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Cultura.PE

Samba de Véio da Ilha do Massangano

Cidade: Petrolina
Atividade/expressão cultural: coco de roda
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2022

Divulgação

“É daqui mesmo, não vem de lugar nenhum, não”, disse Amélia Oliveira da Silva, a Dona Amélia, sobre a originalidade da manifestação cultural Samba de Véio, da Ilha do Massangano, localizado na zona rural da cidade de Petrolina, no Sertão do São Francisco. De tradição oral e de influência indígena, africana e portuguesa, o Samba de Véio possui algumas semelhanças com o Reisado, o samba de roda da Bahia, e com a dança do coco de Pernambuco, mas suas especificidades fazem dele um brinquedo único. O grupo, atualmente formado por homens e mulheres em sua maioria agricultores e pescadores, negros descendentes de gerações vindas de quilombos e aldeias das margens do rio São Francisco, nascidos, criados e residentes da Ilha do Massangano, teve origem há mais de 100 anos. O pai de Dona Amélia, Manoel de Oliveira, foi um dos precursores do folguedo. Como barqueiro, se empenhava em transportar mercadorias nas cidades ribeirinhas da região, até que um dia, ao aportar na Ilha do Massangano, resolveu fazer do lugar sua morada. Do novo lar veio também a inovadora brincadeira que se tornou-se símbolo da comunidade.

Desde então, o Samba de Véio marca as festividades do Dia de Reis, que ocorrem no mês de janeiro. Sempre à noite, os brincantes vão de casa em casa realizando o ritual que marca a entrada no ano que se inicia. Primeiramente, antes do samba começar, acende-se uma fogueira para aquecer os tamboretes feitos com couro de bode ou de boi. O batuque, formado por timbal, triângulo, pandeiro, atabaque, ganzá e caracaxá (chocalho de origem indígena) e cavaquinho, é acompanhado das palmas, danças e canções do grupo, que formam uma harmoniosa roda. Quem ousar ir para o meio do círculo, dança uma espécie de sapateado e convida outras pessoas para unirem-se ao centro. Os momentos que mais chamam a atenção são as chamadas “imbigadas”, com referência ao momento em que o par dos casais dançantes se e de dançantes lançam as respectivas barrigas uma contra a outra dos casais dançantes se encostam; e a dança trupé, que significa as passadas dos pés descalços na areia, seguindo o toque dos instrumentos; e quando uma das mulheres do grupo dança equilibrando uma garrafa de vidro na cabeça. Quanto à vestimenta, o colorido toma conta das saias rodadas e lenços usados pelas mulheres e das calças e camisetas abotoadas camisas de botão dos homens.

O nome, “Samba de Véio”, é dos anos 2000. Como forma de dar um nome próprio ao folguedo, acrescentou-se o “Véio”, em referência ao fato que antigamente as crianças não podiam acompanhar, mas muitos avôs e pais repassavam aos mais novos. Até os dias atuais, essa é uma grande preocupação dos que mantém o folguedo vivo, que em sua maioria são pessoas idosas: inserir a presença dos novos, garantindo a renovação e a preservação do grupo. Em 2002, foi criado o grupo Samba de Véio “Mirim”, composto por crianças e jovens de 4 a 14 anos que têm acesso a atividades e oficinas socioculturais. O ensaista, dramaturgo e professor Ariano Suassuna, ao conhecer o grupo em 2004, passou a defender, promover e apoiar o Samba de Véio, tornando-se o padrinho do mesmo. Dessa maneira, o grupo ganhou uma maior visibilidade, principalmente na mídia, chegando a gravar seu primeiro CD, em 2005, através do SESC e com apoio de Ariano Suassuna que prefaciou o encarte do álbum. Outra forma de dar vida à manifestação é através de apresentações do grupo em outras cidades de Pernambuco e do Nordeste ao longo do ano.

O Samba de Véio acumula reconhecimentos também na área acadêmica, na qual já foram produzidas diversas teses, dissertações e artigos sobre o grupo e sobre a Ilha. Além disso, já recebeu diversos prêmios, medalhas, protagonizou documentários e participou de gravações de discos. Em 2022, veio a grande titulação que o reconheceu como Patrimônio Vivo de Pernambuco, contribuindo para que a fogueira, que inicia o ritual da manifestação, se mantenha acesa por muito tempo e para futuras gerações.