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PATRIMÔNIO CULTURAL

Maestro Nunes (in memoriam)

Cidade: Recife
Atividade/expressão cultural: maestro
Ano de registro de patrimônio vivo: 2009

O Largo de Santa Cruz é testemunha: os acordes do arranjador, compositor e maestro atiçam ouvidos e olhos em direção ao sobrado de número 438, no bairro da Boa Vista. É ali onde funciona a Escola de Frevos do Nordeste Maestro Nunes e aonde o artista vai diariamente para compor, dar aulas, receber pessoas. Vem da infância o gosto pela música: aos nove anos tornou-se clarinetista e já sabia orquestrar. Aos doze compunha dobrados, tocava num pastoril religioso. O pai, que era músico, pedreiro e mestre de obras, não tinha tempo nem paciência para ensinar ao filho e ainda queria enviá-lo para o seminário. Mas, a criança, que sonhava ser instrumentista, sempre chorava ao ver passar a banda de música de Angélica, o povoado onde nasceu e viveu a infância. Graças a Sebastião Luís, mestre da banda e amigo da família, o garoto se livrou de ser padre e passou a receber aulas de iniciação musical.

Filho do clarinetista e violonista José Francisco Nunes e de Maria Apolônia Nunes, José Nunes de Souza é da cidade de Vicência, Pernambuco, e a data de nascimento é 22 de junho de 1931. Maestro Nunes faleceu no dia 14 de setembro de 2016.

Em 1950, por problemas políticos relacionados ao pai – que perdeu o cargo de diretor da Banda 1º de Novembro, do distrito de Angélica –, muda-se com toda a família para o Recife, onde decidiu aprimorar as habilidades musicais. Foi aluno do Conservatório Pernambucano de Música (CPM). Estudou música sacra e regência na Faculdade de Filosofia do Recife, em 1960 Cinco anos depois, concluiu o curso de licenciatura em Belas Artes, pela UFPE. Frequentou aulas de canto gregoriano e canto coral, harmonia, regência, teoria e solfejo, contraponto, fuga e orquestração. O principal orientador, conforme depoimento do próprio Maestro Nunes, foi o professor Mário Câncio Justo dos Santos, além do padre Jaime Diniz. No rol dos principais mestres, com quem aprendeu grandes lições, situa Capiba, Nelson Ferreira e Zumba.

Quando fala da formação musical, o maestro ressalta a importância de ter estudado os períodos barroco, clássico e romântico da música ocidental, dos quais os artistas preferidos são Bach e Beethoven. Com formação política de esquerda, filiou-se desde jovem ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), engajando-se no Movimento de Cultura Popular (MCP), o que lhe rendeu perseguição política e afastamento da Banda Municipal do Recife (BMR), no início da década 60. Havia assumido em 1958, por meio de concurso, o cargo de primeiro clarinetista da BMR. Entretanto, continuou na militância apesar da censura e da repressão e as conquistas artísticas fizeram sobressair o talento do compositor que, a partir dos anos 70, foi campeão, consecutivas vezes, na categoria “frevo de rua”, dos concursos Leda de Carvalho, Frevança, Recifrevo. Entre as músicas premiadas estão: Formigueiro, numa homenagem ao maestro Formiga, ou Ademir Araújo; É de perder o sapato, relembrando o fato de um músico ter perdido o sapato enquanto tocava na banda do maestro, durante o desfile da troça carnavalesca mista O cachorro do homem do miúdo; Mosquetão, em alusão a um colega que foi baleado durante a ditadura; É de rasgar a camisa, dedicado à troça Camisa Velha; Bomba-Relógio, em parceria com Mário Orlando, após a explosão de uma bomba, no Recife, durante a ditadura militar. Interessante notar que o próprio maestro faz questão de sempre registrar a gênese de cada criação musical.

Outras composições importantes, independentemente da conquista de prêmios, há décadas têm-lhe rendido fama de “rei do frevo de rua”, sobretudo o clássico Cabelo de Fogo, feito para um amigo, apelidado de Birino, que pintava os cabelos. Coquinho no frevo, Fubica, Folhas que não caem, Santa, Ecos do Carnaval, Balançando a pança, Segurando a peteca, entre tantos outros célebres frevos, corroboram o talento do artista e enriquecem o repertório de diversas agremiações carnavalescas, a exemplo de Cachorro do homem do miúdo, Vassourinhas, Lenhadores, Girassol da Boa Vista, Lavadeiras de Areias, Amantes das Flores, Pás Douradas, Beija-flor em folia, Pão Duro, Seu Malaquias. Compôs e gravou para os tradicionais clubes Camelo e Leão, do carnaval de Vitória de Santo Antão.

Em 1972, na condição de assessor musical da Federação Carnavalesca de Pernambuco, abriu a Escola Musical do Frevo, destinada a crianças de baixa renda e aos filhos dos presidentes das agremiações, e foi a partir desse ano que passou a ser o principal e mais prolífico criador de frevo para os grupos foliões pernambucanos. Em 1984 criou a Banda de Frevos do Nordeste. Foi fundador do Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO) e regente da banda de música 10 de Agosto, da cidade de São Lourenço da Mata. Integrou a banda de música do Liceu de Artes e Ofícios, da Universidade Católica de Pernambuco; a Banda Manoel do Óleo, da União Operária da Macaxeira; a Orquestra Cassino Americano, concorrida boate do Recife, à época. Antes de transferir-se para a capital, Nunes foi músico da Euterpina Juvenil Nazarena, a Capa Bode, de Nazaré da Mata.

Na discografia, os trabalhos mais recentes são os CDs Locomotiva do Frevo 1 e 2, de 2002, em que oferece a remasterização de repertório dos vinis lançados desde 1975. O CD Maestro Nunes: 60 anos de frevo, feito em 2008, apresenta-se também em dois volumes, um com frevo de rua e o outro com frevo-canção e frevo de bloco. Em 2009, sai o CD Homenagem ao criador: Maestro Nunes, o mestre do Cabelo de Fogo, em que todas as músicas gravadas – frevos de rua – são de autoria dele. Possui valioso acervo de mais de duas mil partituras musicais e, exatamente com a proposta de preservar tais preciosidades, conquistou o Prêmio Culturas Populares 2007 – Maestro Duda, 100 anos de frevo, concedido pelo Ministério da Cultura (Minc). Nesse mesmo ano foi o homenageado do carnaval do Recife.

Além da prolífica produção de frevos, o maestro compõe, ainda, diversos outros gêneros: samba, bolero, rumba, forró. Mantém, inclusive, a Banda Junina do Maestro Nunes, que interpreta repertório próprio e dos mestres Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Zé Dantas, Humberto Teixeira. A coordenação da agenda e das produções do maestro compete à compositora e musicista Fátima Lapenda. Em meio ao processo criativo, entre shows, gravações e aulas, o maestro Nunes faz questão de estar sempre engajado em trabalhos comunitários, ministrando oficinas a crianças e jovens de comunidades dos bairros dos Coelhos, Ilha do Leite, entre outros. Professor de maestros celebrados, a exemplo de Spok e Forró, Nunes continua incansável na missão de descobrir e incentivar novos talentos. Vida longa ao centenário frevo, assim seja!

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE