Caboclinho Canidé de Goiana
Cidade: Goiana
Atividade/expressão cultural: caboclinho
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2023
Goiana, Mata Norte de Pernambuco, é uma das cidades com maior PIB per capita do estado. Destaca-se, também, por grande diversidade de formas de expressões culturais. Historicamente habitada pelos indígenas das tribos Caeté, Tabajara e Potiguara, uma das manifestações de maior força e expressividade na localidade é o Caboclinho. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil – Iphan, “a manifestação cultural dos grupos de Caboclos, ou Caboclinho, [...] simboliza a memória do encontro cultural e da resistência sobretudo das populações indígenas e também dos povos africanos escravizados, que reverberam profundamente na história do nordeste rural brasileiro”.
Embora, desde a colonização, o projeto de extermínio dos indígenas e de sua cultura tenha ocorrido, a quantidade de Caboclinhos na região mostra uma grande resistência e valorização por parte dos detentores e habitantes, aliados aos incentivos de políticas públicas culturais que ocorreram ao longo dos anos, sobretudo a partir da Constituição de 1988.
O Caboclinho Canidé de Goiana, fundado por Antônio Galdino da Silva, autodidata, em 15 de julho de 1971, e é um dos responsáveis por reverberar e manter a tradição e resistência através da performance artística, da prática religiosa da Jurema (cuja entidade espiritual é o Caboclo) e da cerimônia conhecida como “Caçada do Bode”, atividade religiosa celebrada na madrugada do domingo de Carnaval, como forma de preparação das tribos e dos caboclinhos.
O Canidé de Goiana é de formação mista, ou seja, composto por homens (perós ou caboclos) e mulheres (tapuias ou caboclas), embora tanto a diretoria quanto os membros das agremiações sejam, em sua maioria, feminina. A devoção atualmente se faz à Canidé mulher, que toma à frente do Caboclinho, não a um homem. Essas mudanças ocorreram desde que Mestre Galdino faleceu, em 2007, e a partir de então, a liderança coube a suas filhas Severina e Denise. A força dessas mulheres está presente em cada elemento do grupo.
O desfile se organiza da seguinte maneira: formam-se duas filas, que fazem evoluções (como é chamada a dança dos caboclinhos, ou manobras) que acompanham o som das preacas, num rápido movimento de levantar e abaixar, com rodopios nas pontas do pés. Há também as presenças dos caciques, ou cacicas, do pajé e do porta-estandarte, que apresentam o grupo ao público, durante suas apresentações festivas. A indumentária é feita principalmente a partir do uso de penas de pássaros e aves (pavão, ema, faisão e galo). O brilho da vestimenta fica por conta das lantejoulas, miçangas e pedras. A música, basicamente instrumental, é guiada pela flauta (instrumento fundamental para chamar e receber os Caboclos), acompanhada por gaitas; caracaxá, conhecidos como mineiro; o tarol e o atabaque. Todos esses elementos em conjunto captam a atenção do público onde quer que estejam.
A sede da agremiação, que esteve num primeiro momento localizada no centro de Goiana, situa-se na Nova Goiana, bairro que surgiu a partir dos anos 1980, e onde se concentra a maior parte das tribos de caboclinhos da cidade. Lá estão as sedes do Canidé, do Tapuia Canidé, do Índio Tabajara, do Caboclinhos Carijós e do União Sete Flexas (também Patrimônio Vivo do estado, desde 2021). No local, situado na Rua Vicente Celestino, número 221 que o Canindé consideram a sua segunda casa, ocorrem os ensaios, oficinas de produção de fantasias e adereços do grupo, além de ser um espaço de socialização e apoio para os membros, responsáveis por toda produção do desfile.
O Canidé de Goiana é o segundo mais antigo da cidade ainda em atividade, atrás apenas do Cahetés. Iniciou sua participação nos concursos oficiais de caboclinhos do município em 1986, Em 2019, o Canidé consagrou-se campeão do Concurso de Agremiações do Carnaval do Recife (Grupo de Acesso); em 2020 (Grupo II); e Vice-campeão do Grupo I, em 2023, chegando ao Grupo Especial, onde estão selecionados os de maior destaque.
Além do Carnaval, ciclo festivo do qual faz parte, o Canidé já fez apresentações no Festival de Inverno de Garanhuns – FIG, Festival do Estudante de Triunfo; recebeu voto de aplausos na Assembleia Legislativa de Pernambuco – ALEPE. Também recebeu diversos reconhecimentos públicos e oficiais, a exemplo de premiações de leis de incentivo à cultura e de medalhas, frutos da dedicação do grupo e da ajuda de moradores da comunidade. O maior reconhecimento, no entanto, veio em 2023, com o registro de Patrimônio Vivo do estado, garantindo maior visibilidade e estrutura para o grupo se manter e perpetuar as tradições para as futuras gerações.