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Entrevista: Professor Dr. Horst Nitschack

Convidado para encerrar a programação de conferências do Clisertão 2014, o professor Dr. Horst Nitschack vai dialogar na sexta-feira (9) sobre os discursos científicos e ficcionais nas obras “Os Sertões”, “Grandes Sertões: Veredas” e “A Guerra do Fim do Mundo”. Ao blog do Clisertão, o professor da Universidade do Chile e importante pesquisador da cultura e da literatura brasileiras, antecipou algumas questões que pretende aprofundar na Conferência e conversou, entre outros assuntos, sobre o papel da crítica literária; o processo de inserção da realidade sertaneja no panorama mundial; e a pertinência do diálogo entre a literatura local e os temas universais. Confira:

Dr. Horst Nitschack, da Universidade do Chile, é destaque da programação de sexta-feira do Clisertão

Dr. Horst Nitschack, da Universidade do Chile, é destaque da programação de sexta-feira do Clisertão

por Leonardo Vila Nova 
Edição e Tradução: Tiago Montenegro e Gabriela Valadares

Clisertão2014: A literatura brasileira, ao longo dos séculos, vem retratando recorrentemente o Sertão como pano de fundo de suas ficções. Até que ponto o que se lê nesses livros e o que é difundido em todo o mundo pode significar uma distorção, uma caricatura ou uma visão estereotipada da realidade?

Horst Nitschack:
 É importante ressaltar que a ficção tem todo o direito de tomar certa liberdade em relação ao que conhecemos como “realidade”, diante de uma ideia de “realidade” que, em grande medida, é resultado de referências tanto textuais (científicas, políticas, de nossa formação cultural) como também de relatos orais (mitos, causos). Todos esses discursos formaram e estruturaram nossa “experiência” com a realidade.

Nesse sentido, “a ficção” toma a liberdade de contar não os fatos que, segundo esses discursos, aconteceram, mas aqueles que poderiam ter acontecido. Portanto, a ficção é sempre uma “distorção” da realidade. Cabe à crítica literária analisar que tipo de “distorção” é essa (analisar o fundo ideológico ou o valor da transformação). Há a “distorção” produtiva, criativa, que permite compreendermos melhor esta realidade, mas há também a distorção “parasitária”, que reproduz e fortalece estereótipos, o que já conhecemos desta realidade ou que confirma caricaturas já em uso sobe essa realidade.

A partir desta compreensão, podemos constatar que os grandes textos literários que abordam o Sertão, brasileiros ou estrangeiros, sempre fizeram propostas criativas para interpretar a realidade social, os modos de vida da região (como as obras brasileiras: Os Sertões, de Euclides da Cunha; O Quinze, de Raquel de Queiroz; Os Cangaceiros, de José Lins do Rego; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna; Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro). Os autores estrangeiros, por sua vez, têm relacionado esta região com temáticas latino-americanas mais amplas (Mário Vargas Llosa, por exemplo) ou com temáticas da literatura universal (Sándor Márai, em Veredicto em Canudos; ou em Lá Onde os Tigres se Sentem em Casa, romance recente de Jean-Marie Blas de Roblés).

Clisertão2014:Esse verbo, “inscrever”, no sentido de inserção do Sertão no panorama mundial, pode ser lido de várias formas. Quais os caminhos o Sr. acredita que a  literatura deve percorrer para por em prática essa inserção de uma realidade local numa dimensão mais global?

Horst Nitschack: Ao que me parece, a crítica literária (e faço parte deste universo, mais precisamente do da crítica acadêmica – há outras até muito mais importantes e influentes) não deve e não pode prescrever os caminhos que a literatura, ou seja, que os autores devem tomar. Esta atitude sempre foi fatal (como constatamos na literatura do “realismo socialista”).

