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Preservação do Arquivo Dom José Lamartine traz à luz detalhes da história pernambucana

Iniciada em 2014, a pesquisa já catalogou relíquias como a primeira documentação de São Pedro dos Clérigos, no Pátio de São Pedro, e uma bula vinda do Vaticano e assinada pelo Papa Bento V, em 1818

Natuza Ferreira./Divulgação

Natuza Ferreira./Divulgação

Iniciada em 2014, a pesquisa já catalogou escrituras, certidões de nascimento, batismo, casamento e óbito, correspondências, bulas papais, livros litúrgicos e assuntos diversos produzidos pela Igreja Católica em quatro séculos de atividades

 

Por Marcus Iglesias

O Projeto de Preservação da Memória do Arquivo Dom José Lamartine da Arquidiocese de Olinda e Recife trouxe à luz uma série de documentos que contam a história social e política da população pernambucana e brasileira durante o Brasil Colônia. Iniciada em 2014, a pesquisa já catalogou escrituras, certidões de nascimento, batismo, casamento e óbito, correspondências, passaportes, bulas papais, receita e despesa, atas de reunião, textos e livros litúrgicos e pastorais e assuntos diversos produzidos pela Igreja Católica em seus movimentos sociais em quatro séculos de atividades.

Para Débora Mendes, pesquisadora e coordenadora do projeto, a iniciativa é “de extrema importância porque Pernambuco era uma capitania hereditária grande e rebelde, e essa rebeldia fez com que o estado perdesse grandes territórios. No meio das guerras e incêndios, perdemos também muitos registros históricos, não só eclesiásticos, mas materiais que contam a história da Coroa Portuguesa e da Igreja Católica, porque a igreja funcionava nesse período da história como se fosse o cartório da época”.

Natuza Ferreira./Divulgação

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Iniciada em 2014, a pesquisa já catalogou escrituras, certidões de nascimento, batismo, casamento e óbito, correspondências, passaportes, bulas papais, receita e despesa, atas de reunião, textos e livros litúrgicos e pastorais e assuntos diversos produzidos pela Igreja Católica

Durante o regime da Coroa Portuguesa no Brasil, existia o acordo do padroado, que era feito entre a Igreja Católica e a coroa. Como esta última não tinha condições de administrar suas colônias, dividia a responsabilidade com as igrejas. “As construções delas, por exemplo, eram estratégicas também para a defesa, não só para o culto”, explica Débora Mendes, que também é historiadora.

Os religiosos chegavam a um determinado local, catequizavam a população, criavam um povoado numa colina, sempre ao redor da igreja, e ao redor dela incentivavam o comércio e a construção de casas pelas pessoas, fazendo nascer assim as vilas e cidades. “O movimento era sempre a partir de um monumento religioso. Existia todo um conceito estratégico de desenvolvimento das colônias, e com isso vem o lado burocrático e jurídico. E o responsável em cuidar disso foi a Igreja Católica. Neste período, a Arquidiocese de Pernambuco foi a terceira maior do Brasil colônia pela importância de Olinda”, conta a pesquisadora.

De acordo com Débora Mendes, que também é historiadora, o Projeto de Preservação da Memória do Arquivo Dom José Lamartine da Arquidiocese de Olinda e Recife começou há quatro anos, através da Comissão Pastoral de Cultura da Arquidiocese de Olinda e Recife, que é presidida pelo Frei Rinaldo Santos. “Na época, fui convidada para conhecer essa sala de documentos antigos que eles chamavam de Arquivo. A partir daí, houve uma proposta técnica de organização desse espaço”.

Natuza Ferreira./Divulgação

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A equipe do projeto é formada por conservador, restaurador, paleógrafo, historiador e auxiliar técnico. Nesta fase, os profissionais reúnem, catalogam, e separam por período e assunto, além de higienizar, acondicionar e armazenar os documentos de modo a prolongar seu tempo de vida útil

“Fizemos uma parecer de ação efetiva técnica e especializada inédita, seguindo todo o mandamento, todas as normas da UNESCO e do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq)”, detalha Débora Mendes, que trabalha ao lado de uma equipe formada por conservador, restaurador, paleógrafo, historiador e auxiliar técnico. Nesta primeira fase de trabalho, os profissionais se esforçam em reunir, catalogar, separar por período e assunto, além de higienizar, acondicionar e armazenar os documentos de modo a prolongar seu tempo de vida útil e condições de manuseio para consulta no Arquivo.

“A partir dessa proposta, passamos a conhecer a documentação existente e houve uma proposta de coleta da documentação antiga que estava ainda nas igrejas de Olinda e Recife. Essa coleta foi feita entre os anos de 2016 e 2017, e fizemos esse processo em todas as igrejas históricas, não só as tombadas, engrossando ainda mais o acervo do Arquivo”, comenta a coordenadora do projeto.

Natuza Ferreira./Divulgação

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Um dos documentos mais antigos encontrados foi a primeira documentação de São Pedro dos Clérigos, no Pátio de São Pedro, de 1722

Através desta pesquisa, conta Débora, foram reunidas mais de 300 caixas de documentação, trazendo à tona “uma dimensão de que estávamos salvando muita memória sobre Pernambuco e o Brasil desde o século 18, porque tiramos esses documentos de ambientes totalmente insalubres, tanto para o livro quanto para o ser humano”.

