Cambinda Velha
Cidade: Pesqueira
Atividade/expressão cultural: cultura popular; maracatu; religiões de matrizes afro-brasileiras
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2022
O renomado historiador, antropólogo e folclorista Câmara Cascudo aponta apontou, em seus estudos, o registro das Cambindas como uma denominação adotada por diversos grupos de maracatus de Pernambuco. Cambinda Velha, Cambinda Nova, Cambinda Estrela, Cambindinha, Cambinda de Água Preta, entre outras. Ainda segundo este autor, a palavra, variante de “Cabinda”, região da África acima da foz do rio Congo, seria um sinônimo brasileiro para se referir aqueles vindos de África. Os grupos dançantes de negros que folgavam pela capital pernambucana, convergindo posteriormente para o carnaval, no ritmo dos desfiles de maracatus e distinguiam-se pelo nome evocador, figurando Cambinda Velha entre os mais populares (embora possua características que se diferenciam bastante dos maracatus).
Cambinda Velha de Pesqueira traz aspectos e manifestações da vida cultural de seu povo, transmitido às gerações presentes e futuras pela tradição enraizada no cotidiano da comunidade, sendo assim, símbolo de resistência e preservação de um patrimônio no estado de Pernambuco. Nos desfiles, seus membros atravessam a cidade cantando e dançando, em apresentações que duram cerca de uma hora e meia. Na ocasião, homens e meninos enfeitados com fitas e trajados com vestidos vermelho e branco, tocam instrumentos musicais de influência afroindígena, como: surdo, caixa, ganzá, e reco-reco e geralmente se apresentam nas festas municipais como Carnaval e São João e outros eventos do município e do estado. O grupo possui também cunho sócio educativo ao exercer uma pedagogia artístico-comunitária de preservação da memória e da identidade de matriz africana e indígena.
O bloco foi fundado em 1909, pelo Sr. Pedro Lopes da Costa, na cidade Pesqueira, Agreste de Pernambuco,. A brincadeira tradicional é parte importante da memória cultural do povo Pesqueirense. Não há um morador da cidade que não conheça pelo menos um trecho dos versos entoados pelos brincantes a cada desfile. Conta-se que, em 1907, chegou em Pesqueira o trem da Rede Ferroviária do Nordeste. Nessa época, Pedro Lopes da Costa comprava gados dos fazendeiros dessa região e vendia os animais na capital pernambucana. A carga chegava em caminhões, mas com a chegada da linha férrea, os trens de carga esse trânsito para o Recife ficou mais fácil. Numa dessas viagens para o Recife, Pedro Lopes foi até o Cais do Porto e deparou-se com dois navio,em um dos quais saia um grupo de negros africanos, que desembarcavam as cargas trazidas nas embarcações. Findado o trabalho, aqueles homens puseram-se a cantar e dançar. O fato de que todos homens usavam roupas brancas e femininas, chamou-lhe bastante a atenção. Pedro acompanhou o grupo até a Rua Imperial, no bairro de São José, e voltou para sua cidade natal, Pesqueira, encantado com o que havia visto decidiu reunir amigos e familiares e recriar a brincadeira que conheceu na capital. Comprou o material para os trajes dos brincantes no centro do Recife.
O primeiro desfile, que aconteceu em 1909, contou com a participação de homens e mulheres. Foram 19 baianas, incluindo o próprio Pedro. Os trajes possuíam muitas fitas e diz-se que a renda era de renascença, tradição secular em Pesqueira. Em 1964, Pedro Lopes adoeceu e, por dois anos, seu genro, Manoel Bolachão, assumiu o grupo. Em 1966, o fundador do bloco faleceu, e a direção foi assumida por seu genro, Aprígio Amaral – barbeiro muito popular na cidade. Nos últimos carnavais da sua vida, Aprígio Amaral, por impossibilidade física, fazia o percurso do desfile em carro juntamente com seu filho José Amaral. Em 2001, o velho dirigente faleceu durante os festejos de Momo, logo após chegar com o grupo à Praça da Matriz, descer do carro e acenar para o povo. Rosânio Lopes, um dos bisnetos, dirige o folguedo desde então, mantendo a tradição da família, bem como a memória e a conservação desse brinquedo tão peculiar.
