Convento Franciscano de Santo Antônio

As crianças tem História

No Recife, o Convento Franciscano de Santo Antônio, guarda um fantástico conjunto de azulejos holandeses de figura avulsa - isto é, cada unidade é formada por uma figura completa - com aproximadamente novecentas peças. O historiador da Arte Germain Bazin (1) atribui a estas a data de fabricação entre 1630 e 1650.

Supõem-se que, originalmente, estivessem assentadas em algum importante prédio de arquitetura civil, talvez o Palácio de Friburgo, mandado construir pelo Conde João Maurício de Nassau - Siegen que governa o Brasil Holandês de 1637 a 1644. Ao que parece - e é ainda suposição - a ruína do seu palácio ou o processo de demolição deste, ocorrido em 1785/86, teria provocado a mudança e o reaproveitamento comprovado pelo exame direto deste material de revestimento, no claustro do convento, o qual não distava mais que duzentos metros do Palácio.

É interessante notar que o conjunto de arquitetura franciscana, Convento e Igreja anexa, passou por sua vez por um amplo e planejado processo evolutivo, iniciado após a saída dos holandeses do Recife (1654) e só completado cerca de 1770, quando o claustro ganhou a configuração encontrada em nossos dias. (2)

O visitante que tenha a tranqüilidade de observar este magnifico acervo azulejar, aplicado no primeiro andar da galeria exterior do claustro, não pode deixar de perceber que o assentamento foi precedido de cuidadoso planejamento pelo mestre pedreiro, o qual teve o cuidado de organizar o agrupamento dos ladrilhos transpostos em função do material, do espaço físico disponível e dos temas encontrados.

A organização do espaço foi realizada levando-se em conta os tipos de acabamento dos cantos e a divisão temática dos azulejos em, pelo menos, oito "famílias" de figuras de padrões decorativos dos cantos das peças.

Entre estas pode-se identificar embarcações, monstros marinhos, animais, vasos floridos, profissões, cavaleiros e jogos e brincadeiras infantis.

Este último tema tem reduzida representação no universo estudado. São cerca de dez exemplares (um por cento do universo examinado) distribuídos em três painéis. Tem como características a ligas, além do assuntos, a decoração aplicada aos ângulos destas, todas do tipo conhecido como "cabeça de boi", a qual, segundo Bazin, não seria nada mais que a flor de lis estilizada.

Dentre as cenas de brincadeiras de crianças pode-se destacar a pesca, o jogo de pião e a corrida de aro, bem como a corda de pular.

Ulysses Pernambucano de Mello, neto. (DPH/FUNDARPE)

Referências:

  1. João Miguel do Santos Simões e José Antônio Gonçalves de Mello, Azulejos Holandeses no convento de Santo Antônio do Recife, Ed. Amigos da DPHAN, Recife, 1959.
  2. Sobre o desenvolvimento desta trajetória, veja-se Ulysses Pernambucano de Mello, neto "Arquitetura Franciscana: tempo e forma" Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, vol. LVIII, Recife, 1993.
  3. Sobre a História do Convento, veja-se na coleção Monumentos do Recife, a obra de Frei Bonifácio Mueller, O convento de Santo Antônio do Recife, 1984.