Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

PATRIMÔNIO CULTURAL

Maracatu Leão Coroado

Cidade: Recife
Atividade/expressão cultural: maracatu de baque virado
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005

Eric Gomes/Secult-PE

Década 1950 do século 20. O respeitado oluô (sacerdote máximo) Luís de França recebe a incumbência de dirigir uma brincadeira de carnaval, que havia sido fundada pelo pai, um africano ex-escravo. O brinquedo era o Maracatu Leão Coroado. Morto um dos coordenadores, corria-se o risco de não haver quem o substituísse. Herança de família e de tradição religiosa, o baque virado daquela nação precisava continuar. Desafio aceito, a vigorosa liderança de seu Luís proporcionou aos brincantes manter a atividade ininterrupta desde 8 de dezembro de 1863, data considerada como a de fundação, apesar de a memória oral indicar a possibilidade de o Leão já existir desde 1852. Mesmo mantendo-se a dúvida quanto ao marco fundador, o contexto político e social no qual nasce o grupo é marcado pelo debate em torno da abolição da escravatura e os maracatus eram folguedos de negros escravos. Ressalte-se, ainda, que, no Recife, o dia 8 de dezembro é dedicado a Iemanjá e a Nossa Senhora da Conceição, esta última, a representação católica, no sincretismo religioso, daquele orixá do culto nagô e padroeira da grande festa do morro, que acontece anualmente na mesma data, em Casa Amarela.

Luís de França dos Santos é de 1º de agosto de 1901. Nasceu na rua da Guia, bairro do Recife, filho de Laureano Manoel dos Santos e Philadelpha da Hora. Segundo contava, durante a juventude vendeu jornais ao longo da via férrea, até Palmares, o que o levou a conhecer senhores de engenho e chefes políticos da região. Ganhou muito dinheiro revendendo produtos importados, trazidos nos navios, quando trabalhava de estivador, profissão exercida até aposentar-se. Cresceu no bairro de São José, espécie de gueto de escravos libertos, local onde aconteciam cultos africanos. Guardava na memória a participação intensa em terreiro de candomblé, o Sítio do Pai Adão, em Água Fria, embora a sua iniciação religiosa não tenha acontecido lá. Os pais de santo de Luís de França foram Eustachio Gomes de Almeida e Maria Júlia do Nascimento, a Dona Santa do Maracatu Nação Elefante.

O líder começou a participar do maracatu quando a sede ficava no bairro da Boa Vista, numa rua que hoje se chama Leão Coroado. Foi membro da Irmandade de São Benedito da Igreja de São Gonçalo da Boa Vista e da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio. Um dirigente desta última, José Luís, foi quem passou ao afilhado Luís de França a direção do folguedo. Daí em diante o decidido líder passou a cuidar da organização do grupo, das obrigações religiosas e da direção da batucada, cujo baque secular aprendera com o pai. Passado por Luís de França, continua mantido o mesmo baque tradicional, conforme garante o babalorixá Afonso Aguiar, que integra o grupo a partir de 1996 e conduz a agremiação desde a morte de França, em 1997.

Na função de rei e rainha, o Leão Coroado teve Estanislau, João Baiano, José Nunes da Costa, José Luís, Gertrudes Boca-de-Sola, Martinha Maria da Conceição e Dona Santa. Esta última, uma das mais imponentes rainhas de maracatu, filha e neta de africanos, marcou presença, sobretudo no maracatu Nação Elefante. As calungas são pretas, de madeira, e existem desde a fundação do grupo: uma delas representa Oxum, é Dona Clara; a outra, que representa Iansã, chama-se Dona Isabel. Durante mais de quatro décadas – provavelmente de 1954 até a morte, em 3 de maio de 1997 – o mestre Luís de França guiou o grupo com dedicação extremada, a ponto de provocar elogios da pesquisadora norte-americana, antropóloga Katarina Real, que, no início dos anos 1960, realizou pesquisa sobre o folclore no carnaval do Recife. À época, Katarina considerava o Leão Coroado a única legítima nação de maracatu ainda existente. São desse período diversos troféus conquistados pela agremiação.

Em outubro de 1996, França convida Afonso Gomes de Aguiar Filho para sucedê-lo na liderança do grupo. Após amargar uns anos de isolamento e conseqüente retração do maracatu, o filho de Xangô acerta em adotar a sugestão do presidente da Comissão Pernambucana de Folclore, pesquisador Roberto Benjamin, quanto à indicação de Afonso Aguiar, que, desde então, tem conseguido realizar importantes viagens e apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Santa Catarina, França, Holanda, Bélgica, Suíça, Espanha, Itália, Timor Leste, Ilhas Canárias. A comemoração dos 140 anos, em 2003, foi marcada pela gravação de CD, ao vivo, com as toadas tradicionais do grupo. Voltando, ainda, a 1997, o mesmo ano da morte de Luís de França, em 22 de dezembro é instituído o Dia Estadual do Maracatu: pela Lei 11.506, fica escolhido o dia 1º de agosto, em homenagem à data de nascimento daquele mestre.

Nascido na Campina do Barreto, Recife, em 15 de março de 1948, o mestre Afonso comanda há mais de vinte anos um terreiro em Águas Compridas, Olinda, para onde transferiu a sede do maracatu e todo o acervo do grupo. Ao longo do ano, desenvolve dinâmica de ensaios, aulas de percussão e toque de candomblé, oficinas de feitura e manutenção dos instrumentos musicais, de confecção do vestuário do maracatu, além de outras atividades educativas, como a preparação de um corpo de baile de danças afro. Todas as ações, tanto as preparatórias ao Carnaval quanto as pedagógicas envolvem continuamente a comunidade, sob a coordenação geral de Afonso Aguiar, que, inclusive, tem comandado oficinas de percussão e de confecção de instrumentos no Brasil e no exterior, a exemplo do Festival do Caribe, em 2009, na cidade de Santiago de Cuba. Seguidor fiel do mestre Luís de França, empolgado com a repercussão do primeiro CD e preocupado com a manutenção do grupo, o dedicado Afonso anuncia que o master do segundo disco está pronto e que as comemorações do sesquicentenário já estão sendo planejadas.

Na primeira edição do Prêmio Cultura Viva (2005/2006), do Ministério da Cultura, o maracatu foi uma das iniciativas contempladas, na categoria manifestação tradicional. A partir de maio de 2008, o grupo é transformado em Ponto de Cultura. Instalado no mesmo endereço da sede do maracatu, lá funciona um telecentro, com cursos básicos de informática e acesso 24 horas à internet, para atendimento de demandas da comunidade, em todas as faixas etárias. Com firmeza, o mestre mantém rotina semanal de ensaios e de trabalho. A triagem de novos integrantes obedece a exigentes normas de conduta social. Provavelmente o sucessor das tradições do terreiro e do maracatu será Afonsinho, o neto nascido em 1997, que toca nas obrigações da seita e tem comandado, quando necessário, a batucada do maracatu. Entretanto, como frisa o mestre Afonso, o Leão Coroado é mais religião do que carnaval. Com as bênçãos todas de Olorum, eguns e orixás.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE

Confira abaixo o vídeo ‘Com a Bênção de Nanã’, produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, que documenta um pouco sobre o Maracatu Leão Coroado, na série ‘Pernambuco Vivo’.