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PATRIMÔNIO CULTURAL

Confraria do Rosário

Cidade: Floresta
Atividade/expressão cultural: congo/rosário
Ano de registro de patrimônio vivo: 2007

Foto: Val Lima

Ao som de caixa, zabumba e pífanos, o último dia do ano em Floresta é solenemente comemorado: a secular irmandade denominada Confraria do Rosário reservou, no calendário religioso, o 31 de dezembro para festejar Nossa Senhora do Rosário, a patrona dos confrades. Paralelamente, a cidade comemora a festa do padroeiro, o Bom Jesus dos Aflitos. Assim, no início da manhã, os fogos logo denunciam: é chegado o dia do desfile e coroação dos reis, que, em azul e branco, se apresentam ornados com manto, cetro e coroa. Acompanhados de vistoso cortejo, com estandarte, guarda de honra armada de espada e séquito de juízes, todos trajados de branco, os componentes da confraria cantam louvando à Senhora do Rosário – Virgem do Rosário, sois uma alta rosa / Que entre as mais flores sois a mais formosa – ou com antigas loas, como a registrada, em 1957, por Álvaro Ferraz, no livro Floresta: Memórias duma cidade sertaneja no seu cinqüentenário: Oi Quenda, oi Quenda, / Oi Quenda, Maravi’a! / Hoje é dia do Rosário / Do Rosário de Maria. Pequenos agricultores e criadores das Fazendas Paus Pretos e Boqueirão, empregados de um curtume e funcionários públicos compõem o grupo, formado por habitantes da zona rural e também da sede do município.

A comunidade é, sobretudo, formada por quilombolas e, por isso mesmo, é símbolo de resistência negra. Nesse contexto socioeconômico e cultural floresceu a irmandade religiosa, que, conforme registros datados de 1792 e depoimento de João Luiz da Silva, rei perpétuo desde 2007 e representante legal da instituição, há mais de duzentos anos a confraria existe na cidade de Floresta dos Navios, sertão de Itaparica. Composta por trinta e seis membros, sobretudo antigos guardiões da tradição, a cada ano o ritual se repete sempre no mesmo dia, com a missa matinal e mesa farta à base da culinária regional para todos os que estiverem na festa, e entra pela tarde, quando são coroados os novos reis para o ano seguinte, conforme escolha das juízas (às vezes a decisão decorre da necessidade de pagamento de promessa). À noite, a irmandade prestigia a missa do padroeiro e sempre faz questão de que o dia dedicado aos negros seja o melhor do novenário.

A Igreja do Rosário é o ambiente onde se desenrola parte da festa. Construída em 1777, pelo capitão José Pereira Maciel, em homenagem ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos, na localidade denominada Fazenda Grande, de onde se originou a cidade de Floresta, sabe-se que somente em 1792 é que a igreja foi inaugurada, e, segundo tradição oral, desde essa data a confraria existe, embora somente a partir de 1897 o templo passe a ser dedicado a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos quando o padroeiro da cidade, o Bom Jesus dos Aflitos, ganhou novo templo defronte. Tais irmandades, a exemplo da Confraria do Rosário, incluem-se, conforme defende o pesquisador Veríssimo de Melo, entre as “várias formas de reações contra-aculturativas dos negros no Brasil”. A existência de irmandades religiosas de homens pretos e suas respectivas cerimônias estão sempre intimamente associadas às festividades de coroação de reis e rainhas e é uma recorrência em folguedos e danças brasileiros, a exemplo de reisados, congadas, maracatus, cambindas, pretinhas do congo.

A 500 metros das duas igrejas, está a sede da Confraria do Rosário, de onde sai a rainha para, com o rei, seguirem à igreja. São precedidos por oito espadachins e acompanhados de onze juízes. Há cinco juízas principais, estas são as mais antigas integrantes do grupo, a quem todos devem obediência, inclusive rei e rainha. Entre elas, uma é juíza do rei, outra é da rainha. Há, ainda, dois juízes do andor, dois para as espadas e duas juízas são do altar. O cortejo, segundo antigos relatos, era composto por quatro espadachins, sendo dois velhos e dois jovens. Conforme dá conta João Luiz, Manuel Preto foi um grande espadachim, que ocupou a função desde criança e por mais de 70 anos. Entretanto, antes de morrer, passou o cargo para Manuel Caetano, ou Jubileu, que tem 33 anos. Hoje os espadachins são todos jovens, menos Seu João, que tem 80 anos. Cabe aos espadachins a proteção do cortejo real, cruzando as espadas a fim de que rei e rainha possam passar por todas as portas que estiverem no caminho até à igreja. Eles também realizam movimentos que se assemelham a um imaginário combate ou luta de espadas. Na procissão, São Benedito abre o cortejo dos santos, acompanhado da imagem histórica de Nossa Senhora do Rosário e da do Bom Jesus dos Aflitos. Uma banda de pífanos, composta por quatro músicos – dois pífanos, uma caixa e uma zabumba –, vai executando músicas religiosas. Apenas na volta da missa, alterna repertório variado com a banda de música da cidade, tocando inclusive frevo, forró, maracatu. João Grande, que foi rei perpétuo durante cerca de duas décadas, certamente estaria satisfeito vendo perpetuar-se a festa dos ancestrais.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE

Confira abaixo o vídeo ‘Salve a Virgem Maria dos Negros’, produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, que documenta um pouco sobre a Confraria do Rosário, na série ‘Pernambuco Vivo’.