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PATRIMÔNIO CULTURAL

Homem da Meia-Noite

Cidade: Olinda
Atividade/expressão cultural: agremiação carnavalesca/clube de frevo
Ano de registro de patrimônio vivo: 2006

Beto Figueirôa/Secult-PE

De fraque, cartola, gravata borboleta, dente de ouro lá vem o Homem da Meia Noite, vem pela rua a passear, enfeitiçando os céus olindenses e arrancando suspiros de amor. Claro, é o mais afamado galante, o grande Don Juan do carnaval de Olinda e não é, de maneira alguma, simplesmente um boneco, é calunga, com todos os atributos e segredos que esta palavra suscita. A figura do sorridente cavalheiro, envolta em mistérios e rituais próprios, é associada ao candomblé, pois foi no dia 2 de fevereiro de 1932, data dedicada a Iemanjá, que o calunga de madeira desfilou pela primeira vez na tradicional folia. O Homem da Meia-Noite, com cerca de quatro metros de altura, é o mais antigo boneco gigante de Olinda. Nascido na categoria “troça” em 1932, passa a clube de alegoria e crítica a partir de 1936. É de muitos anos, portanto, que o galanteador vem arrancando suspiros de moças e senhoras postadas à janela para ver o amado passar: ele próprio em figura de gentleman anima as ladeiras do sítio histórico desde a madrugadora invenção na longínqua década de 1930.

As ruas estreitas, sobretudo a do Amparo, e o Largo do Bonsucesso testemunham a alegria e irreverência dos foliões que gastam pelos menos quatro horas para acompanhar um dos desfiles mais cobiçados da folia olindense. O percurso é praticamente o mesmo desde o princípio, e o boneco vai desfilando trajado de verde e branco, com um relógio na lapela e a chave da cidade nas mãos. A saída acontece pontualmente à meia-noite do sábado, partindo da sede, que fica em frente à igreja do Rosário dos Homens Pretos, no Bonsucesso. O local é marcado pela prática de tradições culturais de negros escravos, desde a construção do templo religioso na segunda metade do século 17, e inclusive foi essa a primeira igreja em Pernambuco a ter irmandade de homens pretos. Nenhuma estranheza, portanto, quanto à ligação do calunga com o candomblé, mesmo que a aura de misticismo se misture à irreverente balbúrdia momesca, em meio a orações e oferendas com cachaça na troca de roupas do calunga, nos preparativos do sábado à tarde.

A existência do grupo carnavalesco se deveu a uma dissidência de integrantes da Troça Carnavalesca Mista Cariri, fundada em 1921 e que àquela época era quem abria o carnaval, saindo às quatro da manhã do domingo. O exímio entalhador Benedito Bernardino da Silva, ou “Benedito Barbaça”, o encadernador Cosmo José dos Santos, o pintor de paredes Luciano Anacleto de Queiroz, acompanhados de Sebastião Bernardino da Silva, Eliodoro Pereira da Silva e do sapateiro Manoel José dos Santos, apelidado “Neco Monstro”, ao se sentirem excluídos da diretoria daquela troça decidiram criar uma nova agremiação que “desse uma rasteira no Cariri”, conforme conta o pesquisador Olimpio Bonald Neto no livro Os gigantes foliões em Pernambuco. O autor refere, aliás, que esse não foi o primeiro gigantone a aparecer no carnaval pernambucano: o mais antigo registro é creditado a Zé Pereira e Vitalina, bonecos nativos da cidade sertaneja Belém do São Francisco, criados respectivamente em 1919 e 1929. Quanto ao surgimento do boneco olindense, pelo menos duas versões explicam a genealogia do fenômeno: uma delas credita ao cinéfilo e fundador Luciano Anacleto de Queiroz a inspiração a partir do filme “O ladrão da meia noite”; a outra atribui a Benedito Bernardino, fundador e autor do hino da agremiação, a construção do calunga a partir de alegado flagrante de certo namorador, alto, elegante e sorridente, que andava principalmente na madrugada do sábado para o domingo, sempre de verde e branco, com chapéu preto e dente de ouro.

A dissidência do Cariri foi tramada em dezembro de 1931. Para dar forma ao boneco que ganharia as ruas à meia noite do sábado de Momo, os fundadores Benedito Barbaça e Luciano de Queiroz tomaram todas as providências de marcenaria e pintura, na modelagem daquele que seria o boneco dos primórdios do grupo. Originalmente o calunga pesava mais de 55 quilos, porque, além da armação em madeira, a cabeça, o busto e as mãos eram feitos em papel gomado; os braços, recheados com palha de colchão; as mãos, areia para dar peso e equilíbrio às evoluções executadas ao som do frevo. Evidente que o boneco passou por um processo de reengenharia, a fim de perder peso e, assim, aliviar a carga do carregador ou “chapeado”. Um dos mais ilustres carregadores foi Alcides Honório dos Santos, Cidinho, que durante mais de quatro décadas deu vida e alma ao boneco. Bastos “Botão”, Henrique Alabamba, Amaro de Biluca, Paulo 19, Pedro Garrido compõem a galeria dos chapeados do Homem da Meia-Noite.

Estes históricos nomes animam, há décadas, a algazarra de foliões inveterados, além dos novatos que são acrescidos às ladeiras estreitas de Olinda, a cada ano. E o mais animador é saber que a alegria repercute durante todos os meses, com o projeto social Gigante Cidadão – ponto de cultura nacional desde 2005 – que oferece, de segunda a sábado, na sede do clube, oficinas de música, dança, teatro, vídeo a cerca de cinqüenta crianças da comunidade. Apreciando de dentro ou de fora do boneco, quem haveria de resistir a esse fogoso e ao mesmo tempo sóbrio cidadão olindense, a esse magnético sorriso de manequim, a essas gigantes pernas de pau dançando na multidão?

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE