Mestre Luiz Antônio
“Filhos do Alto do Moura”. É assim que Luiz Antônio da Silva gosta de nomear a si e a Mestre Vitalino, seu contemporâneo, de quem foi discípulo e amigo, em referência ao bairro caruaruense, maior centro de arte figurativa das Américas, segundo a Unesco, onde os dois artesãos são referência. Nascido no dia primeiro de junho de 1935, em Caruaru, Agreste Central pernambucano, Mestre Luiz Antônio é destaque na cultura popular nordestina e brasileira pela arte figurativa que faz nascer do barro, e por haver contribuído para o reconhecimento do Alto do Moura para além do âmbito local e regional.
Com cerca de dez anos idade, Luiz Antônio nem imaginava, mas já dava seus primeiros passos como renomado artesão que viria a ser, ao brincar com o barro, criando ludicamente cavalos, bois e outros elementos que retratavam o seu cotidiano. O contato com a matéria-prima veio através de seus pais, os oleiros Antônio José da Silva e Maria Tereza da Conceição, uns dos primeiros a habitar o Alto do Moura. Embora tenha herdado a tradição da cerâmica de sua família, foi com a chegada de Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre Vitalino, com sua arte figurativa, no Alto do Moura, que o Mestre Luiz Antônio trilhou seu caminho carregado de criatividade, aperfeiçoamento e precisão.
Viver da arte não foi, contudo, a primeira opção do Mestre. A difícil situação financeira que enfrentava fez com que Luiz Antônio, aos 18 anos de idade, se mudasse para São Paulo para trabalhar em um restaurante. O fluxo migratório para a grande metrópole brasileira era uma prática comum entre os nordestinos que almejavam melhorar de vida. Porém, cinco anos depois, em 1958, a pedido de sua mãe, “o bom filho a casa tornou”. Por influência de Mestre Vitalino, que já obtinha sucesso e reconhecimento na Feira de Caruaru (titulada Patrimônio Imaterial de Pernambuco em 2006), Luiz Antônio retomou seu contato com o barro de massapê. Mais maduro, o observador e talentoso artesão decidiu retratar através do barro, diversas profissões que faziam parte do contexto agrestino ou mesmo de sua história.
As esculturas de profissões, como fotógrafos, médicos, eletricistas, a banda de pífano, radialistas, tornaram-se a grande assinatura de Luiz Antônio, juntamente com as de automóveis e outros transportes, como a “maria fumaça”, termo popularmente utilizado no Brasil para as locomotivas a vapor. Também retrata manifestações de fé e outras atividades da vida cotidiana. As peças são confeccionadas de forma minuciosa, o que é perceptível ao observar qualquer peça de sua autoria. Dentre as suas obras mais famosas, está “Máquina de Fazer Telha Canal”. A arte popular de Luiz Antônio inspirou dezenas de aprendizes, incluindo seus dez filhos, fruto da união com a também artesã, Odete do Nascimento, e dos quais quase todos dão continuidade à tradição da arte popular na família através das esculturas em barro.
Carregando consigo o aprendizado e a inspiração trazidas do Mestre Vitalino, Luiz Antônio se tornou nacionalmente referência do artesanato popular no país. Além de outros estados brasileiros, viajou para o Japão para representar o Brasil na Feira Internacional de Turismo, em 1986. Para a ocasião, que reunia mais de 30 países, chegou a produzir cerca de 300 peças para expor. Durante a primeira Bienal de Artesanato de Pernambuco, em 1986, o Mestre conquistou o prêmio Eleikeiroz do Nordeste. Em 2017, foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares Leandro Gomes de Barros, oferecido pelo Ministério da Cultura. Em 2019, foi eleito por votação popular como o primeiro patrimônio vivo de Caruaru e, dois anos depois, em 2021, foi titulado Patrimônio Vivo de Pernambuco. Em seu ateliê, em Caruaru, é possível ter acesso a um Memorial do Mestre. Segundo ele, “O barro é uma massa que tem uma potência enorme. As mãos que mexem com ele sabem exatamente o seu valor. Com o memorial quero deixar registrado o que fui, o que sou e o que vou deixar. Mostrar o meu orgulho de ter me feito homem e criado uma família graças ao barro”.