O que podemos formular são expectativas, desejos. E, neste contexto, o que me parece desejável, é que a literatura promova diálogos entre o local e o universal. Ou seja, que os autores arraigados no local não se fechem às literaturas universais, que são – em geral – de escritores das grandes potências políticas e econômicas (que se comportam como antropófagos) e – por outro lado – que os autores com temáticas universais se interessem também pelas temáticas e problemas regionais e locais, respeitando as suas particularidades.

Exemplos da literatura brasileira neste sentido são, para mim, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, mas também Paulo Lins, para citar um autor contemporâneo. Na literatura universal, cito Mario Vargas Llosa de A Guerra do Fim do Mundo(apesar da minha crítica à posição ideológica do romance, que será tema da minha conferência no Clisertão 2014) ou Sánder Marai de Veredicto em Canudos (outro tema que vou discutir), além do já mencionado romance de Blas de Robles.

De forma muito prática e concreta, não podemos nos esquecer de uma questão fundamental na relação entre o local e o global: a língua e sua tradução. As traduções são cada vez mais importantes para manter diálogos a nível global. Certamente é um grande desafio não sermos dependentes do inglês, mas buscarmos diálogos diretos com as literaturas em outras línguas.

Clisertão2014: Como esses três livros – “Os Sertões”, “O Grande Sertão: Veredas” e “A guerra do fim do mundo” apontam para esse processo de inserção dessa realidade sertaneja no panorama mundial?

Horst Nitschack: São três estratégias bem diferentes: Euclides utiliza um vasto conhecimento de textos científicos sobre temas que lhe parecem muito significativos ao sertão, desde teorias antropológicas (de raça), estudos de psicologia social e criminologia, geografia e climatologia. Alguém poderia argumentar que Euclides era um antropófago mesmo antes de ser escritor.

Guimarães Rosa tinha um grande conhecimento da literatura e da filosofia ocidental, por isso consegue demonstrar (em um trabalho literário muito sutil) a complexidade do pensamento e das práticas culturais dos sertanejos, que não são menos complexas do que os mitos gregos e onde podemos encontrar reflexões à altura dos clássicos da literatura universal. Guimarães Rosa pode ser considerado irmão de Lévi-Strauss e suas teorias sobre O Pensamento Selvagem.

Já Mario Vargas Llosa vem “de fora”. Ele “usa” Canudos, em minha opinião, para se pronunciar contra ideias utópicas e distanciar-se de sua própria simpatia ao ideário socialista dos anos 60.

Clisertão2014: “A guerra do fim do mundo” é um livro escrito por um peruano, Vargas Llosa, que ficciona um acontecimento real, em pleno Sertão brasileiro – anteriormente retratado por Euclides da Cunha, em “Os Sertões”. Essas conexões já sinalizam, de certa forma, essa inserção em nível regional/latino-americano?

Horst Nitschack: Sim, Mario Vargas Llosa – em minha opinião – justifica com sua interpretação do que aconteceu em Canudos (que considerou apenas fanatismo irracional) sua aproximação com o neoliberalismo dos anos 80. Este neoliberalismo deveria ser, depois do fracasso do socialismo cubano e da República Popular do Chile, um modelo para toda a América Latina.

Clisertão2014: Em termos acadêmicos, como se situa o pesquisador brasileiro no cenário global e de que forma sua atuação pode contribuir para reforçar essas conexões e a inserção do contexto local no mapa mundi?

Horst Nitschack: O pesquisador brasileiro tem, em minha opinião, uma posição privilegiada se compararmos com culturas africanas ou asiáticas (com exceção da China e da Índia, que são casos especiais). No Brasil, a partir de uma visão externa (que é sempre um olhar geral, mas não por isso menos relevante), já existe uma consciência desenvolvida sobre suas regiões culturais; podemos perceber importantes tendências de descentralização. O Clisertão 2014 é um exemplo. Participei no ano passado de outro Congresso em Belém, na região amazônica. Percebo isto também nas políticas para minorias étnicas. Talvez não seja suficiente, mas em comparação com outros países, onde quase toda a vivência cultural se concentra nas grandes cidades, é notável a avançada descentralização que existe. Esta diversidade da cultura brasileira e o esforço de desenvolver um diálogo com teorias de relevância internacional, a partir de cada região, pode ser um importante desafio. Grande exemplo nesse sentido foi e continua sendo Casa Grande e Senzala, de Giberto Freyre.

