Cristina Andrade
Em Pernambuco, a maior parte dos festejos populares tradicionais ocorrem durante os ciclos natalino, carnavalesco e junino. Maria Cristina de Andrade, nascida em 10 de abril de 1947, em Água Fria, Zona Norte da cidade do Recife, deu a mão a todos esses, envolvendo brincantes, entusiastas, curiosos e admiradores, por meio de seus brinquedos: a Ciranda Dengosa, o Pastoril Estrela Brilhante e o Urso Cangaçá de Água Fria, Queima da Lapinha e Bandeira de São João. Todos os anos, saem para as ruas, cumprindo um calendário ritualístico festivo/ religioso, que contribui para a manutenção de tradições que compõem a identidade cultural do estado de Pernambuco e do Brasil.
Cristina Andrade anda de mãos dadas com a cultura popular desde os seis anos de idade, quando começou a dançar pastoril por influência de sua mãe, Maria das Neves Silva, Dona Dengosa. Uniu-se primeiramente ao pastoril de Dona Bia, no Alto do Pascoal, até que, em 1958, sua mãe fundou o pastoril Estrela Brilhante em Água Fria. Segundo Cristina Andrade, o Estrela Brilhante é um pastoril tradicional, de influência religiosa, que se apresenta anualmente principalmente no mês de dezembro, com os cordões encarnado e azul, formados por crianças e jovens, além de outros personagens que envolvem o folguedo, como a borboleta, a cigana, o pastor ou o velho, o anjo e a figura da Diana. A mestra Cristina Andrade já foi coroada diversas vezes nos concursos de pastoris, e chegou a ser homenageada em 2008 no “Natal de Vozes e Luzes”, patrocinado pela Prefeitura do Recife, ocasião na qual também lançou, no Pátio de São Pedro, o primeiro CD do grupo, intitulado “Pastoril Estrela do Oriente”.
Em 1968, 10 anos depois da fundação do Estrela Brilhante, Dona Maria das Neves, que era conhecida por Dona Dengosa, fundou a Ciranda Dengosa de Água Fria. Em uma das apresentações, o cirandeiro que estava à frente do grupo não compareceu e coube à Cristina Andrade, ainda bastante jovem, assumir a liderança. A partir de então começou a se dedicar mais ao folguedo, tradicional do ciclo junino. Escreveu canções e se tornou mestra cirandeira. A Ciranda Dengosa possui uma formação organizada, com indumentária específica, instrumental, coral e cirandeiro. Tanto a ciranda quanto o pastoril, Cristina herdou de sua mãe e tomou à frente das brincadeiras.
Tendo em mente a importância da preservação e da transmissão de valores passados de geração a geração, Dinda, como é popularmente conhecida em seu bairro, Água Fria, influenciou sua família a a participar ativamente da grande roda da cultura popular: sua filha Ceça, por exemplo, criou e lidera o Lindas Ciganas, pastoril derivado do Estrela Brilhante, e seus filhos, netos e bisnetos, também integram os grupos existentes. A mestra afirma: “o que eu quero mesmo é que a cultura popular tenha êxito, que nunca se acabe”. No processo de transmissão de saberes, já deu aulas e oficinas em diversas escolas públicas, associações de moradores, e ajudou na formação de novos grupos de ciranda e pastoril, como o da UR-3, no Ibura, e o Pastoril Estrela Guia, no Cabo de Santo Agostinho.
O Carnaval também está pulsante na vida de Cristina Andrade desde criança, também por influência materna. A brincante já integrou importantes agremiações carnavalescas, como o Batutas de São José, o Espanadores de Água Fria e o Maracatu Estrela Brilhante do Recife. Organizou grupos como Apôis Fum, Bloco do Amor, Diversional da Torre e Urso Cangaçá. Esta última agremiação, Cristina iniciou compondo o coral e, tempos depois, tornou-se presidente. Também foi campeã diversas vezes do Grupo Especial do Carnaval do Recife.
Ocupando espaços públicos e culturais, seja nos ciclos natalino, junino ou carnavalesco, entre cantos, danças, brincadeiras e devoções, Cristina Andrade envolve o coletivo e faz a cultura popular pernambucana pulsar o ano inteiro. Em 2018, ela se tornou Patrimônio Vivo de Pernambuco, e em 2021, foi reconhecida com o título de Notório Saber em Cultura Popular pela Universidade de Pernambuco, títulos que contribuem e garantem a afirmação da mestra de que “A história não pode parar, tem que continuar”.
