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Cultura.PE

Dila

Cidade: Caruaru
Atividade/expressão cultural: literatura de cordel e xilogravura
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005

Foto: Ricardo Moura

Cangaço e peripécias diabólicas são os temas predominantes no universo do mestre em fabulações, gravador de capas de folheto e álbuns em policromia, autor de rótulos de bebida e remédios, ilustrador de livros e publicações variadas. O nome de batismo do marechal do cordel do cangaço, conforme se autodenomina, é José Soares da Silva, ou Dila, nome emblemático no mundo da gravura popular. Nascido em 23 de setembro de 1937, em Bom Jardim, e estabelecido em Caruaru, o filho de Domingos Soares da Silva e Josefa Maria da Silva testemunha que, dos anos 1950 em diante, mergulha no mundo do cordel e da xilogravura quando passa a comercializar folheto nas feiras de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Ceará.

Municiado de generosa fabulação, Dila compartilha com amigos e visitantes a riqueza do seu mundo imaginário, as invenções e reminiscências de mais de cinco dezenas de anos dedicadas às artes gráficas, à poesia de cordel e à xilogravura. No limiar entre realidade e imaginação, tão bem cultivadas pelo poeta, rememora a chegada em Caruaru, em 1952, e as primeiras xilogravuras, que foram para folhetos dele mesmo, de Francisco Sales Arêda e de outros poetas de meio de feira, tais como Vicente Vitorino, Chico Sales, Jota Borges, Antônio Ferreira de Morais e João José da Silva. E, finalmente, a facilidade para com os desenhos credita ao pai que, segundo ele, foi caricaturista. Em 1974, em plena atividade de poeta, gravador, impressor, aparece no documentário de Tânia Quaresma, Nordeste: cordel, repente, canção, em que figura a profissão registrada em letras garrafais pintadas na fachada do mesmo endereço onde ainda hoje reside, em Caruaru: Art Folheto São José. Romances e folhetos. Do autor e editor: Dila é aqui.

A partir da experiência na fabricação de carimbos, substitui as matrizes de madeira pela borracha, obtendo um resultado de impressão que o pesquisador Roberto Benjamin batizou de folk-off-set. Utiliza cores diversas numa mesma matriz, ou faz inúmeras combinações de gravura a partir de detalhes elaborados em matrizes diferentes. As figuras são preparadas separadamente para permitir isto. Irrepreensível no desenho e na invenção, a gravura limpa, bem talhada, complexa exibe narrativa imagética absolutamente original, sob ângulos inusitados, sem contato sistemático com os cânones do desenho clássico. A partir dos anos 70, inova em publicações coloridas e no formato cordel. Em 1973, edita o álbum de gravuras em policromia Rasto das Histórias, utilizando-se de azul, vermelho e amarelo sobre fundo branco. Em 1974, publica A bagagem do Nordeste, com a capa em preto, vermelho e amarelo sobre fundo branco. Viver do cangaceiro sai em 1975, pela Art folheto São José. O álbum Réstias do Cangaceiro é editado em 1981.

O fabricante de rótulos de bebida instala na própria casa máquinas de tipos móveis e prelo, a fim de publicar folhetos e imprimir gravuras. Além disso, as ferramentas manuseadas para cavar a matriz são faca, peixeira, canivete, lâmina de barbear, que cortam a borracha, ou neolite, para fazer capas de cordel, rótulos e carimbos. Abre letreiros e desenhos do cordel numa mesma matriz, em borracha ou ainda na madeira, reinventando o tipo fixo, conforme lembra Roberto Benjamin, no texto Aparatos dos livros populares – Dila editor popular. E o registro da própria editora é tão mutante quanto o caudaloso fluxo narrativo do poeta. A Art folheto São José virou Gráfica São José, ou Gráfica Sabaó, ou Preéllo Santa Bárbara, ou Fhòlhéteria Càra d’Dillas. Neste registro, o nome da folheteria aparece na contracapa do cordel, com um autorretrato de Dila vestido de cangaceiro.

E, mais, o registro de autoria do texto e da xilogravura é sempre tão variável quanto o do editor. Dila: o marechal do cordel do cangaço. Dila Soares da Silva. Dila Ferreira da Silva. Dyyllas Sabóia. Dila Sabaó Sabóia. José Cavalcanti e Ferreira, José Soares da Silva, Dila ou Dillas. Recorrentes num universo poético expresso em ininterrupto fluxo criador, e também na atual invenção da “literatura de cordel em contos”, da “literatura de cordel em prosas” que vem engendrando e editando, os motivos passam por ciganos e cangaceiros, Chico Heráclio, Lampião, Padre Cícero, o Pai Eterno, Pessoa e Dantas, Ariano Suassuna, “xylgra e cordel”, Dyylas Sabóia. Se, invés de cordel e xilogravura, produzisse um filme de cangaço, deliberou, de antemão: seria o protagonista: o cangaceiro Relâmpago. Assim, em meio a fantasias e criação poética, Dila vai recebendo visitas diárias de estudantes, pesquisadores, turistas, todos ávidos em conhecer o mundo maravilhoso do artista que está sempre a exibir, incansável, as mais recentes invenções de poesia e xilogravura.

Fonte:
Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE