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PATRIMÔNIO CULTURAL

Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu

Cidade: Igarassu
Atividade/expressão cultural: maracatu de baque virado
Ano de registro de patrimônio vivo: 2009

Costa Neto/Secult-PE

Uma estrela para nos guiar, canta a loa. Uma Nação muita antiga, vinda “da África para morar em Igarassu”. É o que pronuncia a voz firme de Olga e Gilmar, encantando nossos ouvidos com as toadas herdadas dos antepassados. Pela voz deles remontamos aos avós e pais da centenária dona Mariu, chegamos ao tempo presente, aos seguidores de um baque triunfante a iluminar toda a família. Se fosse para seguir uma das versões da história oral relacionada ao grupo, 1730 poderia ter sido o início, entretanto, a data oficializada é 8 de dezembro de 1824. O local era Vila Velha, em Itamaracá, à época pertencente a Igarassu. De lá os antepassados do maracatu migraram para o Alto do Rosário. Mas, da cidade de Igarassu o grupo não saiu e é a antiga Rua do Rosário, no sítio histórico, quem testemunha, há décadas, o canto, a dança e o batuque de descendentes de escravos. Às mulheres cabe a dança, os homens ficam com a percussão.

Olga de Santana Batista, filha de dona Mariu, agora é a matriarca, guardiã da tradição, desde que a mãe, centenária, faleceu em 2003. Olga, nascida em Igarassu a 28 de fevereiro de 1939, começou a brincar aos dez anos, como rainha, e com o pai também brincava cavalo-marinho e fandango. Auxiliada pelo filho caçula, mestre Gilmar, é com firmeza que os dois lideram rei, rainha, vassalos, ministros, princesas, dama-regente, dama do paço, porta-estandarte, porta-candeeiros, porta-símbolo, baianas, batuqueiros. Gilmar de Santana Batista é o mestre dos batuqueiros. Rogério Raimundo de Sousa, o contramestre. Gilberto de Santana Batista é o porta-estandarte. Dona Rita, a dama-regente, é herdeira de uma função – a de conduzir a calunga – que coube a dona Mariu durante os anos todos em que participou da Nação.

Mariu, ou Maria Sérgia da Anunciação, nasceu no dia 8 de dezembro de 1898 e morreu no dia 8 de outubro de 2003, na mesma cidade – Igarassu. Sempre na função de dama-regente, começou a participar do maracatu aos 12 anos. O apego a “dona Emília”, a calunga de madeira feita pelo carpinteiro Minervino do Ó, era tanto que a boneca dormia com ela. Afinal, “dona Emília é quem manda”, cantam as toadas do grupo fincado nas tradições do candomblé, para quem a calunga – a evocar ancestrais e orixás – desempenha primordial função de protetora do folguedo: trata-se de um objeto ritual. O pai, João Francisco da Silva, passou a liderança do maracatu para o marido de Mariu, Manoel Próximo de Santana. O seu Neusa, como era conhecido Manoel, ficou incumbido das funções de rei do maracatu e mestre do batuque. A mãe de Maria Sérgia, dona Mariassu, morreu aos 115 anos. Com o marido, era quem comandava o maracatu e costurava manualmente as roupas do grupo. A filha Mariu, que chegou a quase 105 anos, ganhou a festa “100 anos de uma rainha negra”, organizada em dezembro de 1998 pela prefeitura de Igarassu. No centenário, Sérgia relembrou, em entrevista concedida ao Jornal do Commercio, a 6 de dezembro de 1998, que, no cortejo real, havia antigamente os lanceiros, ou duas crianças que iam à frente da corte fazendo a ordenança do rei e da rainha. Outra ausência, lamentada ainda hoje por dona Olga, é a da calunga Joventina, que não mais se encontra no acervo do grupo.

Os instrumentos utilizados no batuque tradicional do Estrela Brilhante são zabumba (o mesmo que tambor ou alfaia), tarol (ou caixa de guerra), mineiro (ou ganzá) e gonguê. Os tambores, que antigamente eram feitos com barrica de transportar o peixe bacalhau, agora talhados no tronco de macaíba, são tocados com uma baqueta (ao invés de duas) e uma vareta ou galho de árvore, chamado bacalhau, o que confere um toque diferenciado ao baque do Estrela, “um suingue muito mais gostoso”, conforme demonstra, orgulhoso, o mestre Gilmar, que puxa, entre outras toadas, a seguinte: “Toque o gonguê / toque o tambor / vem mineiro e caixa / foi o mestre que mandou”. Os ensaios tradicionalmente ocorrem a partir de setembro e se prolongam até a semana pré-carnavalesca. E no período junino, os brincantes também se divertem, mas é com o centenário samba de coco e o banho ou “batismo” de São João pela madrugada do dia 24 de junho.

Entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, o maracatu passou quatro anos sem se apresentar, conforme registrado numa reportagem do Diario de Pernambuco, em 11 de fevereiro de 1982, intitulada “Maracatu volta a desfilar”. Adiante, após mais alguns anos desativado em decorrência do falecimento de seu Neusa e da impossibilidade de locomoção de dona Mariu, um grupo de estudiosos da Comissão Pernambucana de Folclore, presidida pelo pesquisador Roberto Benjamin, realizou, durante 1993, um levantamento das toadas e da história do grupo e, assim, foi responsável pela retomada do grupo, em janeiro de 1994. A seguir, o grupo não parou mais. Em 1997, foi o homenageado do carnaval de Igarassu. No mesmo ano, Roberto Berliner dirigiu um documentário de três minutos, em 16 mm, colorido, no projeto Som da Rua, intitulado Maracatu Estrela Brilhante. Em 1998, dona Mariu ganhou destaque com o aniversário de cem anos, conforme mencionado acima.

O primeiro registro fonográfico aconteceu em 2003, com gravação ao vivo e ao ar livre, resultando no CD Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu – 180 anos. No início de setembro de 2008, o grupo viaja a Portugal para participação no XII Festival Folclore Internacional Alto Minho, em Viana do Castelo, cidade-irmã de Igarassu, por esta ter sido fundada pelo capitão Afonso Gonçalves, natural daquela cidade portuguesa. Ponto de Cultura Estrela Para Todos desde 2008, o grupo passou a promover oficinas de percussão e dança e colocou no ar uma home page, em três línguas. Conquistou o Prêmio Culturas Populares 2008 – Mestre Humberto de Maracanã, do Ministério da Cultura (Minc), com o qual realizou a remasterização e reedição do CD comemorativo aos 180 anos. Foi contemplado com o projeto Cine Mais Cultura (Minc), edição 2008. O tradicional Coco de Olga também foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares 2009 – Edição Mestra Dona Isabel. Em fevereiro de 2010, juntamente à centenária Tribo Canindé do Recife, ganhou homenagem na abertura carnaval do Recife, no Marco Zero. Com tantas ações importantes, com tantas vozes e loas bonitas, sustente o baque, dona Emília, que o Estrela vai continuar!

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE