Tata Raminho de Oxossi – Severino Martiniano da Silva
Cidade: Olinda
Atividade/expressão cultural: religiões de matrizes afro-brasileiras
Ano de registro de Patrimônio Vivo: 2022
Nascido na cidade do Recife em 1936, Severino Martiniano da Silva, o Raminho de Oxossi, é Mestre Griô das tradições Jêge Nagô em Pernambuco. Residente em Olinda, é mestre das tradições culturais de matriz africana em Pernambuco, herdeiro continuador das tradições trazidas pelas Tias do Terço (Sinhá Yáyá Tia Bernardina), nigerianas, que junto com a Ialorixá e carnavalesca Badia, organizaram a comunidade negra do Pátio do Terço, no bairro de São José. O local, marco da memória e da cultura negra do Recife, é onde Raminho celebra a tradicional Noite dos Tambores Silenciosos. O evento acontece sempre nas segundas feiras de Carnaval, marcado pelo encontro de batuqueiros de vários grupos de Maracatu Nação (este que é Patrimônio Imaterial reconhecido pelo Iphan) que se reúnem para, com o rufar dos tambores, celebrar os ancestrais, pedir a bênção aos orixás, e, à meia noite, no apagar das luzes, os tambores silenciam. A reverência dos “tambores silenciosos” é um dos marcos do carnaval do Recife, no qual o público, admirado, chega a disputar por espaço nos arredores do Pátio do Terço para acompanhar a cerimônia, uma das mais importantes conduzidas por Raminho de Oxossi.
O Babalorixá também é responsável pela fundação da Roça Oxossi Ibualama e Oxum Opará, localizadas em Olinda. A Roça é um dos terreiros de candomblé mais antigos de Pernambuco, onde estão salvaguardados os objetos sagrados e a memória da comunidade de africanos que frequentavam o Pátio do Terço, sendo sede e nascedouro de grupos culturais e comunidades tradicionais. Tata Raminho de Oxóssi representa uma das maiores lideranças afro-pernambucanas vivas, e um dos mais antigos Babalorixás do estado. Carnavalesco, Raminho mantém forte relação com as festas negras e populares, tendo sido responsável pela formação e orientação de diversos grupos e casas tradicionais.
Assim como som dos tambores, o mestre Raminho demonstra sua potência. Fundou o primeiro afoxé de Pernambuco, o Afoxé Ilê de África. Tal iniciativa significou, sobretudo, uma forma de resistência política e cultural, já que a fundação ocorreu em 1970, época em que o Brasil encontrava-se em plena Ditadura Militar. Os integrantes do Ilê de África ocuparam as ruas para combater o racismo e a intolerância religiosa, pois era comum que os terreiros fossem invadidos por oficiais da lei em noites de toque, e os elementos sagrados serem apreendidos, impedindo assim a continuidade das celebrações nas casas, além do ato de repressão representar violências simbólicas e práticas por parte das autoridades da época.
Às simbólicas e importantes realizações de Raminho somam-se à fundação do Afoxé Ara Odé, grupo originário de Olinda do qual que é presidente de honra do tradicional, e a criação e coordenação da festa das Águas de Oxalá, cerimônia na qual, desde 1982, ocorre a famosa lavagem das ladeiras do Sítio Histórico e da escadaria da Igreja do Bonfim, em Olinda. Em seguida, o cortejo segue arrastando a multidão pelo arruado da cidade patrimônio.É um momento ritual em que a cidade se veste branco, e diversos representantes de terreiros do Recife e região metropolitana marcam presença. Em 2020, Tata Raminho, um dos homenageados da celebração, puxou diversos cânticos durante a benção dos orixás. A celebração, que marca a abertura do ciclo carnavalesco, manifesta um pedido de paz no novo ciclo festivo, purifica e renova o espírito daqueles que participam.
