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Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo

Cidade: Goiana
Atividade/expressão cultural: artes cênicas
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2022

Divulgação

Panelas, água fervente, paus e pimenta. Com esses elementos e muita garra, um grupo de mulheres protagonizou e venceu aquele que veio a ser o primeiro registro histórico de participação feminina em um conflito armado de resistência à ocupação estrangeira de povos e nações não-portugueses no Brasil. Os derrotados foram os invasores soldados holandeses em 1646. O local, Fazenda Megaó, em Tejucupapo, no município de Goiana, Zona da Mata de Pernambuco. O comando foi liderado por quatro mulheres guerreiras: Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Maria Joaquina. Como forma de relembrar esse importante ato de resistência e coragem, em 1993 foi fundado o Teatro das Heroínas de Tejucupapo, em que reencenam a emblemática batalha é reencenada anualmente, no último domingo de abril, no segundo maior teatro ao ar livre de Pernambuco, no mesmo local em que ocorreu o histórico confronto.

O roteiro da encenação segue fielmente aos registros históricos. Primeiramente mostram o modo de vida daquela população local de Tejucupapo à época, e o momento em que os aproximados 600 holandeses, famintos e sem muitas perspectivas de voltar ao seu país, saem do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, em direção à comunidade. Estrategicamente, os invasores escolheram o dia de domingo, dia em que muitos moradores de Tejucupapo iam ao Recife vender suas mercadorias nas feiras. Ao saberem que haveria o ataque, as heroínas, em sua maioria agricultoras de origem indígena, organizaram uma mistura feita de água fervente e pimenta e lançaram-na contra o inimigo. O conflito ficou marcado na história do Brasil, embora não seja suficientemente lembrado e os registros oficiais sejam escassos.

Como forma de manter a história memória viva, a Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo, através da cultura popular, revive a batalha, que é motivo de orgulho para as moradoras e moradores da região. Além disso, por se tratar de um ato de valentia e sabedoria das mulheres, o grupo acaba também por mobilizar também essas pessoas na luta contra retrocessos e preconceitos de gênero. Fundado por Dona Luzia Maria da Silva, enfermeira aposentada, a Associação surgiu de uma promessa: quando estava muito adoentada, Dona Luzia ouviu o relato sobre a história da Batalha, e, ao curar-se, estudou e pesquisou sobre o acontecimento. Logo escreveu o roteiro e fez a primeira apresentação acontecer, mesmo com poucos recursos.

O espetáculo conta com mais de 300 atores, e chega a receber a presença de 10 mil espectadores. O Teatro envolve a participação popular de toda região, onde recruta-se recrutando-se as próprias mulheres do vilarejo, dentre as quais, pescadoras, marisqueiras, aposentadas e donas de casa, para encenar junto ao elenco. Esse movimento de interação faz com que as mulheres se envolvam e se emocionem a cada apresentação, o que reverbera para ambientes além do contexto do espetáculo, como por exemplo, no engajamento no combate à violência contra a mulher.

Mantendo a memória da batalha viva até os dias atuais, e levantando outras bandeiras de batalhas atuais que as mulheres enfrentam na conteporaneidade, em 2022, a Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo foi titulada Patrimônio Vivo de Pernambuco, dada a sua contribuição para a cultura popular não apenas de Goiana, mas de Pernambuco, e do Brasil como um todo. Unindo passado, presente e futuro, e toda uma comunidade, as heroínas de ontem e de hoje seguem vivas e ativas na a fazer história.