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Luto nas artes cênicas – Morre a circense ‘Dona Mocinha’

Renata Pires

Renata Pires

Dona Mocinha em apresentação no FIG 2013

A Secretaria de Cultura de Pernambuco e a Fundarpe manifestam profundo pesar pela perda da Senhora Maria do Carmo da Silva dos Santos “Dona Mocinha”, a nossa palhaça Pitanguinha. Desejamos que sua paixão pelo circo siga inspirando as novas gerações e o trabalho de todos que lutam pelo fortalecimento da cultura pernambucana. Em nome de todos (as) os profissionais que fazem a gestão cultural de Pernambuco, enviamos nossas condolências e solidariedade à família.

Marcelo Canuto – Secretário de Cultura 
Severino Pessoa – Presidente da Fundarpe

A Secult-PE e a Fundarpe lamentam o falecimento de Dona Mocinha, a palhaça Pitanguinha. Com 67 anos de vida e 55 de circo, Mocinha lutou até ontem, 12/6, contra um câncer.  No início deste ano, a equipe do Cultura.PE esteve com a artista, já em uma situação de muita fragilidade devido à doença. Ainda assim, Mocinha sonhava com a volta ao picadeiro e com a possibilidade de voltar a ensinar a magia do circo aos mais jovens, algo que adorava fazer.  Confira:

A PROFISSÃO DE ESPALHAR ALEGRIA 

Por Maria Peixoto

Maria do Carmo da Silva Santos tem 67 anos de vida e 55 de circo. Mais conhecida como Mocinha, ou Pitanguinha, com 7 anos de idade ela já vinha de seu interior, Bonito, pro Recife. Passava a semana inteira na Praça do Diário, fazendo piruetas pra ganhar uns trocados, para ter o que comer e oferecer ao irmão, conhecido como Pitombinha. Logo, o que era só um “ganha pão” se transformou em arte. Mocinha conheceu o mundo do circo, de onde nunca mais saiu. Passou pelo Circo Jacijupi, Bartô Circo, Interpalacirco, Circo Português, Circo de Nelson Silveira, Circo de Zé Bezerra, e tantos outros que ela nem consegue mais recordar.

O circo de Mocinha sempre foi o mambembe, aquele de paninho de roda, de facho de luz. Ela lembra da época em que chegava no interior com sua trupe e se apresentava, pra plateias lotadas. É disso que ela mais gosta, “do público”, diz. “Minha vida, desde criança foi muito complicada, eu trabalhei muito. Essa vida nossa é boa, mas é muito ingrata. Eu vivo nela porque gosto, gosto de trabalhar com criança, eu amo criança, eu amo o público”, afirma.

Mocinha é veterana do circo, assim como Índia Morena, Rosilda Santos, Zé Matuto, Joel. Ela guarda a memória de uma época, de uma tradição do circo que teima em resistir. Cheia de planos, sonha em fazer um museu do circo, onde estaria retratada sua época, quando o circo tinha rumbeira, vedete, teatro; onde seriam valorizados os veteranos. Ela também deseja ensinar como se monta um picadeiro, como se corta uma coberta, como se arma o pau de roda, o mastaréu. “Seu eu pudesse, eu vivia dentro do circo pra ensinar às crianças”, diz.

Já foi acrobata, rumbeira até se tornar a palhaça Pitanguinha. “Um palhaço bom você conhece pela pintura. O profissional tem uma pintura bonita, uma roupa bonita, uma peruca bonita. Tudo isso é gasto, se você não investir, você não tem”. Ela diz que pra ser palhaço é preciso ter conhecimento de causa: “O palhaço é aquele que nasceu dentro do circo, do picadeiro. Aquele que sabe o que é uma “reprise” (esquetes), um “mestre de cena” (aquele que trabalha com o palhaço). Ela explica que hoje em dia palhaço se banalizou, muitos são apenas “animadores”.

Como palhaça, mocinha também teve que aprender a lidar com as crianças, “tem que saber agradá-las”, diz. Mas isso não é nenhum esforço pra ela, que adora estar no meio dos pequenos. Ela ensinou o ofício a seu filho, Jackson, hoje com 40 anos. Ele era o Risadinha. “Nasceu na barraca de circo, conviveu dentro do circo”, ela conta. Hoje, ele não é mais palhaço, cansou de passar dificuldade, conta Mocinha. Agora ela está preparando o seu sobrinho para ser o seu parceiro, Pitombinha, substituindo seu irmão já falecido.

Ela lembra da época em que se apresentava nos engenhos “Era muita gente pra ver”. Agora, dinheiro que é bom, era pouco. “Ganhava muito feijão, abóbora”. “Sofri muito, tinha dia que a gente não tinha o que comer”, conta. Quando chovia, molhava tudo. Muitas vezes ela dormia no chão. Mas mesmo assim, Mocinha é apaixonada pelo picadeiro. Ela trabalhou no Cirquinho Frateli Vita, quando ainda era criança, era um programa de televisão com espetáculo de circo; no Circo Popular, que andava pelas comunidades fazendo apresentação, no Circo na Praça, que andava por todos os interiores do estado. “Quem não me conhecer não conhece o que é o circo. Faça uma pesquisa em todos os circos, pergunte assim ‘Quem é Mocinha Silva?’ ou ‘Quem é Pitanguinha?’, que todo mundo sabe dizer”, afirma.

“Num é tamanho, num é cor, quando você sabe fazer, você faz ao vivo”, diz Mocinha. Ela conta de um episódio em que um dono de circo não queria deixar ela se apresentar, pelo fato de ser negra. Então ela o desafiou “Pode colocar essas galegas todinhas pra entrar que eu vou por último, se me vaiarem eu agradeço, se não vaiarem nunca mais eu piso aqui”. Dito e feito. “Eu, esse pinguinho de mulher, quando entrei no palco, o público geral veio a baixo. Eu tinha um jeitinho de dançar. Eu voltei no palco oito vezes. Aí eles ‘de novo, de novo, de novo’. Aí ele subiu no palco e disse ‘Parabéns, Mocinha, parabéns mesmo, porque você merece meus parabéns. Você foi a única morena – já num me chamou de negra – você foi a única morena que subiu no meu palco e fez sucesso, você está contratada’”. Eu disse “Muito obrigada pelo seu contrato, mas eu tô indo embora hoje mesmo”. Apanhei o carro e fui embora.

Mocinha já enfrentou muitas dificuldades por ser anã. Conta: “Só quem sabe um deficiente o que é, é quem é deficiente, é quem sente na pele. Em todo canto há discriminação, mas o importante é a gente levantar a cabeça”. Hoje, além das dificuldades que sempre enfrentou, está passando por um problema de saúde, o que tem tornado sua situação mais frágil. Mas, isso não a faz parar de sonhar com sua volta ao circo. Ela sempre se envolve também com o debate sobre políticas culturais para o circo, integrando a Comissão Setorial.

O que você percebe nos olhos de Mocinha é o vigor e a paixão com que ela fala do circo, é seu desejo de preservar e difundir essa tradição. Sua intenção de preservar a atividade cultural do palhaço de circo, coisa que ela aprendeu nas décadas de experiência que possui e na paixão que sempre teve em trazer alegria para as pessoas.

 

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