Canhoto da Paraíba (in memoriam)
Cidade: Recife
Atividade/expressão cultural: violonista
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005
O avô tocava clarinete. O pai, violão. O filho, Francisco Soares de Araújo, tinha a certeza de que adorava música, e isto era o que não faltava em casa, reduto dos principais instrumentistas da cidade. Ainda criança, já sabia apreciar um bom repertório, habituado aos saraus e serenatas na própria residência. Com o pai, Antônio Soares de Lima, aprendeu, aos 12 anos, a tocar a tabuinha, que era como apelidava o violão. O avô, o clarinetista Joaquim Soares, também exerceu grande influência sobre ele. Com o maestro Joaquim Leandro, regente da banda local, conheceu as primeiras notas musicais. Mas, outros instrumentistas da infância, a exemplo dos violonistas Zé Micas e Luiz Dantas, do saxofonista Manoel Marra e do acordeonista Zé Costa, foram decisivos, pois, por causa deles, manteve os primeiros contatos com um repertório de choros e valsas que o marcaram para sempre. Alguns chorinhos fizeram-no cultuado por músicos do porte de Radamés Gnatali, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola.
Nascido em 17 de março de 1931, em Princesa Isabel, alto sertão paraibano, o filho de Quitéria Lopes de Araújo lá mesmo foi o tocador do sino da igreja, fez iniciação musical e partiu amadurecido à procura de outras cidades em que pudesse expandir os dotes artísticos. Ainda adolescente veio ao Recife apresentar-se na Rádio Clube, mas somente aos 25 anos é que conseguiu realmente sair de Princesa Isabel. Foi para João Pessoa, em 1952, onde morou alguns anos e brilhou na Rádio Tabajara. Em seguida, 1958, transfere-se definitivamente para Pernambuco e é imortalizado como Canhoto da Paraíba, um dos mais importantes compositores de choro. O diferencial no uso da tabuinha aconteceu assim: por necessitar compartilhar com os irmãos destros o mesmo instrumento, desenvolveu uma técnica especial de dedilhar o violão, tocando os acordes com a mão direita e usando a esquerda para o dedilhado das cordas, sem invertê-las. Ou seja, um violão “tocado pelo avesso”, como diz o título de um dos seus discos gravados.
Não só a forma de tocar o instrumento, sobretudo o vigor das composições de Canhoto é que o fizeram chegar ao panteão dos grandes instrumentistas brasileiros. O repertório passa pelos ritmos regionais – xote, xaxado, baião, frevo – e pela Bossa Nova, predominando o choro e a valsa. Para a grandiosidade com que compunha e tocava o violão, poucos foram os discos gravados por Canhoto: Único Amor, de 1968, é gravado pela Fábrica Rozemblit, no Recife. Um dos músicos, escolhido à época por Canhoto, foi o jovem Henrique Annes, hoje violonista consagrado. O produtor do disco foi o maestro Nelson Ferreira. Em 1974, também pela Rozemblit, sai Um violão direito nas mãos do Canhoto. Em 1977, sai o álbum Com mais de mil, selo Marcus Pereira, produzido por Paulinho da Viola e festejado pela crítica musical do país. No repertório, as músicas Pisando em brasa e Com mais de mil. Além de produzir o primeiro disco de Canhoto, Paulino da Viola viajou com o violonista pelo país, no Projeto Pixinguinha, e gravou, no seu primeiro trabalho, de 1971, o choro Abraçando Chico Soares, seguindo o estilo de composição do paraibano. Em 1990, Geraldino Magalhães e Lula Queiroga produzem o disco independente Fantasia nordestina: Violão brasileiro tocado pelo avesso. E, pela Caju Music, lança, em 1993, o último trabalho solo, Pisando em brasa, com participação especial de Raphael Rabello e Paulinho da Viola. Ainda em 1993, pelo Tom Brasil, sai o CD Instrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio. Em 1999, Canhoto é ladeado por Annes, Rafael Rabello, Baden Powell na coletânea Os bambas do violão, lançada pela Kuarup.
Radicado durante meio século em Pernambuco, Canhoto foi agraciado, em 1984, com o título de cidadão pernambucano. Reverenciado por Baden e outros grandes nomes da música popular brasileira, apresentou-se com Luperce Miranda, João Bosco, Sivuca, César Camargo Mariano, para citar apenas alguns. Em 2004, recebeu uma homenagem do presidente Lula, em Brasília. Na Paraíba, foi homenageado com a publicação da Lei Canhoto da Paraíba, que, a partir de 2005, concede a artistas o título de Mestres das Artes (Lei 7694/2004, Registro de Mestres das Artes – Rema) e ele foi um dos primeiros agraciados. Após sofrer isquemia cerebral em 1998, interrompe-se a carreira do artista, que passa os últimos anos de vida em Maranguape, Pernambuco, com uma filha, falecendo a 24 de abril de 2008.
A importância musical desse requintado artista inspirou o Trio de Câmara Brasileiro a produzir, em 2009, o disco Saudade de Princesa – Sobre a obra de Canhoto da Paraíba, do selo Crioula Records. O recifense Caio Cezar assina a direção musical do CD e está organizando um livro com as partituras musicais de Canhoto. A genialidade do mestre, de viva memória, perpetua-se com ações desse porte e, ainda, ao ser constantemente revisitada nas gravações originais do instrumentista e em regravações ou releituras de outros virtuoses.
Fonte: Amorim, Maria Alice (2014), Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE
