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ARTES CÊNICAS

Daniela Câmara: depois do teatro e do cinema, é a vez da literatura

Oficina de teatro e lançamento de livro de poesias estão entre os próximos projetos da artista.

TV, teatro e cinema. Todas essas linguagens fazem parte do repertório cênico da atriz Daniela Câmara

Em entrevista ao Cultura.PE, atriz reflete sobre momentos de sua trajetória profissional e antecipa novos projetos

Atriz, jornalista, poeta e produtora. Aos 44 anos, a multiartista recifense Daniela Câmara segue transitando entre as mais diversas expressões culturais e ainda encontra fôlego para explorar novas searas artísticas. Em meio à expectativa pelo lançamento de seu primeiro livro de poesias – marcado para maio -, e à realização de uma oficina de teatro, que acontecerá em Olinda, Dani conversou com o portal Cultura.PE.

Na entrevista, concedida ao repórter Bruno Souza, ela falou sobre essa confluência entre áreas culturais que delineou sua trajetória artística, narrou momentos que deixaram marcas importantes em sua formação profissional e, entre outras histórias, contou que aprendeu a não se deixar “esmagar” pelas engrenagens (por vezes difíceis) do mercado da arte e da cultura. Confira:

1- Antes de começarmos a falar da sua carreira, conta um pouco sobre esse curso de teatro que você vai ministrar em Olinda. Como os interessados podem se inscrever?
Batizado de O Repertório do Ator, o curso terá três meses de duração e acontecerá nas segundas e quartas-feiras à noite, no Sítio Histórico olindense. O lugar ainda não está certo ainda, mas definirei por esses dias – ainda estou naquele processo de formação de turma. Mas, quem quiser participar, é só entrar em contato comigo através do meu e-mail (danicamara70@hotmail.com), que passo todas as informações (preço, horário e quantidade de vagas).

2- Há quanto tempo você trabalha como atriz? Que memória você tem dos primeiros trabalhos nessa área?
Há vinte e seis anos. Comecei profissionalmente no teatro, com os espetáculos Os Saltimbancos, de Chico Buarque de Hollanda, e Bailei na Curva, de Júlio Conti. No cinema, fiz Cassino Americano, do falecido diretor pernambucano Marco Hannois. Ingressei na TV em comerciais dirigidos por João Falcão. Mas a minha primeira aparição pública foi numa leitura dramatizada de uma peça de Nelson Rodrigues, A Falecida, na Fundaj, sob a direção de Lúcia Machado. Antes disso, porém, me lembro que, aos 14 anos, eu já declamava poesias na Academia Pernambucana de Letras (APL), ao lado de Geninha Rosa Borges, que é amiga da minha mãe – a jornalista Ester Câmara.

3- Além de atuar, você é jornalista, produtora, poeta e, de vez em quando, ainda canta nos shows dos seus amigos músicos. Você se considera uma multiartista?
É como meu amigo Walmir Chagas, que também é multi, falou em uma entrevista dia desses: “A única mulher que considero multiartista em Pernambuco é Daniela Câmara” (risos). Isso tudo, porque também fui uma “cantriz” do famoso Pastoril do Véio Mangaba, na década de 90. Dançava e cantava no pastoril, quando engravidei da minha primeira filha, Camila. Eu quis aprender, ter essa relação de administrar tudo ao mesmo tempo. Acho interessante ter essa relação com as impermanências, estando sempre entre um alvo e outro. Eu adoro ser uma outra a cada trabalho que faço. Certamente não seria uma profissional estagnada em uma mesma função, porque sempre entendi a vida artística como uma atividade privilegiada e prazerosa. E a gente aprende a caminhar sobre a corda bamba, que é a vida do artista. Tive/tenho que ser multi para poder me manter e manter os meus filhos, para poder viver de arte em nosso Estado, já que apareceram oportunidades fora (daqui) e eu não fui. Escolhi ficar com meus filhos. E apesar de viver num lugar de mercado difícil, amo Pernambuco e, principalmente, o Recife.

4- Sobre suas poesias, você pretende reunir esses textos em um livro? 
Já tenho dois livros de poemas no prelo. Um já está se encaminhando para publicação – está naquela fase de revisão e ilustrações, sabe? Esse primeiro será batizado de Primeiro Ato Poético, e vai marcar minha estreia no mundo literário. Só decidi lançar essa obra após o aval/incentivo do poeta português Luís Serguilha. Segundo ele, minha poesia é “enérgica e combativa”. Meu amigo poeta Valmir Jordão também leu meus versos e fez uma crítica construtiva a respeito. Depois disso, me senti capaz de botar a cara à tapa. O segundo ainda vou editar e ver o que merece ser publicado.

5- Você acumula trabalhos expressivos tanto no teatro como no cinema. Como foi essa transição dos palcos para a tela grande?
Não houve transição. Tudo aconteceu ao mesmo tempo comigo. Tem sido assim até hoje. Falar todas as linguagens foi/é uma grande ferramenta na minha carreira, mas eu tive desprendimento para isso. Fui fazendo e gostando de tudo. Viram-me solando uma música em cena no teatro e me chamaram pra cantar na banda Zaratempô, na época em que explodia o Movimento Mangue. Passei a fazer backing vocal em outras bandas e me envolvi com música nessa época. João Falcão me adotou na linguagem televisiva por indicação de Carlos Carvalho, ainda nos anos 80. No cinema, comecei com Marco Hannois, depois Marcelo Gomes, Camilo Cavalcante, Kleber Mendonça Filho e Adelina Pontual.

A atriz atuando no espetáculo Bailei na Curva, de Julio Conti, e no filme O Presidente dos Estados Unidos, de Camilo Cavalcante.

6- Que diretores de teatro/cinema marcaram a sua trajetória? E atores?
Em primeiro lugar, no cinema, Camilo Cavalcante, depois Marcelo Gomes e, agora, Kleber Mendonça Filho, depois de fazer o “Som ao Redor”. No teatro, Carlos Carvalho, que foi meu primeiro professor de teatro, Carlos Bartolomeu, Manoel Constantino e José Manoel. Já entre meus colegas atores, que passaram por minha vida e eu jamais vou esquecer, foram: Silvio Pinto, Walmir Chagas, Adriano Cabral e Bárbara Rominna, que foi assassinada e eu me emocionei demais ao entrar em cena e ver outra atriz com o mesmo figurino que ela usava, dividindo o palco comigo.

7- Como você encarou esse triste episódio? O que essa experiência, em particular, acrescentou-lhe de mais significativo?
Isso marcou – e muito – minha vida de atriz, porque ficamos amigas em pouco tempo de trabalho e, infelizmente, tive que subir ao palco sem ela nesse dia. Aprendi a ser mais humana, me conhecer melhor e aceitar críticas. E mais do que isso: percebi que a arte pode nos salvar dos males do mundo. Considero-me uma pessoa crítica, e o teatro, além de todas essas experiências vivenciadas no palco, me fez entender que sou feliz por não seguir os padrões capitalistas do mercado e que, mesmo estando dentro dele, sei discernir sobre suas engrenagens e operações, e escolher meu modus vivendi sem me deixar esmagar pelas instabilidades que a carreira nos oferece.

8- Em que momento a atriz decidiu ser jornalista?
Gosto dessa dualidade e jamais me ponho como artista quando sou a jornalista. Consigo distinguir bem os dois papéis. Sou apaixonada pelo jornalismo cultural, que é onde me sinto livre e inspirada pra escrever. Quando optei pelo jornalismo, há uns seis anos, achei que seria uma rica ferramenta para minha vida, para me deixar mais segura na escrita, já que escrevo poesia desde meus 12 anos. Antes, quando relia os meus escritos, achava tudo ridículo. Hoje, eu releio e gosto.

9- Você enxerga uma confluência entre essas duas áreas?
Teatro, cinema, TV, locução: tudo isso é comunicação. Na faculdade, me sentia experiente, porque já havia vivenciado muitas coisas da área antes. As cadeiras que paguei durante o curso me deram um suporte, uma rede embaixo dessa corda bamba. São duas vias favoráveis que se entendem e se permitem comunicar. O jornalista é também um artista, quando discerne sobre o que vai comunicar. O único problema é a censura, os crivos, as permissões no que se publica. Mas temos que seguir e realizar, sem perder de vista o grande pilar de nossa profissão: noticiar com ética.

10- Recentemente, você estava editando o jornal O Mirante de Olinda, que era voltado para a cena cultural da cidade. Como anda esse projeto?
O Mirante era um tabloide cultural, que circulou durante um ano em Olinda. Depois, criei a Gazeta Cultural Pernambuco, como uma ampliação dessa circulação. Passei a distribuir em Olinda, Recife, Igarassu, Aldeia, Gravatá, entre outras cidades. Tudo patrocinado por anunciantes da iniciativa privada. Tinha uma equipe reduzida e eu mesma fazia a distribuição. O jornal tinha formato impresso e online, mas não pagava meu trabalho. Foram três anos de luta, mas, em dezembro do ano passado, me dei essa carta de alforria.

11- Algum plano de retornar aos palcos?
Estou desenvolvendo um projeto que vai mesclar poesia, música e teatro, já que o livro apresenta versos e reminiscências dos personagens que me visitam no universo de atriz, na minha vivência no teatro e no cinema. Essa montagem é um sonho antigo, que venho guardando há um tempo já. Se tudo der certo, será um espetáculo lítero-musical recheado de boas histórias e lindas canções. Aguardem.

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