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PATRIMÔNIO CULTURAL

Caboclinho Sete Flexas

Cidade: Recife
Atividade/expressão cultural: caboclinho

Foto: Marcelo Soares

“Quem são vocês que vêm da jurema?” Esta é pergunta que pode ser feita a um mestre daqui, mais precisamente a José Severino dos Santos Pereira, o Mestre Zé Alfaiate, sócio fundador do Caboclinhos 7 Flexas, desde 7 de setembro de 1971, no bairro de Água Fria, Recife. Com a finalidade, expressa no estatuto, de “promover e desenvolver atividades carnavalescas, recreativas, sociais e culturais”, Alfaiate lembra que criou a brincadeira no ano de 1969, em Alagoas. Nessa época, em que freqüentava terreiro de umbanda, certa vez sonhou com o Caboclo Sete Flexas – “cacique, pajé, deus do sol e deus da lua, moreno, alto, foi criado sozinho nas matas e é curandeiro” – a quem fez pedido. Portanto, graças a promessa, e como oferenda, decidiu que criaria o clube, sob a proteção daquele guia, exatamente por considerar unha e carne caboclinho e jurema. Nascido em São Lourenço da Mata, a 25 de julho de 1924, Alfaiate volta para Pernambuco em 1971 e, embora à época mantivesse vínculo com o antigo Caboclinhos Carijós (de 1896), onde começou a brincar aos dez anos, funda o grupo que se mantém exuberante, graças à dedicação integral que dispensa ao brinquedo, das mais triviais demandas às mais invisíveis, como bordar fantasia e levar comida para o caboclo da mata. Os caboclinhos, da linha da jurema, são uma das belas e tradicionais expressões do carnaval pernambucano.

Mais do que somente com pajelança, é à base de muito sacrifício e trabalho que o caboclinho se mantém firme e vigoroso. Paulo Sérgio dos Santos Pereira, ou Paulinho 7 Flexas é filho e parceiro incansável de Alfaiate, ao lado da mãe, Marlene Francisca Neponucena. Figura importante na organização do grupo e um dos mais respeitados dançarinos tradicionais do país, Paulinho 7 Flexas dança desde os dois anos. Nascido em Maceió, Alagoas, a 28 de outubro de 1968, a partir dos 14 anos passa a dar aulas no Teatro Brincante, na capital paulista, a convite do multiartista Antônio Carlos Nóbrega. Paulinho e o sobrinho Carlos André Rodrigues Pereira são os guias Jupi e Agaci, puxadores dos cordões dos caboclos. A sobrinha Adriana Rodrigues Pereira e a irmã Carla dos Santos Pereira são as guias Taquaraci e Jupiara, dos cordões das caboclas. Alfaiate, além de tudo, comanda desenhos e bordados da vestimenta. No caboclinho, o núcleo familiar lidera todas as atividades: onde há a casa, há a sede do brinquedo, a oficina de dança com os ensaios semanais, as sessões de costura e bordado, as reuniões, os preparativos de cada carnaval, enfim, a colorida e melodiosa alegria, a firmeza dos gritos de guerra do folguedo, mesmo quando em repouso tocadores e bailarinos.

Guerra, baião, perré, toré de caboclo, guerra: alternam-se as batidas ou toques executados pelo baque, assim denominados os músicos. Ouvidos atentos à execução das loas ou versos gritados – os gritos de guerra, e às loas ou versos declamados, improvisados ou não, sincronizados com a regular batida das preacas (conjunto de arco e flecha em madeira), tarol, atabaque, caracaxá marcam a melodia executada pelo gaitista. Reginaldo Caetano do Nascimento, ou Nadinho da Gaita, é o músico que executa as melodias no instrumento também chamado flauta ou inúbia. O tirador de loa pode ser o cacique, o puxante, o guia, o morubixaba. Nesse caso, é Paulinho 7 Flexas quem puxa as loas. Enquanto isso, os olhos se maravilham com as flutuações de penachos e plumas, com o saltitar das coreografias. Cacique, cacica, pajé ou curandeiro, os curumins, os guias Jupi e Agaci, a ala dos caboclos, os contraguias ou substitutos dos guias, as guias Taquaraci e Jupiara, a ala das caboclas são as figuras que enchem de graça as ruas e os olhares, aprendizes ou não. É obedecendo aos sons dos caboclos do baque que os brincantes exibem coreografia aeróbica, plena de leveza e agilidade. Impossível não encantar-se com a sonoridade e as coreografias de um caboclinho.

Conforme depoimento de Paulinho, o grupo pertence à mesa branca, espírita, aos orixás de caboclo, à mesa da jurema. Entre os ritos, há a saída de caboclo. Uma semana antes do carnaval, é necessário preparar uma oferenda, ou seja, levar comida para o caboclo da mata. Um prato virgem, sete bifes, sete qualidades de fruta, uma vela e mel. O pedido é sempre pedido de paz: contra brigas e desavenças. O pajé porta um cachimbo e dá fumaçadas para limpar a frente do clube, quando os brincantes estão dançando. A jurema, bebida preparada à base de vinho, champagne, mel, liamba, semente e folha de alfavaca de caboclo, é alcoólica, entretanto tem a função de limpar o corpo dos brincantes – as ervas cortam as dores e os males físicos. Muita lantejoula, semente de ave-maria, cocar de pena de ema, machadinha, cabaça, cipó, lança e preaca são alguns dos elementos que compõem o deslumbrante vigor da cabocaria. Nas manobras e evoluções, as coreografias apontam para a dança do cipó, a dança da rede, a caça do caboclo, o casamento de uma tribo com outra. Os dois puxantes Jupi e Agaci marcam com apito a virada dos ritmos. E o porta-estandarte sai na frente, anunciando a chegada do clube: Caboclinhos 7 Flexas, um nome de respeito.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE

Confira abaixo o vídeo ‘De Pai para Filho’, produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, que documenta um pouco sobre o Caboclinho 7 Flexas, na série ‘Pernambuco Vivo’.