Maria Jacinta
Santa Maria da Boa Vista, no Sertão de Pernambuco, é o nome da pequena cidade que, principalmente durante os meses do ciclo natalino, se engrandece com a tradição cultural secular do reisado, festejo de inspiração católica que encerra a celebração do nascimento de Jesus no dia seis de janeiro, conhecido como Dia de Reis. São cinco grupos tradicionais ativos, o maior número do estado, dentre os quais estão o “Reisado do Inhanhum”, Patrimônio Vivo de Pernambuco, titulado pelo Governo Estadual em 2017, e o “Reizado de Maria Jacinta”, cuja mestra, Maria Jacinta, foi diplomada com o mesmo título em 2021. A Mestra é uma das principais responsáveis por manter viva e transmitir, há pelo menos seis décadas, a tradição das folias dos Santos Reis na região. Nascida em 28 de dezembro de 1924, Dona Maria Jacinta deu início a uma vida dedicada à Folia de Reis desde o final da década de 1950, quando foi convidada para dançar no Reisado da Mestra Antônia Ferro. No entanto, seu primeiro contato com o folguedo veio de laços familiares: seus avós, que já celebravam o reisado “Reis de Palma no Inhanhum”, a colocaram em contato com as primeiras cantigas.
O encanto e devoção de Dona Jacinta pelo reisado a fez decidir fundar seu próprio grupo em 1961, junto com seu esposo Pedro Rodrigues da Silva, e familiares. Os filhos tocavam, as filhas dançavam, e à medida que cresciam foram assumindo personagens na brincadeira. Outras famílias da vizinhança também se uniram. mesmo sem muitos recursos, a mestra economizou o pouco que recebia pelo trabalho na roça e no ofício de lavadeira e investiu nas fantasias, feitas de papel crepom e costuradas à mão por sua filha. Realizaram a primeira cantiga na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Santa Maria da Boa Vista, conquistando admiradores de todas as idades, que logo passaram a convidar o grupo para diversas ocasiões festivas em suas casas.
As apresentações do “Reizado de Dona Jacinta” ocorre tradicionalmente na Igreja Matriz no dia seis de janeiro, mas se estende por todo o decorrer do ano, quando recebem convites para eventos festivos. O grupo possui entre 20 e 25 integrantes, de diversas idades e ofícios, como agricultores, donas de casas, estudantes e funcionários públicos, que se dedicam com carinho à dança. O conjunto musical que os acompanha conta com a harmônica sonoridade do pandeiro, sanfona, triângulo e zabumba. As danças e músicas fazem referência a 12 personagens, dentre os quais, a borboleta — atualmente representada pela tataraneta de Dona Jacinta, Ana Cecília —, a burrinha e o boi. Tudo é acompanhado de figurinos e acessórios criativos e de cores vivas, que embelezam o ritual, o qual primeiro saúda Jesus e seu nascimento, em seguida pede licença ao dono da casa onde se apresenta, e depois, saúdam o público.
Além de ser mestra do grupo, atualmente coordenado por sua filha, Maria Marina Sampaio, Dona Jacinta é também uma liderança e referência na comunidade onde atua, em Santa Maria da Boa Vista, e nos reisados do entorno. Em 2013, os reisados de Pernambuco foram inventariados pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco- Fundarpe, o que possibilitou mais união entre os brincantes e a ampliação e o fortalecimento das ações de salvaguarda dessa manifestação cultural, a exemplo de um maior investimento em políticas públicas voltados para o folguedo e as comunidades envolvidas. Além disso, o inventário serviu de subsidio para o registro estadual do reisado, que ocorreu em dezembro de 2022. No ano de 2014, nasceu o movimento Viva Reis, ativo na atualidade, com o objetivo de articular os reisados do sertão de Pernambuco; nesse processo, o “Reizado de Dona Jacinta” foi fundamental no movimento de agregar e fortalecer os grupos congêneres. Outro projeto no qual a mestra contribui, com seus ensinamentos em escolas e comunidades, é a oficina chamada Sementeira de Reisado, que conta com incentivo do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, o Funcultura, . Além disso, a Secretaria de Cultura e a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe, passaram a promover, desde 2019, o Natal das Tradições, festival de apoio e fomento às manifestações do período natalino em que o “Reizado de Dona Jacinta” se apresenta.
O “Reizado de Maria Jacinta” faz escola. Em 2018, inspirou a criação do grupo Irmandade, voltado para a formação de novos brincantes. Para a mestra, que também foi reconhecida com o Prêmio Culturas Populares, do Ministério da Cultura, em 2017, transmitir sua experiência e a tradição adiante, no âmbito familiar e além dele, é um compromisso que abraçou quando se fez enfrentante: seu reisado alcança quatro gerações de sua família, como é o caso da tataraneta Ana Cecília; e, até hoje, ensina e repassa os elementos que envolvem e compõem o reisado em escolas e entre projetos sociais da região. Tratar do “Reizado de Dona Jacinta” significa, então, falar de dança, música, identidade cultural, comunidade, memória, família e religião. Embora não possa mais dançar, ela afirma que “o pensamento, o coração, a vontade, o esforço, (no reisado) não me falta”.
