Cavalo Marinho Boi Pintado
Cidade: Aliança
Atividade/expressão cultural: cavalo marinho
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2022
Em 1993, na comunidade de Chã do Esconso, no município de Aliança, Mata Norte de Pernambuco, José Grimário da Silva, o Mestre Grimário, era agraciado com uma herança de Mestre Salustiano, um dos maiores mestres em cultura popular local e do Brasil. Um boi, um cavalo, uma ema e uma onça, alguns dos personagens que compõem a manifestação popular do Cavalo Marinho, chegaram às mãos de Grimário, à época um dos mais novos Mestres da região, embora sua trajetória nas tradições culturais da Zona da Mata Norte de Pernambuco já fosse de mais de 20 anos (ele iniciou-se como brincante aos oito anos de idade, e foi criado pelo Mestre Batista, à frente do Cavalo Marinho que leva seu nome, e do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, grupo reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco). A herança rendeu frutos: Mestre Grimário criou seu próprio brinquedo de Cavalo Marinho, o qual nomeou Boi Pintado. O nome por si só já significou uma inovação na tradição da brincadeira, já que era comum batizá-la pelo nome de seu mestre. Grimário trouxe outros elementos inovadores através do Boi Pintado: padronizou a roupa dos músicos, adicionou a viola aos instrumentos e trouxe uma desacelaração na fala dos personagens, para que a dramaturgia oral do brinquedo pudesse ser ouvida claramente por seus expectadores.
Registrado como Patrimônio Cultural do Brasil em 2014, o Cavalo Marinho, brincadeira popular bastante encontrada na Zona da Mata pernambucana, que envolve performances musicais, coreográficas e dramáticas, é realizado sobretudo no ciclo natalino, assim como outras manifestações populares pernambucanas, como o bumba meu boi, o pastoril, e o reisado. Foi justamente neste período que Mestre Grimário iniciou as atividades do Boi Pintado e logo foi conquistando notoriedade, ganhando espaço e reconhecimento no meio cultural. Desde sua fundação, o grupo vem realizando diversas atividades e apresentações em vários festivais e festejos de grande relevância em várias localidades e estados brasileiros, bem como fora do país, em países como Cuba e Venezuela.
No Boi Pintado, as loas e toadas (músicas e versos tradicionais dessa manifestação) saúdam aos santos reis do Oriente, entre versos de duplo sentido, as conhecidas puías, que provocam risos e animam os espectadores. As indumentárias são coloridas e brilhosas. O ritmo acelerado é executado pelo banco, ou seja, o grupo de músicos que cantam e tocam instrumentos como a rabeca, as bajes, o pandeiro e mineiro. A apresentação é finalizada com o coco que traz a figura do boi, e representa a ressurreição de Jesus. Muitas das máscaras são confeccionadas pelo próprio Mestre Grimário, o que reforça sua capacidade como um artista múltiplo e criativo.
A transmissão de saberes para as novas gerações é uma das grandes dedicações de Mestre Grimário. O Boi Pintado já submeteu e ganhou diversos editais públicos de cultura que têm como foco a transmissão da tradição do Cavalo Marinho, formando crianças e jovens brincantes através de oficinas, aulas e da literatura infantil, movimento fundamental para manter a cultura viva e ativa, estimulando-lhes a criatividade, o brincar e o lúdico. Importante lembrar que isso só possível devido ao diálogo dessas manifestações com as instituições governamentais que produzem políticas públicas culturais, como o Edital do Fundo Estadual de Cultura, o Funcultura, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura (Secult-PE) e pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Um exemplo foi a aprovação da Escola das Tradições do Cavalo Marinho e o Museu das Tradições do Cavalo Marinho, ambas iniciativas do Boi Pintado, sediadas em Aliança. Diversas são as iniciativas do Boi Pintado, que tanto acrescenta à cultura popular do estado do Brasil. Inovando mas também mantendo tradições, em 2022 o Cavalo Marinho de Mestre Grimário foi reconhecido Patrimônio Vivo de Pernambuco, assegurando que, onde há brincadeira, há brincantes.
