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Povos Tradicionais e Populações Rurais

Carnaval das etnias

Bloco Beija-flor, formado por índios e brancos, é marca da festa de Águas Belas

Por: Michelle de Assunção

Os povos indígenas Tupiniquins e Carajós já fizeram do lugar onde hoje está localizado o município de Águas Belas, no Agreste pernambucano, palco de algumas batalhas por território. Atualmente, como espaço da matriz indígena, a cidade abre alas para a evolução artística da sua cultura. Em Águas Belas, na reserva da aldeia de índios Fulni-ô, há pelo menos três importantes grupos que fazem do Carnaval sua principal vitrine: as bandas Fethxá e Fulni-ô, e o Bloco Beija-Flor, que fazem um som diverso e imprevisível.

Os integrantes do Fethxá, grupo conhecido em Pernambuco, ultrapassaram barreiras étnicas – que tendem a delimitar a área de atuação de um grupo pertencente à determinada comunidade – e penetraram, por exemplo, em festivais de música pop do estado. A diversidade cultural pernambucana, que acostumou o ouvido das plateias a rock’n’roll misturado a ciranda ou hip hop, também permitiu que o toré – denominação abrangente para designar conjunto de batidas percussivas feita por algumas tribos indígenas fosse difundido como um gênero da música tradicional nordestina.

Costa Neto

O toré dos Fethxá assemelha-se a um samba de coco. Tem batida no chão feita com os pés aliada ao chacoalhar de suas percussões. Conduzido por pelo menos 15 integrantes da tribo, tem suas loas cantadas na língua mãe, o yaathé. É também em yaathé que os índios Fulni-ô chegam à cidade de Águas Belas, todo o Carnaval, como brincantes do Bloco Beija-Flor. O nome é inspirado numa lenda indígena, que conta como esse pássaro levou o fogo para os índios Fulni-ô. Ano a ano, o cortejo se repete. Praticamente todos os índios da aldeia saem às ruas pintados, fumando a xanduca (fumo típico, consumido num cachimbo rústico, através de uma espécie de ritual), com todos seus instrumentos percussivos. No percurso, cantam em yaathé e em português. O bloco carrega a miscigenação das culturas indígena e branca; é profano, mas também religioso. Durante sua evolução, o cortejo realiza uma homenagem à Santa Yassaklane (associada a Nossa Senhora da Conceição, no sincretismo indígena).

Ninguém talvez tenha se surpreendido, mas se divertiu muito quando, na língua mãe e também em português, os índios do bloco Beija-Flor entoaram, no Carnaval de Águas Belas, o hit de massa que tomou de assalto todos os equipamentos de som, de norte a sul do País: a música “Ai, se eu te pego”, do cantor Michel Teló. “O Carnaval de Águas Belas é diferenciado em relação aos demais do interior de Pernambuco, porque a população é formada a partir de três etnias: índia, negra e cabocla. Na comunidade negra, temos os quilombolas. Dela também participam os assentados da reforma agrária. Estes interagem no Carnaval, sobretudo em encontros do Beija-Flor, com o bloco Zumbi, em homenagem ao líder negro. Eles tocam samba de roda e, no encontro com os índios, fazem a mistura com o ritmo do toré”, explica o professor Tié, secretário de Cultura de Águas Belas.

Aos poucos, outro grupo formado pelos Fulni-ô começa a fazer um relativo sucesso na região, sobretudo entre os mais jovens. A banda Fulni-ô toca reggae e realiza shows esporádicos. Somando-se a exemplos assim, a cena carnavalesca de Águas Belas se fortalece ainda com os blocos “Mulher do Menino”, “Zé do Rádio” e “Berrador”, que saem pelas ruas executando marchinhas e frevos rurais. Uma festa surpreendente para os olhos e os ouvidos.

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