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As Cantadeiras do Povo Indígena Pankararu

Cidade: Território Indígena Pankararu – Jatobá
Atividade/expressão cultural: celebração religiosa e tradicional do povo indígena Pankararu
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2023

Divulgação

Apesar de toda tentativa histórica e atual de apagamento de memórias sociais, o Brasil é terra indígena. Mesmo diante de uma historiografia hegemônica que insistiu, por muito tempo, na construção de um estereótipo para os povos originários concentrados apenas na Região Norte, a Região Nordeste do país abriga uma boa parte destes povos. Pernambuco, por sua vez, possui a quarta maior população de povos originários do país, segundo o Atlas desenvolvido por pesquisadores e estudantes universitários a partir de dados de IBGE. São dez etnias, presentes sobretudo entre Agreste e Sertão do estado.

A tribo indígena Pankararu, homologada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas – Funai, em 1987, está localizada entre os atuais municípios de Petrolândia, Itaparica e Tacaratu, no sertão pernambucano de Itaparica, próximo ao rio São Francisco. A resistência desses povos garantem sua existência, e a manutenção dos rituais sagrados e culturais contribui, de uma maneira geral, com a afirmação da identidade dos Pankararu, bem como reforça os laços de convivência entre eles.

Uma das manifestações que chama atenção, por meio da perpetuação da cultura oral do grupo, se dá de forma ritualística através de seus cantos. Quem o realiza são mulheres, que durante séculos fizeram e fazem soar as tradições ancestrais. A mestra sacerdotisa, detentora de saberes culturais originários orais é Eurides Monteiro, conhecida em seu povo como Dona Dida. Aos doze anos de idade, recebeu a missão ancestral de ser a guardiã das cantantes, conhecida pela tradição da Boca Velha. Nela, as mulheres são preparadas ritualisticamente, de forma que uma pessoa mais idosa cante com uma mais nova, representando, assim, as relações intergeracionais de transmissão do saber.

Dona Dida é considerada a mestra anciã, acompanhada de Dona Barbinha, Bárbara Maria de Souza. Elas, as Cantadeiras Pankararu, entoam todos os rituais sagrados como as promessas, as chamadas brincadeiras, como as do “Menino do Rancho”, e o Toré. Dona Dida e dona Barbinha participam, juntas, de todos os rituais coletivos. Para isso, precisam da bênçãos da mãe natureza, considerada como forma de proteção e força.

Mestra Bárbara conta que: “eu venho da tradição desde o tempo que nasci, me criei… nasci e me criei na minha tradição e dela ainda hoje eu estou”. Quando criança, já brincava o ritual do cansanção, um dos rituais que compõem a Corrida do Imbu , juntamente com a Noite dos Passos, Imbuzada e Saída do Mestre Guia. Já com mais idade, a Cantadeira passou a cantar os passos, acompanhada por Eurides, Dona Dida. Todos esses ensinamentos foram passados pela tia, Bia Pankararu. Dona Bárbara agradece à sua boa memória e boa consciência por poder trabalhar na tradição na qual hoje exerce papel de grande guardiã.

As Cantadeiras carregam, na beleza de seus cantos e na força da oralidade, a responsabilidade de resguardar as ancestralidades e tradições do Povo Pankararu, mantendo vivos os rituais dos tunampiá (folguedos), pedindo a proteção e a confiança dos ancestrais e encantados para que a celebração aconteça sem intercorrências. A união entre as duas é alicerce fundamental para a existência da comunidade. Como dito por Dona Bárbara, “Nós estamos trabalhando junto até o dia que Deus permitir. Se levar uma, fica a outra [...] Que não vamos dizer que é só pra nós, mas nós não podemos deixar nossa tradição cair e nós temos que seguir, até o dia que Deus quiser”.

O ritual das Cantadeiras, carregado de segredos, é fechado, acessado apenas pelos indígenas Pankararu. Com o registro de Patrimônio Vivo, a proteção desses conhecimentos, advindos de duas mulheres dotadas de sabedoria, que envolvem práticas sociais, culturais e ambientais de todo um povo, é um instrumento que virá também a reforçar a política de proteção e salvaguarda diante da diversidade de manifestações culturais presentes no estado, dentre as quais, as indígenas. Ainda segundo Dona Bárbara, “Nós tem que continuar e segurar nossa tradição, isso é uma herança. Se não tiver [a Noite dos] Passos, não tem Corrida [do Imbu] , e a Corrida é o Centro de Pankararu”.