O material já foi separado em dez coleções com temas diversificados, como obras raras impressas e manuscritas, artes visuais, filatelia, hemeroteca, cartografia, musicografia e iconografia. “Só após de concluído esse projeto que vamos conseguir mensurar o novo tamanho do arquivo”, explica a historiadora. “Essa documentação é histórica, primorosa, que ainda não é conhecida pelos interessados na área da pesquisa. A gente fala sobre o social, antropologia, a vida civil, histórico e cultural”.

Relíquias encontradas - Em 2018, a equipe técnica responsável pelo projeto passou a analisar cada documento e, assim, a ter uma dimensão do quanto se conseguiu salvaguardar de uma memória que estava condenada a ser perdida. “Um dos documentos mais antigos encontrados foi a primeira documentação de São Pedro dos Clérigos, no Pátio de São Pedro. A igreja começou a ser construída em 1718 e a equipe encontrou a documentação avulsa de 1722. Por enquanto, esse é o livro manuscrito mais antigo que a gente tem”, ressalta a pesquisadora.

Outro material importante catalogado é o Livro de Madre de Deus sobre o assentamento de óbitos dos filhos de mulheres escravas, de acordo com a Lei do Ventre Livre, de 1871. “Como a gente não achou outro, este é o primeiro que se encaixa dentro da lei abolicionista que também foi decretada em 1871. E é um material com muitos detalhes da época, como as doenças que causaram as mortes, o sexo das pessoas e a questão da família. Em alguns casos, por exemplo, eram filhos de senhores de engenho”, conta Débora Mendes.

Natuza Ferreira./Divulgação

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O material encontrado foi separado em, pelo menos, dez coleções com temas diversificados, como obras raras impressas e manuscritas, artes visuais, filatelia, hemeroteca, cartografia, musicografia, periódicos e iconografia.

“Achamos também uma coleção de obras raras da Lei do Império, livros impressos com a topografia portuguesa com todas as leis do império juntas, de 1824 a 1884. São 120 livros, e isso estará disponível no futuro para consulta”, reforça a pesquisadora, que destaca por fim outro achado, a bulla original vinda do Vaticano e assinada pelo Papa Bento V, em 1818, que denomina e eleva a Diocese de Olinda para Arquidiocese de Recife e Olinda.

Natuza Ferreira./Divulgação

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Por enquanto, quem quiser ter acesso ao que já está disponível no Arquivo Dom Lamartine deve entrar em contato através do e-mail arquivodomlamartine@gmail.com, solicitando o documento para que ele possa ser separado. Em seguida, será marcada uma visita para visualizá-lo no Arquivo

Como o Arquivo tem o nome de Dom Lamartine, Débora Mendes diz que vale registrar algumas características de sua personalidade. “Ele foi o bispo auxiliar de Dom Helder na época da ditadura militar, uma pessoa sensível às artes, e por isso recebeu a homenagem do Frei Rinaldo para nomear o Arquivo da Arquidiocese. Inclusive fomos contemplados com a doação de todo acervo de Dom Lamartine, que estava sob os cuidados de uma irmã que ainda está viva. Este acervo vai desde o mobiliário até as paramentas dele. Um delas é uma casula importada e feita com fios de ouro vindos de Roma. E esse paramento litúrgico é uma das outras coleções que separamos para a fase dois do projeto, que é a de restauro dessas peças”, reforça a coordenadora da iniciativa.

A pesquisadora reforça que houve um investimento muito grande por parte da Arquidiocese para que o projeto pudesse ter vida. “A primeira parte foi essa de coleta, depois a estruturação física do Arquivo, que passou a contar com três salas grandes. E o terceiro investimento foi em relação ao mobiliário. Conseguimos comprar arquivos de aço e hermeticamente fechados para organizar essa documentação”.

A segunda fase do projeto de preservação do Arquivo Dom Lamartine, voltada para o restauro das peças encontradas entre 2016 e 2017, foi contemplada este ano com o financiamento necessário para sua execução. Depois de realizada esta fase, prevista para ser encerrada no ano que vem, o Arquivo vai disponibilizar os documentos restaurados para consulta para que historiados, pesquisadores e qualquer outra pessoa interessada possam acessá-los.

Por enquanto, quem quiser ter acesso ao que já está disponível no Arquivo Dom Lamartine deve entrar em contato através do e-mail arquivodomlamartine@gmail.com, solicitando o documento para que ele possa ser separado. Em seguida, será marcada uma visita para visualizá-lo no Arquivo.

Natuza Ferreira./Divulgação

Natuza Ferreira./Divulgação

A segunda fase do projeto de preservação do Arquivo Dom Lamartine, voltada para o restauro das peças encontradas entre 2016 e 2017, foi contemplada este ano com o financiamento necessário para sua execução

“Dentre tantos fatos de descasos de gestores com a cultura, como o que aconteceu no Museu Nacional, estamos conseguindo fazer com muito sacrifício essa iniciativa. E agora temos mais um motivo pra lutar. Que o Arquivo sirva como um espaço de pesquisa, e vamos transformá-lo pra atender às pessoas interessadas nessa fatia da história do Brasil”, comemora Débora Mendes.

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