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PATRIMÔNIO CULTURAL

Zé do Carmo

Cidade: Goiana
Atividade/expressão cultural: artesão ceramista
Ano de registro de patrimônio vivo: 2005

Flávio Barbosa/Secult-PE

Passeando pelos labirintos da memória do artista e pelos objetos mais recônditos do atelier de José do Carmo Souza, conhecido internacionalmente pelas estátuas de anjos cangaceiros, descobre-se uma encantadora obra poética, uma narrativa visual do barro massapê, que não se sabe exatamente quando e com quem começa em Goiana, mas registra, com certeza, a importância do legado materno de Joana Izabel de Assunção e dos filhos talentosos. A mãe – oleira, artesã, costureira – fazia figuras de barro e de pano, mané gostoso e rói-rói. O pai, padeiro, fazia máscaras em papel machê para vender aos foliões, o molde era em barro e a modelagem em papel e grude. Manuel de Souza dos Santos e Joana Izabel de Assunção chegam em Goiana no ano de 1930, vindos de Igarassu, onde nasceram. Casados a partir de 1932, é um ano depois, em 19 de dezembro de 1933, que nasce o primogênito, Zé do Carmo.

Conhecido desde 1947 no circuito artístico, autor de respeitável conjunto de esculturas cerâmicas tão originais quanto as da mãe, foi com apenas sete anos, em 1940, que Zé do Carmo começa a fazer figurinhas de barro, pintar com tinta d’água, como faziam os pais artistas, e vender nas feiras de Goiana. Os dois irmãos, João Antônio de Souza e Manuel Miguel de Souza, também aprenderam o ofício dos pais. Das peças mais antigas de Zé, destacam-se figuras de mendigo, agricultor, carregador de açúcar, Preto Velho, anjo cangaceiro, apanhador de papel, apanhador de água, vendedor de couro, jornaleiro, Lampião, Maria Bonita, carregador de água, tocador de bandolim, Padre Cícero, Nossa Senhora Artesã, São Pedro Pescador (o padroeiro de Goiana). No acervo pessoal conta com peças autorais feitas há cerca de 40 e 50 anos. Há uma rendeira, que criou entre 1949 e 1950, quando, segundo confessa, ainda copiava as figuras da mãe. A iniciação, obviamente, foi com ela e o pai, mas o aluno atento, que cursou apenas o ensino fundamental, sempre se valeu da observação e do autodidatismo para aperfeiçoar a técnica e dar vazão às invenções artísticas.

Depois que a mãe morreu, em 1972, Zé do Carmo inaugura uma nova fase criativa, a que chama de “transfiguração humana”, pois transforma anjos em cangaceiros, a despeito da vontade da própria mãe, que não queria que o artista modelasse anjos com as vestimentas do cangaço. Daí por diante, ganham asas, espingarda e ares nada angelicais os beatos de movimentos messiânicos, os cangaceiros Lampião e Maria Bonita, entre outros personagens da cultura regional – o que resultou em polêmicas, sobretudo quando Zé do Carmo ofereceu ao Papa um monumental anjo cangaceiro e o presente foi recusado. Medindo cerca de dois metros, a escultura é mantida no ateliê, além de uma outra, em menor proporção, também rejeitada pela Igreja, e mais um Papai Noel nordestino, de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em 1982, criou o Vovô Natalino, um velho simpático de aspecto messiânico e 1,80 m, que faz Gilberto Freyre escrever artigo no Diario de Pernambuco, de 2 de janeiro de 1983, louvando “bom e bravo repúdio ao Papanoelismo que vem descaracterizando os bons Natais castiçamente brasileiros…”.

Sobre a engenharia das peças gigantescas, o artista explica: constrói um bloco até a cintura e espera secar. Depois que está enxuto, torna oco esse bloco e levanta o restante. Em seguida, modela os detalhes do corpo e do rosto. As peças ficam alicerçadas numa base de barro e pousam sobre um suporte de madeira com rodízios. Para ele, os primeiros trabalhos eram populares demais. Depois disso, acredita que conseguiu modelar figuras de proporções acadêmicas, como o Padre Cícero que mantém no acervo exposto no ateliê. Tem, ainda, um busto de São Pedro jovem, que fez seguindo o padrão de escultura neoclássica: proporção seguida à risca, com detalhes do rosto bem delineados. Durante muitos anos, foi professor de modelagem em barro e de proporção. Escultor também em pedra, prova isso com um busto exposto em meio às peças mais antigas. É inegável que, além da observação do artista, o talento sobressai, garantindo a qualidade e a adesão de discípulos. E não foram poucos os ceramistas que passaram pelo ateliê de Zé do Carmo, na condição de aluno: Irene, Mário Pintor, Severino, George, Tog, Luiz Carlos, Luiz Gonzaga, Précio Lira, Dica, Andréa Klimit e Tiner Cunha. O único filho que possui não é discípulo, mas, segundo o próprio pai, tem talento para a arte. Dedicado desde 1980 à pintura, o tema preferido nas telas é o mesmo das esculturas: anjo cangaceiro.

Fonte: Amorim, Maria Alice (2014),  Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE