Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

PATRIMÔNIO CULTURAL

Nuca (in memoriam)

 Cidade: Tracunhaém
Atividade/expressão cultural: artesão ceramista
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005

Val Lima

Nuca é apelido de infância: Nuca de Tracunhaém ou Nuca dos Leões. Tracunhaém – topônimo indígena, que quer dizer panela de formiga – é a cidade de adoção do artista, desde os três anos. Leão é o signo de Nuca, ou Manoel Borges da Silva, que nasceu a 5 de agosto de 1937, no engenho Pedra Furada, Nazaré, Mata Norte pernambucana, filho dos agricultores Francisco Costa Mariano e Josefa Borges da Silva. O pai, da roça, criou-se nos engenhos de cana-de-açúcar. Vivendo a infância num ambiente de ceramistas descobre-se um admirador do ofício e, desde os dez anos, um continuador da tradição, modelando em barro elementos do cotidiano. O ano em que foi morar na cidade é o mesmo da estréia de Zé do Carmo na cerâmica. Quando estreou, havia em Tracunhaém o povo de Lídia, fazendo santo. Antônia Leão era referência da geração mais antiga, Maria Amélia já se destacava pela santaria. Zezinho chegou depois, de Vitória. Nilson, de Goiana. Nuca passou a conviver com diversos ceramistas em feiras e salões de arte popular, entre eles, Ana das Carrancas e alguns netos de Vitalino. Foi ao Rio de Janeiro participar de uma exposição e lá conheceu o mestre Vitalino.

Embora desde a década 40 já vendesse esculturinhas de cerâmica nas feiras, principalmente na vizinha Carpina, é sobretudo a partir de 1968, quando esculpe o primeiro leão, que se reconhece artista, consagra-se com o efeito visual da juba leonina e se entrosa com ceramistas renomados. O motivo da consagração veio da idéia de esculpir leões e floristas. A mulher, Maria Gomes da Silva, ou Maria de Nuca, teve a idéia de botar os cabelos cacheados, também no leão. A moda da juba encaracolada se difundiu tanto, que artesãos aderiram à onda, substituindo pena de galinha pelos cachos. Além destes, que consistem nuns rolinhos de barro aplicados um a um, há o leão de lista, o escamado e o de tranças. Finas ou grossas, as escamas também são colocadas individualmente, em leões e girafas. Sobre a escolha da temática dos leões, cogita-se que pode estar vinculada à memória recente da estatuária de louça portuguesa decorativa dos sobrados ou, ainda, à memória ancestral daquele que é considerado o rei dos animais. Entretanto, não podemos deixar de lembrar que o símbolo de Pernambuco é o leão, tampouco menosprezar a força do imaginário de ascendentes negros africanos presente na Zona da Mata, nem esquecer que a antiga denominação de Carpina era Floresta dos Leões.

Se a família de Nuca era de agricultores, e não de louceiros, o mesmo aconteceu com a família de Maria, que também era da roça, não tinha ninguém no barro. Pode-se dizer que a obra de Nuca é quase obra de dois artistas, originalidade a quatro mãos. O leão e as bonecas foram criação dele e da mulher. O talento de ambos para as esculturas cerâmicas desabrochou no convívio com artistas e artesãos de Tracunhaém, terra das figuras em cerâmica e das panelas de barro. Depois de brinquedos, bonecas e anjos, os leões vieram para imortalizá-los. As esculturas são sempre ao natural, nunca pintadas, exceto sob encomenda. O forno, feito por ele próprio, fica no quintal de casa e testemunha o fato de que é indispensável ter ciência para saber construí-lo e usá-lo. E Nuca foi exímio nisso: na hora de queimar, sabia precisar a caldeação, a fim de não rachar a escultura, nem cair o cabelo. Outro importante segredo é o da aplicação dos detalhes: como fazer para não ressecar, enquanto vai modelando e colocando simetricamente um a um.

Após afastar-se do ofício, por problemas de saúde, dois dos seis filhos dão continuidade às artes dos pais, Nuca e Maria: o primogênito Marcos Borges da Silva, ou Marcos de Nuca, faz os leões e José Guilherme Borges da Silva, o filho mais novo, faz as bonecas. Apesar de não terem sido muitas as viagens – Lima, Peru (1980), São Paulo, Rio, Brasília, Bahia –, Nuca dos Leões criou os filhos com a arte saída das próprias mãos, festejou a alegria de viver fazendo sempre o que gosta e também ofereceu todas as condições necessárias ao aprendizado e exercício artístico dos filhos seguidores. A obra do artista pode ser apreciada em antiquários, galerias de arte, e enfeitando praças do Recife, como a do 1º Jardim de Boa Viagem e a Tiradentes, no Cais do Apolo.

Em 27 de fevereiro de 2014, o ceramista morre no Recife e é sepultado, dia seguinte, na cidade onde viveu desde a primeira infância e da qual ganhou parte do nome artístico. As obras variavam entre formatos de 30 centímetros a um metro, entretanto, invariavelmente nas esculturas assinava “Nuca de Tracunhaém”, desenhando um nome de artista que enche de beleza o mundo.

 

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE 

Confira abaixo o vídeo ‘Leões do Norte’, produzido pelo Jornal do Commercio, com incentivo do Governo de Pernambuco, que documenta um pouco sobre a vida do Mestre Nuca, na série ‘Pernambuco Vivo’.