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Design e Moda

Empreendedores da Moda: Jailson Marcos, o artesão dos calçados

Designer é famoso por criar sapatos com modelagem diferenciada, cheia de referências culturais

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Jailson Marcos mantém um ateliê no bairro da Torre, onde mora, produz e vende seus calçados

Bruno Souza

É impossível falar de sapatos em Pernambuco e não se lembrar de Jailson Marcos. Potiguar, o designer, radicado há 29 anos no Recife, já conquistou um público cativo na cidade (e Brasil a fora também), graças à modelagem conceitual (e quase exclusiva) de seus calçados e ao desejo de manter um negócio com características tão peculiares, que fica até difícil categorizar se o que ele produz está ligado à tradição artesanal nordestina ou à alta costura. Nesta primeira matéria da série Empreendedores da Moda, você irá conferir a história, a rotina e os novos projetos desse sapateiro que, embora não seja pernambucano nato, honra o nome de nosso Estado entre os grandes criadores da moda em nosso País.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Desde o começo da carreira, o sapateiro confecciona seus produtos à mão

Início
Tudo começou de maneira despretensiosa, como lembra o próprio Jailson. “Antes de morar no Recife, em 1985, estudava Educação Artística na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sempre soube que meu ofício estaria atrelado ao universo da arte. Gostava de criar e inventar coisas, mas, como todo menino de uma cidade de interior [sou de Santana do Matos], vivia o dilema de ter que estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Então, larguei o curso lá [Natal] no quinto período e, mesmo tendo um emprego garantido na Assembleia Legislativa, vim para capital pernambucana dar prosseguimento aos estudos universitários. Só que aqui, ao contrário da UFRN, as aulas aconteciam pela manhã. E o emprego que arranjei na Atlantic [uma companhia de petróleo] chocava com o horário da faculdade, fato que me fez abandoná-la de vez. Depois de trabalhar uns cinco anos na área administrativa dessa firma, fui demitido. Peguei minha rescisão e decidi que iria montar meu próprio empreendimento. Fui a São Paulo e comprei lá a matéria-prima dos primeiros cintos e bolsas, que eu mesmo confeccionava/comercializava em um ateliê localizado entre a Rua das Ninfas e a do Progresso”, disse emocionado ao revisitar o início da carreira.

Da confecção de acessórios para entrar no mundo dos calçados, foi um salto. “Um amigo argentino, que era meu vizinho na Boa Vista, me ensinou a costurar à mão um mocassim. Fiz o primeiro para minha irmã e, a partir dos pedidos das amigas dela, formei uma cartela de clientes bem razoável. Porém, para ficar mais conhecido na cidade, decidi que ia vender meus sapatos na feirinha de Boa Viagem. [...] Sou artesão mesmo. Sapateiro, de verdade, sabe? E tenho orgulho de dizer que comecei na raça, sozinho”, contou.

Paralela à produção dos pisantes, Jailson, para se manter, teve que voltar a trabalhar, durante dois anos, na área administrativa da Texaco (outra distribuidora petrolífera). “O marco da minha carreira se deu com minha mudança para essa casa, em 1996. Foi quando, realmente, me propus a fazer só isso [sapato]. Era isso o que eu queria. E era por isso que batalharia dali para frente. Não foi fácil. Porque eu não tinha capital, não tinha uma marca consolidada, mas as coisas, graças a Deus, aconteceram”, afirmou o designer, que mantém até hoje uma espécie de ateliê-residência-loja no local. Nesse mesmo ano, surgiu o convite para participar do Mercado Pop, evento produzido pelo trio Maria do Céu, Evêncio Vasconcelos e Will, que reunia mensalmente, em um mesmo espaço da cidade, diversas linguagens artísticas (moda, design, música e pintura). “Foi um período muito bacana para divulgação do que produzíamos. Ali surgiram nomes, como [o estilista] Eduardo Ferreira e [a loja] Período Fértil, que atualmente ainda são referências para a nossa moda”, frisou.

Reconhecimento
Com o trabalho mais reconhecido pelo grande público, o criador de calçados foi chamado para montar uma exposição, no Centro de Convenções de Pernambuco, com sapatos de papel machê. O resultado foi tão satisfatório, que a mídia e os formadores de opinião se renderam aos encantos do potiguar. “Ganhei uma resenha de uma jornalista do Rio Grande Sul, a Carol Garcia, que associava meu trabalho ao de Salvatore Ferragamo – designer italiano, que, até então, eu desconhecia. E, pesquisando, vi que tínhamos muitas coisas em comum, mas minha produção tem uma coisa única: o processo artesanal. Não quero nada industrializado nas minhas sandálias. Prefiro a experimentação, que me permite criar organicamente peças cheias de identidades/referências culturais de nossa terra, sem perder de vista o conforto e a qualidade”, falou. Seus produtos são tão originais, que artistas e estilistas, como Carlinhos Brown, Elba Ramalho, Lenine, Luiza e Zizi Possi, Silvério Pessoa, Maestro Forró, Nena Queiroga, Ronaldo Fraga e Danielle Jensen, fazem questão de desfilar com seus calçados.”Já recebi vários deles aqui em casa, porém, quando crio, não penso no show business, e, sim, na qualidade e durabilidade dos artigos”, atestou.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Suas peças são conhecidas pelo design diferenciado e a qualidade da matéria-prima que emprega na confecção

Novos projetos
Atualmente, Jailson Marcos emprega nove pessoas em seu empreendimento (oito na produção e uma no setor administrativo). “Como moro aqui, começamos a produzir por volta das 8h da manhã. Sou autodidata e, geralmente, esboço algumas peças numa salinha que tenho lá nos fundos da casa. Desses desenhos, surgem várias ideias, que dou forma nos moldes que já tenho”, disse ele, que vai inaugurar, na próxima quinta-feira (23/10), uma nova loja na Galeria Joana D’Arc, no Pina. “Recebi do arquiteto Diogo Viana o convite para abrir esse espaço na Zona Sul. Meu trabalho tem tudo a ver com a pegada de lá, e pedi a ele que mantivesse no projeto a mesma atmosfera do meu ateliê daqui da Torre. As cores serão as mesmas, branco e tangerina, e, nas paredes, haverão painéis que vão mostrar a produção dos meus sapatos na fábrica”, adiantou. E complementou: “depois de vender para marcas pernambucanas e nacionais, chegou a hora de ter um local só meu, aonde possa receber meus clientes de maneira mais pessoal. A vida pede que nos reinventemos todos os dias. Eu só estou atendendo a um pedido dela”.

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