Ilê Axé Oxalá Talabi
Cidade: Paulista
Atividade/expressão cultural: sociedade religiosa de matriz africana e afroindígena
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2023
As comunidades de terreiro são espaços fundamentais para a salvaguarda do patrimônio imaterial afroindígena brasileiro. A Associação Beneficente, Cultural e Religiosa Ilê Axé Oxalá Talabi, conhecida popularmente como Ilê Axé Oxalá Talabi (Ilé Àse Òrìsànlá Tàlábí) ou Axé Talabi, é uma comunidade tradicional de terreiro localizada no bairro de Paratibe, Paulista, Região Metropolitana do Recife, em atividade há mais de trinta anos. O grupo, cujo nome remete à Casa de Força do Grande Orixá que nasce do Alá, dedica-se à preservação do culto aos Orixás, baseado nas práticas tradicionais da cultura Yorubá/Nagô, e do culto à Jurema Sagrada do Rei Salomão.
Foi Maria da Solidade Sousa França – Mãe Dada de Oxalá (Tàlábí Deiyin – “aquela que nasceu do branco chegou para louvar”) – e seu companheiro, Aguinaldo Barbosa de França – Painho de Xangô (Obá Dodê) -, que fundaram o Terreiro, localizado, desde seu surgimento, na rua Orobó nº257, em Arthur Lundgren I, na cidade de Paulista. As primeiras atividades rituais públicas do Terreiro foram realizadas em janeiro de 1991. Desde então, a partir dos ensinamentos de Mãe Dada, dos rituais que envolvem música, dança e tradição, e da oralidade, o Terreiro tornou-se um verdadeiro espaço de sabedoria viva, que garante que passado, presente e futuro estejam conectados. Como dito por Mãe Lú de Iyemojá, atual Iyalorixá do Terreiro, “se não tiver uma mãe mais velha que tenha o entendimento de passar essa oralidade, de fato a nossa cultura não tem continuidade”.
O Ilê Axé Oxalá Talabi foi, e é, contemplado por muitos reconhecimentos, sobretudo por parte do poder público. No ano de 2008, Mãe Dada de Oxalá recebeu o título de Mestra da Tradição Oral, do Ministério da Cultura, através da Ação Griô Nacional . Em 2015, o Programa “Tradição, Cultura e Saúde”, idealizado por Aguinaldo Júnior em 2006, foi premiado pelo Iphan por meio do Prêmio Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. O Programa reuniu diversas atividades, como: oficinas de multiplicação dos saberes das ervas, oficinas de culinária afro-brasileira, a abertura do espaço do Terreiro para vacinações em campanhas nacionais e para cadastramento em programas sociais, entre outros. Em maio de 2013, Mãe Dada faleceu, mas seus familiares, que se encontram na terceira geração, mantiveram as tradições socioculturais e religiosas através da realização de vários projetos sociais implementados na comunidade.
Em 2022, ao completar 31 anos, houve a cerimônia de tombamento do Terreiro Ilê Axé Orixalá Talabí, declarado oficialmente desde então, como Patrimônio Histórico e Cultural de Origem Africana e Afro-indígena Brasileira do Município de Paulista (Lei nº 5.044/2021). No mesmo ano, o Talabi promoveu o Seminário “Onje Omi: Comidas de Águas”, atividade que contou com incentivo do Governo de Pernambuco, por meio dos recursos do Funcultura. Tem o propósito de fortalecer a ancestralidade das mulheres negras e de terreiros, a partir da transmissão e preservação dos saberes, fazeres e memórias, ligados à gastronomia tradicional dos Orixás. Em 2023, inclusive, Mãe Lu e Iyabassé Rosemary (responsável pelo preparo dos alimentos sagrados no Candomblé) participaram, como debatedoras, do evento promovido pela Secult / Fundarpe, na 2ª Jornada do Patrimônio Alimentar. Em 2023, o registro de Patrimônio Vivo do estado vem somar-se aos títulos e ações de reconhecimentos públicos e oficiais conquistados no campo do patrimônio cultural e da memória social; reconhecendo, também, as ações coletivas do Talabi como ferramenta de combate ao racismo , à intolerância religiosa e tantas outras violências que recaem sobre eles.
A troca de saberes entre as gerações mantém fértil e fecundo o Terreiro do Ilê Axé Oxalá Talabi, que tem como um dos principais objetivos e motivações, o repasse do aprendizado para os mais jovens, através da oralidade, e das vivências do povo de Candomblé. Tal prática, aliada ao registro de Patrimônio Vivo, contribui enormemente para a preservação do patrimônio imaterial pernambucano e afroindígena, e, portanto, para a luta em prol da dignidade, do respeito social e de todas as culturas.
