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PATRIMÔNIO CULTURAL

Clube Indígena Canindé

Cidade: Recife
Atividade/expressão cultural: caboclinho
Ano de registro de patrimônio vivo: 2009

Marcelo Soares/Secult-PE

Monumental, com quase dois metros, a escultura guarda a casa imperturbável e acolhedora. É o Rei Canindé, o encantado que livra de todos os embaraços e semeia o ânimo. É ele quem comanda “a famosa Tribo Canindé do Recife, a campeonísssima do carnaval” e razão de viver de Juracy Simões, a se desmanchar em alegria e lágrimas sempre que convidada a discorrer sobre o grupo de caboclinhos, do qual é presidente e herdeira por tradição de família. Praticamente desde os primórdios pai e tios de Juracy comandaram a agremiação carnavalesca, vinculada ao culto da jurema.

Sabe-se pela história oral que na antiga Rua das Jangadas, no bairro de Afogados, alguém conhecido por Elesbão ou “Libão”, com a ajuda de um amigo, identificado apenas como Eduardo, decidiu criar um grupo de caboclinhos. Ambos eram estivadores. A data de fundação é 5 de março de 1897 e uma característica do grupo, inicialmente denominado “Príncipe do Rio do Rei Canindé”, era a participação exclusiva de curumins ou crianças. Em 1909, quando passa a ser conduzido por Manuel Batista da Silva, ou Manuel Rufino, a agremiação começa a aceitar a presença de adultos (apenas homens), transfere-se para a Bomba do Hemetério, bairro onde está ainda hoje, e a denominação muda para Canindé do Recife.

Em 20 de fevereiro de 1957, sob a direção de José Silva Araújo, o estatuto é registrado com o nome Club Indígena Canindé, embora a brincadeira fosse conhecida por Tribo Canindé do Recife. Poucos anos depois, dois irmãos de Rufino – Miguel e Severino Batista da Silva – tomam a frente do grupo e é Severino quem passa a comandá-lo. Tratado entre os colegas por “Criança” e em família como “Bibiano”, Severino assume a missão de conduzir o brinquedo, sem perder de vista a íntima relação com a jurema sagrada. O símbolo do grupo é um índio com arco e flecha. As cores oficiais são o vermelho e o branco. Desde essa época, década de 1950, registros orais dão conta da participação feminina, o que terminou se transformando num diferencial em favor do sucesso conquistado nas décadas seguintes.

É o que testemunha e comprova a bisneta, neta e filha de juremeiros Juracy Simões da Silva que, pela vida devotada aos cabocolinhos, honra a filiação. Nascida no Recife, em 15 de julho de 1945, o pai era o mestre carpinteiro Bibiano, ou Severino Batista da Silva, e a mãe, Lucila Simões da Silva. Guardiã das tradições religiosas da família e do caboclinho, Juracy vive imersa no grupo desde que nasceu, e coordena, de fato, todas as atividades a partir de 1985, quando o pai, por problemas de saúde, fica impossibilitado de atuar no comando da agremiação. Em 1994, com o falecimento de Bibiano, funcionário da Prefeitura do Recife, a única filha assume oficialmente a presidência, tornando-se a primeira mulher a presidir um caboclinho, alçando, portanto, à condição de destaque na história do carnaval do Recife em decorrência tanto desse pioneirismo, quanto da marcante liderança. A mãe, Lucila, devotada à jurema, enquanto tem saúde segue colaborando na empreitada da filha. Falece em 2006.

Totalmente familiarizada com o cotidiano da Tribo Canindé, Juracy conhece não apenas histórias da formação do grupo, mas, sobretudo, a maneira como se desenvolviam as apresentações. Para cada toque, ela sabe cantar e recitar as linhas, os pontos de caboclo, as loas que vêm sendo excluídas do repertório devido à exiguidade de tempo nas exibições públicas. Relembra, ainda, que, na infância e adolescência, via e ouvia muito mais do que se oferece hoje nas performances da tribo. Executado pelos caboclos homens e por algumas das caboclas, o característico e rápido bater de flechas do grupo – a exemplo da guerra de uma, de duas e de três – declara Juracy que só o Canindé faz. Ao som do terno ou dos caboclos do baque – gaita, tarol e maracaxá, aliados à batida seca das preacas (arco e flecha) dos caboclos – os toques ou gêneros musicais executados são guerra, perré, baião, toré ou macumba, sob os quais se apresentam bandeirista, casal de caciques, os puxantes Jupi e Agaci, dois perós, dois cordões de curumins, dois cordões de caboclos e caboclas, o rei e a rainha. São eles que exibem a beleza das fantasias, a cadência do ritmo frenético da percussão e sopro, a leveza dos corpos ágeis a exibir aeróbico bailado.

Preocupada com a transmissão da memória do Canindé, sobretudo direcionada aos jovens, Juracy tem promovido oficinas de confecção de figurinos, de dança e de música, auxiliada por Dado, ou Ednaldo Manuel dos Santos, um dos brincantes mais antigos e uma espécie de show-man, que ocupa a função do puxante Jupi. Zelosa quanto às características do Canindé, Juracy cuida para que as fantasias tenham bordados primorosos, tenham vistosas plumas e penas de ave, e que as manobras ou danças sejam executadas com vivacidade, exuberância. Os ensaios ou treinos, momentos preciosos de interação e aprendizagem, acontecem sempre defronte da sede, e sempre na noite dos domingos, a partir do mês de julho, estendendo-se à semana pré-carnavalesca. Há, tradicionalmente em todos os eventos e reuniões da agremiação, principalmente nas semanas anteriores ao carnaval, uma mesa de frutas, oferenda aos encantados, das quais se servem os brincantes, ao final.

Certamente esse rito propiciatório abre caminhos. O Canindé esmera-se em todos os quesitos, sempre atraindo olhares admirados. Em 1960, Bibiano levou o grupo a se apresentar em Brasília, durante a inauguração do Sesi. Sem jamais perder a realeza, foi campeão nove vezes consecutivas, de 1996 a 2004, no concurso de agremiações do carnaval do Recife. Em 2003, a TV Viva produziu o documentário Três rainhas e um reinado de Momo, em que são apresentadas mulheres no comando de agremiações, entre elas a carismática Juracy. O primeiro registro fonográfico do secular caboclinho – No traçado do guerreiro – é de 2005, realizado pelo músico e produtor cultural Adriano Araújo. Graças à importância do tradicional caboclinho – inclusive este era um dos grupos carnavalescos já existentes à época de fundação da Federação Carnavalesca de Pernambuco (1935) – a Prefeitura do Recife promoveu a exposição comemorativa Canindé: 110 anos de resistência, realizada entre 13 de abril e 1º de maio de 2007, na Casa do Carnaval, Pátio de São Pedro.

Concorrendo a edital público do Ministério da Cultura, Canindé conquista, no ano seguinte, o Prêmio Culturas Populares 2008 – Mestre Humberto de Maracanã. Em 2009, sai o Batuque Book Cabocolinho, de Climério Santos e Tarcísio Resende, com textos, fotos, partituras, mais a gravação de sete faixas de áudio e faixa multimídia dedicadas ao Canindé. Sem perder de vista a cidade tão linda e os caminhos distantes de um reino encantado, em fevereiro de 2010 o caboclinho foi homenageado na abertura do carnaval do Recife, juntamente ao centenário maracatu Estrela Brilhante de Igarassu. Com a firmeza própria ao temperamento de Juracy, sete caboclos flechando e a devida proteção do rei, as demandas vão se desmanchando e a tribo resplandece. Salve o Rei Canindé na Jurema, mestre que garante essa Nação. Quem for Canindé, sustente o penacho: este é um rio que não deixará de correr, o rio do Rei Canindé.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE

Confira abaixo um vídeo sobre a agremiação produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, para a série especial ‘Pernambuco Vivo’.