Clisertão2014:Por se tratar do único país da América a falar a língua portuguesa, isso pode se tornar um entrave para o Brasil, no que diz respeito a romper a barreira regional/América Latina e estabelecer conexões que evidenciem a sua identidade local em um circuito global? Que signos devem ser acionados, então, para transcender essas barreiras?

Horst Nitschack: Diria que essas barreiras, na realidade, não são tão grandes como parecem. A negligência recíproca entre os países de língua espanhola e o Brasil tem menos a ver com barreiras reais, e estão mais relacionadas com o fato de que ambas as partes passaram muito tempo olhando para o norte, primeiro para a Europa (França, Inglaterra e Alemanha) e depois Estados Unidos. Mas vemos em todos os lugares que esta situação está mudando. Há intercâmbios cada vez mais importantes entre os países hispânicos e entre estes e o Brasil.

Clisertão2014:Como o Sr. avalia que a internet tem contribuído para aproximar distâncias e possibilitar um alcance mais amplo dessas realidades locais num panorama global?

Horst Nitschack: A internet é, sem dúvida, uma ferramenta muito poderosa. Mas ainda temos que aprender a usá-la. Dito de maneira provocativa: a internet como tecnologia é global e, se queremos usá-la para efeitos locais, somos obrigados a nos apropriar devidamente e ter cuidado para não nos convertermos em simples matéria que alimenta essa máquina.

Entre os perigos da internet, vejo que há a ilusão de que as distâncias e as diferenças locais podem ser facilmente superadas. Mas não é assim: informações sobre eventos locais que são acessíveis na internet (conflitos étnicos na África, conflitos religiosos no mundo árabe, por exemplo) não nos ajudam muito a entender realmente o que acontece. A grande quantidade de informações sobre os acontecimentos de todas as partes do mundo pode ser um risco: provocar a ilusão de que entendemos algo. Aqui começa o desafio: transformar estas informações em um saber e em conhecimento concretos.

Entretanto, a internet não é somente uma ferramenta, mas também um meio de comunicação, como observou McLuhan: “O meio é a mensagem”. Ou seja, a técnica de transmissão da informação determina, de maneira definitiva, tal informação. Não se pode separar o meio da informação. O que isso significa, no caso da internet, ainda não foi compreendido pois esse meio ainda é muito novo, e ainda não houve oportunidade de analisar profundamente seus impactos e consequências para nossas culturas, especialmente para um conceito de “cultura local”.

Mesmo assim, já se pode constatar que a internet nos seduz a nos perder sem nos darmos conta. Nos seduz a permanecer na superfície, a perceber somente o “globalizável” e descuidar das diferenças locais. Temos que usá-la para projetos concretos de intercâmbio, pesquisas afins, diálogos orientados por problemáticas e busca de soluções para essas problemáticas. A internet pode nos ajudar a descobrir com quem dividimos problemáticas parecidas e servir como ferramenta para encontrar soluções. Desta forma, nos dá uma grande oportunidade de intensificar o diálogo entre diferentes culturas e entre “o local” e “o global”.

SERVIÇO:

Conferência | Sexta-feira (9/5)
19h-20h: Para Inscrever o Sertão no mapa-múndi: discursos científicos e ficcionais: Euclides da Cunha (Os Sertões), Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Vargas Llosa (La Guerra del fin del mundo) – Conferência com o prof. Dr. Horst Nitschack (Universidade do Chile), Mediação: Pedro Américo de Farias.
Local: Auditório da UPE Petrolina

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