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PATRIMÔNIO CULTURAL

Mestre Salustiano

Cidade: Olinda
Atividade/expressão cultural: mestre de folguedos populares, rabequeiro
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005

Passarinho/Prefeitura de Olinda

Ainda menino, sete anos, brincava cavalo-marinho pelos engenhos de Aliança. Foi arriliquim, dama, galante, cantador de toada, nove anos de Mateus, depois foi ser mestre. O pai era um tocador de rabeca, aprendeu com ele. Os folguedos e brincadeiras eram vistos e experimentados desde criança: maracatu, ciranda, coco, forró, mamulengo, improviso de viola. Estudou até a 4ª série primária. Trabalhou em casa de família, vendeu sorvete, picolé, foi ambulante. Conforme declarações próprias, considerava-se o maior dançador de cavalo-marinho e, nos versos de maracatu, inspirava-se no mestre Antônio Baracho. Manoel Salustiano Soares, ou mestre Salustiano, artista múltiplo e produtor de espetáculos e folguedos tradicionais organizados e mantidos em família, nasceu a 12 de novembro de 1945, em Aliança, e foi lá, na Zona da Mata Norte, que se iniciou no universo cultural de que é um dos mais afamados representantes. O filho de Maria Tertunila da Conceição aprendeu a ler, escrever e sempre teve inteligência suficiente para tirar o máximo proveito dos dotes artísticos.

Começou a morar em Olinda em 1965, mesmo ano em que começou a tocar rabeca profissionalmente, aprendida pelas mãos do pai e professor, João Salustiano, que ensinou o filho a fazer e a usar o instrumento. Passou a ser mais conhecido na década de 70 e em 1977 participa de um comercial de TV. Foi entrevistado em 1989 no programa televisivo Som Brasil e, nessa época, segundo ele mesmo, só conhecia a Mata Norte, nem sequer outras regiões de Pernambuco. Em 1997, integrou comitiva de artistas locais que foi a Cuba. Durante mais de dez anos organizou o festival da rabeca e coordenou a Casa da Rabeca do Brasil. Por quase vinte anos participou, na condição de fundador, da Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. Recebeu o título de reconhecido saber em 1990, concedido pelo Conselho Estadual de Cultura, e o título de doutor honoris causa, na UFPE. Foi agraciado com o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, em 2001, pela Presidência da República. Percorreu todos os estados brasileiros e outros países, como Bolívia, Cuba, França, Estados Unidos.

Com a casa repleta de filhos, o mestre Salustiano sempre manteve a liderança da família e conseguia envolver a todos nos projetos culturais que constantemente articulava no entorno da própria residência, no bairro olindense de Cidade Tabajara, reunindo a comunidade, os vizinhos, turistas e pesquisadores de cultura popular. Inicialmente, era no espaço Ilumiara Zumbi onde as apresentações aconteciam. Depois, as festas foram transferidas para a Casa da Rabeca do Brasil, espaço inaugurado pela família para oficinas, danças, encontros de maracatu rural e de cavalo-marinho, shows de música regional. No natal, vários grupos de cavalo-marinho se reúnem e brincam a noite toda. Tem também pastoril, ciranda, o cavalo-marinho Boi Matuto, fundado pelo mestre em 1968, e o Mamulengo Alegre, outro brinquedo da família, cujos bonecos eram feitos por Salu mesmo. Doublé de artista e artesão, esculpia no mulungu os bichos do bumba-meu-boi, cavalo, boi, burra. Fazia em couro de boi e de bode as máscaras do cavalo-marinho. No domingo de carnaval, chegam no terreiro da família troças, ursos, caboclinhos, boi, burra, além do grande acontecimento da tarde: a trincheira do maracatu rural Piaba de Ouro, que fundou em 1977, e hoje é estruturado com mais de 300 componentes. Na segunda de carnaval, acontece o encontro de todos os maracatus rurais de Pernambuco.

Graças à sensibilidade artística e às invenções de homem inteligente, Salustiano cultivava a memória da infância, povoada de cavalo-marinho, maracatu, mamulengo, pastoril, ciranda, forró de oito baixos, reisado, marujada, fandango, poesia improvisada, ao mesmo tempo em que gerenciava os próprios folguedos e temática casa de espetáculos. Depois de tentar a vida como ambulante e empregado doméstico, foi funcionário da prefeitura de Olinda e professor de arte popular. Por fim, conseguiu certa dignidade financeira com o terreiro enorme para apresentações, serviço de bar, salão para dança e uma loja, onde são comercializados produtos de confecção própria, como rabeca, alfaia, mineiro, bagem de taboca, pandeiro, mamulengo e os discos. Foram quatro CDs gravados, movidos pelas sonoridades de ciranda, maracatu, mamulengo, coco, forró, frevo: O sonho da rabeca, As três gerações, Cavalo-marinho, Mestre Salu e a sua rabeca encantada. Dos quinze filhos, dois fabricam rabeca: Wellington e Cleiton Salu. O bailarino Pedro Salustiano montou o espetáculo Samba no Canavial. O músico, compositor, poeta improvisador e MC Maciel Salu lançou o CD A pisada é assim, entre outras importantes gravações, e é um dos integrantes da Orquestra Contemporânea de Olinda.

Salustiano faleceu no Recife, em 31 de agosto de 2008. Entretanto, confortável é saber que o legado se perpetua nas produções culturais e criações artísticas dos filhos, legítimos herdeiros e continuadores da obra do Mestre Salu.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE