festivos) que tem hoje”, lembra Emília no terraço de sua casa onde, naquele sábado, 6 de janeiro de 2018, reuniu os integrantes do grupo para uma conversa boa – e um almoço farto – com a equipe do portal Cultura.PE.

Era Dia de Reis. Os festejos haviam começado na noite anterior, com o tradicional cortejo de porta em porta pela comunidade. “A gente começa aqui nesta casa, se veste, sai em fila pela rua, vai pedir a benção ao padroeiro e ao menino Jesus dos Santos Reis e só depois segue para as outras casas cantando ‘O Rei da Porta’. Onde deixam a gente entrar, a gente faz a festa”, sorri a mestra.

Rodrigo Ramos/CulturaPE

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Uma apresentação no centro de Santa Maria da Boa Vista atraiu o público no último 6 de janeiro, Dia de Reis

Herança da colonização portuguesa, o reisado agrega músicas, cantos, danças e encenações dramáticas conhecidas como entremezes – ou entremeios – nos quais se destacam personagens cômicos como o Mateus e os caretas, e ainda representações de animais como a borboleta.

A memória coletiva do Inhanhum aponta que a brincadeira por lá começou na segunda metade do século XIX, tendo como importante referência um homem negro chamado Nazário Mateus, que aprendeu sozinho a tocar viola e chegou a criar seu próprio reisado, o Reisado de Palma ou Reis de Batuque. O grupo permaneceu ativo até, pelo menos, a década de 1940, sob o comando de seus filhos Corneu Mateus, Damázio Mateus e ainda de Dona Adelina, viúva de Corneu e que assumiu o papel de mestra do grupo por volta de 1930.

Rodrigo Ramos/CulturaPE

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O careta é um dos personagens cômicos do folguedo

O atual Reisado do Inhanhum perpetua saberes e reaviva ainda a experiência de um outro grupo surgido na região em meados do século passado, o Reisado de Congo. Sob a liderança do agricultor João Preto – que aprendera os ritos da tradição na Bahia e passou a ensinar jovens a tocar instrumentos como violão, pandeiro e triângulo ao retornar à comunidade -, o grupo se manteve ativo também pelo empenho de personagens como a mestra Dona Xandô, irmã de João.

“Se não fosse João Preto, eu não tava aqui agora”, lembra Manoel Benedito, atual violeiro do grupo. Foi com ele que aprendeu, ainda adolescente, a tocar o instrumento que tem animado as festas na região.

Rodrigo Ramos/CulturaPE

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Músicos do grupo aprenderam a tocar com os mais velhos da comunidade

TRADIÇÃO QUE SE RENOVA

De acordo com relatos dos remanescentes do quilombo, homens e mulheres sempre participaram do reisado em Inhanhum, mas sem indumentárias especiais. Os homens usavam chapéus e roupas do cotidiano; as mulheres, saias ou vestidos. O cuidado com as vestimentas – como a definição de trajes que revelam a unidade do grupo – é uma inovação na linha histórica do folguedo.

“A gente sempre viveu da agricultura, teve época em que não tinha dinheiro para fazer as roupas, então comprava tintol e tingia as saias de vermelho, pra todas ficarem iguaizinhas”, lembra Maria Genovês, uma das dançarinas mais antigas do grupo. Hoje, as vestimentas, arranjos de cabeça e fantasias, assim como as espadas utilizadas nas apresentações são confeccionadas pelos integrantes ou parentes.

Na conversa com os brincantes, uma preocupação sempre se sobressai: o pouco engajamento dos mais jovens da comunidade. “Antigamente não tinha tanta festa, o reisado era nossa festa, era onde a gente se divertia, conhecia as meninas e só muito tempo depois começava a namorar”, lembra Seu Manoel Benedito. As transformações socioculturais no cotidiano do interior brasileiro ensejam um grande desafio para a renovação de grupos atrelados a costumes e ritos religiosos como é o caso do reisado.

Rodrigo Ramos/CulturaPE

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As adolescentes Ana Vitória e Maria Regina (centro da imagem) vencem a timidez e se engajam nas atividades

Maria Regina (14 anos) e Ana Vitória (12) são as únicas adolescentes engajadas atualmente. “Comecei em 2014, fizemos um grupo só de gente mais jovem, mais algumas desistiram, não quiseram mais dançar. Agora, com o (título de) Patrimônio Vivo, queremos tentar de novo, chamar novamente o pessoal porque quando o povo mais velho morrer, a gente é que tem que ficar na cultura”, comenta Regina.

PLANOS PARA O FUTURO

Em 2017, o Reisado do Inhanhum foi um dos seis Patrimônios Vivos escolhidos na XII edição do Concurso, pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC). Além do título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Reisado passa a receber bolsa mensal de R$ 3.200,00. Com este valor, o grupo já começou a definir algumas prioridades e a fazer planos para que a transmissão de saberes, um dos deveres dos Patrimônios Vivos diplomados, possa seguir adiante.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

Ana Lúcia, ao centro, na cerimônia de entrega do título de Patrimônio Vivo

“Nossa prioridade é a construção da sede do reisado, um lugar para reuniões, ensaios e também de oficinas para os mais jovens, para preservar o que a gente construiu até aqui e ir além”, conta Ana Lúcia Rodrigues, atual presidente do grupo. Além da formação do reisado infantil, a aquisição de novos instrumentos musicais como zabumba, violão e pandeiro também é prioridade, “para acabar com essa história de pedir emprestada a caixa de som toda vez que a gente se apresenta”, brinca Seu Manoel.

A transmissão dos saberes aos mais novos já está em curso também por meio de um projeto desenvolvido em parceria com a Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista e o Ponto de Cultura Nação Coripós, que promove apresentações do Reisado e conversas com as mestras da região em escolas públicas. “Se dão meia hora pra gente, quinze minutos é pra ser aproveitado pelas adolescentes, um processo de sensibilização mesmo dos mais jovens, que é muito importante pra gente nesse momento”, explica Ana Lúcia.

Confira abaixo alguns trechos da apresentação do Reisado de Inhanhum pelas ruas de Santa Maria da Boa Vista, no dia 6 de janeiro de 2018. O festejo contou também com a participação de outros quatro grupos de reisado que seguem em atividade no município.

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