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Juliana Lapa expõe tensões femininas na Torre Malakoff

"Eu não estou louca" é a primeira exposição individual da artista recifense que ficará em cartaz na Torre Malakoff a partir deste sábado, 1º de setembro, até 11 de agosto. O acesso é gratuito.

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A natureza e suas semelhanças com as expressão feminina são um dos focos de Juliana Lapa.

Por Camila Estephania

A artista visual Juliana Lapa até pensou em criar alguns de seus desenhos a partir de um contexto pré-concebido, mas não obteve muito êxito na empreitada. O quadro “Giganta”, que traz uma mulher enorme dentro de uma cidade cheia de tensões sociais, é fruto dessa experiência que, por fim, serviu também para reafirmar que os desenhos, na verdade, é quem impõe seus temas espontaneamente no processo criativo da recifense. A obra integra a primeira exposição individual da artista, intitulada “Eu não estou louca”, que abre neste sábado (1º), a partir das 16h, na Torre Malakoff, ao lado de mais 21 peças, que revelam a força desse parto visceral e natural que é a criação de Lapa.

É como o fluxo de água correndo e de barragem que quer estourar e a gente não controla mesmo. O que sai no desenho é o que eu não controlo”, observa Juliana, que selecionou trabalhos em grafite, pastel a óleo e fotografias elaborados entre 2015 e 2018 para compor a mostra. A maioria dos trabalhos em grafite, evidencia a preferência pela técnica. “Tenho uma pesquisa de exauria técnica com o material para tentar descobrir possibilidades novas. Acho que o grafite imprime uma emoção muito legal para o desenho e tem uma profundidade e um brilho muito especiais“, justifica. Apesar de não terem sido criadas propositalmente com algum sentido específico, as peças se complementam ao apresentar um fio narrativo sobre questões que atravessam a existência feminina na sociedade.

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“Eu não estou louca” expõe questões que atravessam a mulher na sociedade.

“São inquietudes da mulher. Desse trânsito tenso que temos na rua, na escola, no trabalho. Os desenhos se impõem e depois se comunicam comigo para dizer o que é aquilo”, explica a artista, que deu o título da exposição somente neste ano buscando desmistificar práticas machistas, como o gaslighting. “O título não está diretamente nas obras, mas vem como um manto que jogo por cima desse trabalho. Ele vem do enfrentamento para dizer que nós somos sãs e temos nossa própria natureza. O ‘louca’ é uma afirmação dessa sanidade diante da loucura do mundo, na verdade. Vejo muitas práticas machistas de violência emocional e o quanto se deslegitima as mulheres em qualquer área de atuação na sociedade as chamando de loucas. Então, vem como uma provocação mesmo”, revela ela.

Também integra a exposição, a série “Breu”, que teve como referência a frase “no meio da nossa vida me encontrei numa selva escura e sombria”, de Dante, na Divina Comédia. O trabalho é um mergulho em um ambiente interno, denso e escuro, que seria um lugar sem filtros, o “campo das verdades”. A volta constante à mata, local onde a mãe natureza reina absoluta, é um dos focos da artista. Essa jornada interna também se completa com a exposição dos “Diários de Breu”, que trazem um extrato do período de criação da série.

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A artista busca dialogar com o público através das peças.

ARTE E EDUCAÇÃO

Além desses escritos, outros diários da artista também estarão na Torre Malakoff. “Ele vêm como uma ode ao ato de escrever e se escavar. Na produção recente e nessa que vem de 2015, tento fazer um discurso de autorrevolução e auto-enfrentamento e o diário é essencial nisso. Ele vem como um dispositivo de arqueologia de si. Não é biográfico, porque poderia ser sobre qualquer pessoa o que tem lá”, comenta Lapa, que, embora produza pautada principalmente em investigações pessoais, tem como objetivo principal, enquanto artista, dialogar com o público através do seu trabalho.

Sinto muita necessidade de me afirmar como uma artista que trabalha para as pessoas, não para mim. Claro que é o meu olhar, mas que seja um condutor para outras pessoas. A arte pela arte está dentro do meu trabalho na concepção, mas na exposição eu não trabalho isso, porque este é o momento de formar o público criticamente”, avalia a artista, cuja exposição contará com visita de alunos da escola pública, recurso de audiodescrição e catálogo. “Não é um didatismo, mas uma preocupação com o outro. Isso me ajuda a construir e a aceitar a artista que eu sou e quero ser, de me sentir um agente social com poder político para conceder força pro indivíduo no processo de autodescoberta. Muitas vezes o indivíduo trabalha dez horas por dia e quando chega em casa não tem cabeça para mais nada. A arte vem não como fuga, mas como afirmação de poder, porque constrói o olhar crítico”, continua ela.

Localizada na Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, a Torre Malafoff também não foi escolhida por acaso. “Adoraria expor em outros lugares também, mas acho que a Malakoff tem esse apelo de um público que geralmente não vai em exposições que acontecem em lugares não tão abertos. A ideia é furar essa bolha mesmo. Nesses tempos de crise emocional, política financeira, a gente precisa muito da arte para lançar novos olhares e virar a chave na cabeça das pessoas. Acredito nesse poder de educação profunda que a arte oferece”, conclui Lapa.

SERVIÇO
Eu não estou louca, de Juliana Lapa
Quando: Abre neste sábado (1º), às 16h, e fica em cartaz até 11 de outubro.
Onde: Torre Malakoff (Praça do Arsenal, s/n – Recife-PE)
Terça a sexta, das 10h às 17h.
Sábado, das15h às 18h. Domingo, das 15h às 19h

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