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Velho Xaveco

Danilo Souto Maior/Secult-PE/Fundarpe

Danilo Souto Maior/Secult-PE/Fundarpe

Considerado o Velho do Pastoril mais antigo de Pernambuco, Antônio Coutinho, conhecido popularmente como Velho Xaveco, recebeu o diploma de Patrimônio Vivo do Estado na Casa da Cultura

Rosto pintado de palhaço, roupas coloridas, gravata borboleta, chapéu e uma grande cobra de madeira. É com esse figurino que Antônio Coutinho transforma-se em Velho Xaveco, o mestre de pastoril profano (ou de ponta-de-rua) mais antigo da cidade do Recife. Nascido em 12 de junho de 1935 , na cidade de Bezerros, famosa pelos tradicionais papangus mascarados, Antônio dedica toda uma vida para que a tradição desse folguedo popular, típico do Nordeste brasileiro, se mantenha viva. O primeiro contato com o pastoril foi o do tipo religioso, em 1945, quando tinha 10 anos de idade. O menino Antônio, recém-chegado com a família para a capital pernambucana, iniciou-se nas tradições da cultura popular, colaborando e organizando apresentações do grupo. Segundo seu relato, “era um pastoril de freiras lá do bairro de Coqueiral, as freiras faziam esse pastoril no natal e eu já me encarregava naquela época de colaborar, organizar, fazer os convites, e as freiras gostavam muito da minha participação. E essa formação do pastoril, quando eu me converti num Velho de Pastoril, eu trouxe toda dinâmica do religioso para o profano. Sigo à risca as cores do vermelho, do azul, a Diana com as duas cores, e as jornadas religiosas”, que iniciam o show até o momento da chegada do Velho com suas brincadeiras.

No mesmo ano em que conheceu a manifestação religiosa, Xaveco também assistiu a uma apresentação do pastoril profano de José Menezes de Morais, conhecido por Velho Barroso, a quem Xaveco refere-se carinhosamente como seu “mestre de imitar”. Daí então, encantou-se de vez pela irreverência das brincadeiras dos pastoris de ponta-de-rua, passando a acompanhá-los mesmo contra a vontade do seu pai.

O pastoril religioso é um folguedo de tradição cristã trazida pelos portugueses na época da colonização do Brasil, repleto de musicalidade e teatralidade. No geral, os participantes são jovens e crianças, oriundos de famílias pobres. Inserido no ciclo natalino de celebrações populares, durante sua apresentação encena-se o nascimento do menino Jesus, já o chamado pastoril profano, surgiu como uma “crítica” ao pastoril religioso. Cômico e debochado, a irreverência transborda nas letras das músicas e no figurino das pastoras que integram o conjunto. A figura do velho de pastoril corresponde ao pastor da versão religiosa da brincadeira. Segundo o próprio Xaveco, é ele quem “canta e apresenta o pastoril profano, sempre com letras de duplo sentido e muita brincadeira. Não temos amarras, tiramos muita onda, mas sempre respeitando.”

A inspiração para o nome artístico de Antônio Coutinho veio de um apelido que recebeu quando era comerciante no estado da Paraíba, conta: “eu tinha uma atividade comercial que vendia produto gráfico e como eu era muito conversador, o povo dizia: lá vem o Chaveco, Chaveco, Chaveco. Esse nome já vem do tempo que eu batalhava no comércio e por conta disso eu fiquei com esse nome, mas que era escrito com “ch”. Quando criou seu grupo pastoril, em 1988, no bairro Chão de Estrelas, no Recife, apenas alterou a grafia do nome pelo qual era popularmente conhecido, e oficializou-se Velho Xaveco: “ficou Xaveco, que na linguagem informal seria um cara conversador, um bom vendedor de produtos e a partir dai eu desenvolvi esse trabalho de velho de pastoril, com muito amor e muito carinho porque faço esse trabalho há mais de 30 anos”.

Em todas as suas performances, Xaveco utiliza uma cobra de madeira, que se assemelha à bengala do pastor do pastoril religioso. É a partir dessa peça que ele desenvolve quase todas as suas brincadeiras ditas maliciosas, recheadas de duplos sentidos e sátiras, provocando risadas, diversão e provocativas interações com o público. Mas, o folgazão traz em suas apresentações muita influência da dinâmica do pastoril religioso, que tanto brincou quando criança. Segue, por exemplo, as cores dos cordões de pastoras, o encarnado e o azul, a figura da Diana e algumas jornadas (canções)que possuem conotação religiosa.

Diante da chegada massiva das redes sociais e tecnologias, Velho Xaveco se vê diante de novos desafios para manter viva e atrativa essa forma de expressão da cultura popular, que, historicamente, firmou-se a partir do contato pessoal e da interação com o público, alimentando a vivência da sociabilidade na rua. Além disso, a linguagem “apimentada” da qual o pastoril profano se utiliza, com ousadia e irreverência, voltada para adultos, é, nos dias atuais, muito mais acessível e difundida, inclusive os mais jovens, a partir de outros tipos de linguagens, músicas e danças. Mas como um mestre, luta para que a tradição da brincadeira continue de pé. Exemplo disso é como vem repassando seus ensinamentos para aprendizes, como o Velho Lumbrigueta, e o Velho Cafuné, dos quais tem muito orgulho. Soma-se a isso o fato de que, agora como Patrimônio Vivo de Pernambuco, possui mais recursos para praticar e dinamizar o chamado pastoril profano.

O pastoril profano do Velho Xaveco já rodou pelos festejos de Natal de vários municípios pernambucanos, e outros estados do Brasil, arrancando risos, assobios, aplausos, e gritos da plateia. Em 2006, foi homenageado no Natal da Prefeitura do Recife, junto ao Velho Dengoso. Tem gravados CDs, LPs e vinis. Algumas de suas canções podem ser encontradas on line, como na plataforma digital Youtube. Entre gracejos, loas com duplo sentido, piadas dotadas de “sem vergonhice” e trocadilhos, Velho Xaveco e o pastoril profano se reinventam em meio a tantas mudanças na sociedade. Assim, mantém a tradição com uma pitada de humor e garante que uma das expressivas formas de celebração do ciclo natalino, o pastoril, siga de pé, com suas danças, músicas, teatralidade, e claro, a alegria do público. Nas suas palavras: “além do meu trabalho, há uma esperança que a gente possa continuar com o pastoril profano e alegrar muito tempo ainda as plateias de Recife e por esse Brasil afora e Pernambuco também”.