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PATRIMÔNIO CULTURAL

J. Borges

Cidade: Bezerros
Atividade/expressão cultural: literatura de cordel e xilogravura
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005

Costa Neto/Secult-PE

Artesão de cestinhas de cipó e brinquedos de madeira, oleiro, pedreiro, carpinteiro, pintor de parede, marceneiro, trabalhador da palha da cana, passador de jogo de bicho. Estes foram alguns dos ofícios que Jota Borges experimentou, antes de se decidir pela venda de folheto nas feiras de Pernambuco, Paraíba, Ceará e, principalmente, na Praça do Mercado de São José, no Recife, o que aconteceu a partir de 1956. Matuto esperto e comunicativo, logo descobriu ser exímio talhador de madeira e criador de histórias em versos. E o tempo de permanência na escola foi de apenas dez meses. Da experiência com as artes manuais, sobretudo marcenaria e miniatura de móveis, desenvolveu habilidades que não seriam de jeito nenhum desperdiçadas mais adiante, conforme atestam as publicações impressas, as gravuras inconfundíveis, as inúmeras capas de livro e disco, exposições, oficinas.

O primeiro folheto é de 1964, com capa do poeta e xilógrafo Dila: O encontro de dois vaqueiros no sertão de Petrolina. A partir de 1965, incentivado pelo amigo cordelista Olegário Fernandes, resolve fazer a capa dos próprios folhetos, e então escreve e faz a capa de O verdadeiro aviso de Frei Damião. Nascido no Sítio Piroca, Bezerros, agreste pernambucano, a 20 de dezembro de 1935, José Francisco Borges nem avaliava o significado dessas decisões profissionais, apenas se deixava levar pela intuição criadora. Em 1976 faz uma das gravuras mais famosas: A chegada da prostituta no céu. A vida do sertanejo, o imaginário nordestino, as fabulações dos contos populares, o cenário rural e as narrativas de cordel declamadas pela boca do pai, tudo foi misturado na cabeça e nas memórias afetivas do artista, e o resultado é a plena vitalidade conferida à famosa e premiada obra, que tem sido traduzida em outras línguas e linguagens artísticas, a exemplo de peça de teatro, telenovela, filme, coleção de roupa.

Se o nome dos pais – Joaquim Francisco Borges e Maria Francisca da Conceição – está inscrito irremediavelmente na vida de J. Borges, também não podem ser desprezados os nomes do artista plástico Ivan Marchetti, do escritor Ariano Suassuna e do pesquisador Roberto Benjamin, que fizeram as primeiras encomendas de gravuras maiores, escreveram sobre o artista e deram-lhe ampla divulgação. Suíça, Estados Unidos, Venezuela, França, Alemanha, Portugal, Cuba foram países para onde viajou, além dos lugares aonde tem ido a obra do artista: Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, México, Argentina. Para Caracas, foi em 1995. Visitou Cuba em 1997, num avião russo dos anos 50, onde permaneceu doze dias, ministrando oficina num festival de cultura caribenha. Na década 70, uma exposição de Borges percorreu vinte países. Em 1964 ilustrou a novela Roque Santeiro, da TV Globo, e fez a primeira viagem de avião.

Daí por diante não mais parou de percorrer o mundo. Há décadas tem viajado quase que ininterruptamente dentro e fora do país. Em 2005 comemorou os 400 anos do D. Quixote, de Miguel de Cervantes, com uma versão em cordel da referida novela de cavalaria. E foi para a França participar da exposição itinerante O universo da literatura de cordel, na condição de principal homenageado. Graças ao talento e à amizade que cultiva há anos com importantes galeristas, artistas plásticos, jornalistas e pesquisadores, Borges tem obras no acervo da Biblioteca Nacional de Washington e no Museu de Arte Popular do Novo México (em Santa Fé, EUA), é divulgado no New York Times, participou da revista suíça Xilon em número especial (1980) dedicado aos xilógrafos nordestinos, ilustrou o livro As palavras andantes do uruguaio Eduardo Galeano (1993), figurou no calendário da ONU de 2002 com a gravura A vida na floresta, tem participado de exposições na Galeria Stahli, Suíça, entre outras notáveis aparições internacionais no circuito artístico mundial.

É importante mencionar, ainda, a atuação da Gráfica J. Borges, em plena atividade, que, durante quatro décadas, utilizou tipos móveis e prensa manual na produção de cordéis e xilogravuras, e vem construindo desde então parte da história da literatura de cordel. Borges à frente, claro, contando com a participação dos filhos J. Miguel, Ivan, Manassés, Cícero, Pádua, Jerônimo (falecido); irmãos, cunhada, sobrinhos, como Amaro Francisco (falecido), Severino Borges, Nena, Joel, Lourenço, Givanildo; dos três mais novos, os filhos Pablo e Baccaro e o neto Williams. O filho George vive de serigrafia e Ariano é gráfico. Ao todo, foram gerados 18 filhos. E um grande projeto de vida e arte, de que é testemunha o Memorial J. Borges, onde o visitante pode apreciar as obras gráficas, plásticas, poéticas do mestre e, ainda, desfrutar de um dedo de prosa com o artista bom de papo.

J. Borges nasceu em 20 de dezembro de 1935, no município de Bezerros, agreste de Pernambuco.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE

Confira abaixo o vídeo ‘A Talho Seco’, produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, que documenta um pouco sobre a vida de J. Borges, na série ‘Pernambuco Vivo’.