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PATRIMÔNIO CULTURAL

Manuel Eudócio

Cidade: Caruaru
Atividade/expressão cultural: artesão ceramista
Ano de registro de patrimônio vivo: 2002

Daniella Esposito/Secult-PE

Com voz pausada e dedos firmes na modelagem, é assim que o primeiro galante do reisado vai debulhando os grãos de uma vida dedicada à arte e à agricultura. É pelas mãos e pela oralidade que saem as imagens trazidas da memória de um tempo em que conviviam os amigos Vitalino, Zé Caboclo e Manuel Eudócio Rodrigues. Sentado num banco de madeira, tem sempre diante de si uma mesa, barro molhado e ferramentas para fazer as esculturas, que, começadas no início do dia, por volta das cinco da manhã, precisam ser concluídos ao final da mesma jornada. As mãos não param, enquanto as lembranças emergem. Quase aos 80 anos, o narrador, mestre Eudócio, exibe o vigor mental e as habilidades manuais invejáveis de quem teve sempre uma vida regrada, dedicada à família, ao plantio e, sobretudo, à catarse da atividade artística iniciada ainda na infância, com a avó louceira Tereza Maria da Conceição. De 28 de janeiro de 1931, nascido e criado no Alto do Moura, Caruaru, o filho de Eudocio Rodrigues de Oliveira e Maria Tereza da Conceição desde criança trabalha na agricultura e ocupa as mãos esculpindo o barro.

Freqüentou apenas seis meses de escola e é com o auxílio das mãos e das experiências que vai descrevendo o que tem vivido esses anos todos no Alto do Moura. São sete décadas de aprimoramento, de adaptação ao gosto da freguesia e de convívio com fregueses alemães, franceses, portugueses, americanos. De viagens ao Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Portugal. Lembra que as primeiras peças foram pintadas a dedo e, onde o dedo não cabia, pintadas com auxílio de uma varinha. Mais adiante, resolveu deixar peças ao natural, depois voltou a pintá-las. Gosta de fazer bonecos grandes, coloridos, embora menos vendáveis. A queima das esculturas sempre foi num forno do quintal, quinzenalmente, exceto quando há encomenda urgente. De preferência, o forno deve estar cheio, pois do contrário fica muito dispendioso.

O que não admite, sob hipótese alguma, é a utilização de fôrma para moldar as esculturas. As experiências cotidianas sempre serviram de fio condutor nas criações inspiradas: batizado, enterro, casamento matuto, casamento forçado, casal andando em boi manso, violeiro, sanfoneiro, banda de pífano, cangaceiros, padre Cícero. Mergulhado no universo da cultura tradicional, uma das inspirações recorrentes é o reisado, com os respectivos personagens do folguedo natalino do qual participou: dona Joana, diabo, doutor, padre, mascarado. Em 1948, quando começou a fazer os bonecos, resolveu fazer um reisado. Fez vários personagens e conseguiu vender a uma pessoa do Rio de Janeiro. Depois, com a dificuldade de comercializar o conjunto, foi fazendo as figuras individuais. O reisado já não sai no Alto do Moura, o mestre sente saudade e tenta recuperar, no barro, as práticas culturais da infância e juventude.

Eudócio sabe que é um criador, um perfeccionista. Jamais desperdiçou os anos de convivência com Vitalino e Zé Caboclo. Quando Vitalino saiu do Sítio Campos para o Alto, em 1948, Eudócio tinha 17 anos. Conheceu os trabalhos do mestre na rua: naquela época ninguém vendia escultura em casa, o local de exposição era o buliçoso espaço da feira. Do professor, Vitalino, lembra-se de muitas coisas: por exemplo, que passou dois anos, com o cunhado Caboclo, trabalhando para o afamado ceramista e nem sequer assinavam as próprias peças. Lembra, ainda, que em 1957 já fazia questão de dizer aos compradores que aqueles bonecos chamados de “Vitalino” também eram criação de outros artistas. Com o desaparecimento do mestre não acreditava na continuidade do ofício. Mostra-se impressionado com a permanência da atividade e o aumento quantitativo de artesãos.

A família, uma das pioneiras no ramo, tem na nova geração os continuadores. Os irmãos Eudócio, Celestina e Josué herdaram o ofício da avó e da mãe, e se veem sucedidos pelos filhos. Dos nove filhos de Eudócio, Carlos e José Ademildo, e as respectivas esposas, vivem do barro. Do casal Celestina Rodrigues e Zé Caboclo, as filhas Marliete, Socorro, Carmélia e Helena “puxaram ao pai, que era um artista de mão cheia”, segundo o tio Eudócio. Lembra, inclusive, das miniaturas que fazia, quando jovem, e guardava numa caixa de fósforo, esculturas em tamanho minúsculo que são uma das especialidades das irmãs Rodrigues. A linha de sucessão também se repete na família Vitalino, na família Rodrigues, na família Galdino.

Em 2005, Manuel Eudócio foi eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco. No dia 13 de fevereiro de 2016, faleceu em Caruaru, aos 85 anos de idade.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE