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Design e Moda

Clara Simas e a criação de pôsteres para filmes

Designer já criou pôsteres para filmes de Gabriel Mascaro, Cecília da Fonte, Tiago Leitão e Marcelo Pinheiro

A designer Clara SImas

Clara usa várias técnicas na produção de seus trabalhos

A designer Clara Simas tem se destacado na criação de pôsteres para filmes que simbolizam bem o novo momento da produção audiovisual pernambucana, como, A Onda Traz, o Vento Leva (Gabriel Mascaro), Bajado (Marcelo Pinheiro), Sexta Série (Cecilia da Fonte) e Destinos (Tiago Leitão), esses dois últimos desenvolvidos em parceria com Isabella Alves. Aos 25 anos, a pernambucana – sócia-fundadora do estúdio de design gráfico A Firma, que  integra o Coletivo Sexto Andar - conversou o Cultura.PE sobre carreira, referências/influências, cinema e da relação que mantém com os cineastas e suas produções. Confira:

1- Você sempre gostou de cinema? Quando surgiu o primeiro convite para trabalhar nessa área?
Não só de cinema, como das demais artes gráficas. Minha mãe sempre me levava a exposições e fazia questão de me presentear com livros de artes para criança. Na parede do meu quarto, havia umas reproduções de [Edgar] Degas, [Marc] Chagall e [Wassily] Kandinsky. Já meu pai (Manoel da Costa Junior) foi da turma do Cinema Marginal e trabalhou em dois clássicos dessa época: Meteorango Kid – Herói Intergaláctico e Caveira My Friend. Ele, inclusive, foi estagiário do grande Glauber Rocha. O meu primeiro convite partiu de Gabriel Mascaro para confeccionar o pôster do curta A onda traz, o vento leva (2012).

2- Qual a diferença entre um projeto de cartaz para cinema e outros projetos de design?
No cinema, trabalhamos com uma série de referências visuais e conceituais que já foram criadas previamente pela equipe do filme e que você, na maioria das vezes, não viu surgir. Ou seja, ao contrário de outros projetos gráficos que você concebe desde o início, o designer dessa área costuma ser chamado na etapa de pós-produção. Por se tratar de uma obra de arte acabada, existem inúmeras personas gráficas com que dialogar. Podemos compreender uma persona gráfica como o semblante de um personagem, uma cor bastante predominante na fotografia do filme ou até mesmo uma música da trilha sonora. É preciso estar aberto e se deixar abstrair por esses signos. E mais ainda: entender que várias forças atuam nesse processo. Para começar, existe o desejo do diretor e da equipe do filme de ter um cartaz no qual eles se reconheçam. Obviamente, há também a minha vontade de agregar valor à película e não simplesmente a de traduzi-la. E, em relação ao espectador, existe a expectativa que o pôster cria quando a pessoa ainda não assistiu à obra e se depara com o cartaz. Tento encontrar um ponto de equilíbrio que faça com que todas ou pelo menos parte dessas expectativas e universos pessoais sejam contemplados.

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Clara busca encontrar um equilíbrio entre os anseios dos cineastas e dos espectadores do filme

3- A relação entre diretores de cinema e criadores de pôsteres é harmoniosa? Há conflitos?
Pode parecer puxa-saquismo, mas, em geral, foram as relações de trabalho mais harmoniosas que já tive. É claro que varia de acordo com o perfil do diretor, do roteirista ou de quem está por trás do pedido. E vai depender também da complexidade da mensagem e da minha capacidade de compreender o que se espera provocar com a peça. Nem sempre é possível chegar diretamente na síntese visual que outra pessoa vinha construindo, porque a essa expectativa se misturam valores sentimentais e referências estéticas muito pessoais, que não obrigatoriamente dialogam com a minha própria bagagem.

4- Antes de confeccionar os cartazes, você assiste aos filmes? Ou a ideia surge naturalmente numa conversa com o diretor da obra?
Assistir ao filme é sempre o primeiro passo. Nesse momento, gosto de ter a menor quantidade possível de informações sobre a película. Assim, tento uma leitura criteriosa e distanciada do trabalho. A conversa com o diretor, produtor e quem mais estiver disposto a participar do processo de criação do cartaz vem em seguida, quando trocamos as nossas impressões e identificamos onde as percepções se tocam. É também onde gosto de coletar detalhes sobre a execução das cenas, dos bastidores e da força motriz por trás do argumento do filme. Não tem muita fórmula. Às vezes, a técnica surge primeiro, às vezes, a ideia.

5- Que técnicas artísticas você utiliza para confeccionar os pôsteres?
O meu trabalho, em geral, para cinema ou não, já tem uma pegada bastante artesanal. Gosto de tentar técnicas diferentes, então, topo muita coisa como nanquim, aquarela, colagens, bordado, etc.

6- Qual o pôster te deu mais trabalho para terminar? E o menos laborioso?
O meu primeiro (A onda traz, o vento leva), sem dúvida. Primeiro porque o convite foi uma surpresa completa. Respeito demais as produções de Gabriel e por isso, diante da responsabilidade, dei uma congelada no processo de tentar atender à expectativa dele e de Rachel [Ellis], produtora do curta. Segundo porque já vinha acompanhando/admirando o trabalho de Clara Moreira, que criou trabalhos não só para o próprio Gabriel, como para outros cineastas da cidade. Adoro o trabalho dela e queria fazer algo que estivesse no mesmo nível, mas que ao mesmo tempo fosse uma produção minha, e não inspirada no que Clara vinha desenvolvendo ou no que Gabriel estava acostumado a ter. Quanto ao menos laborioso, não consigo pensar em um. O de Bajado foi um pouco engenhoso de fazer, porque nesse caso tive que entrar num campo difícil que é manusear e fazer releituras de um artista gráfico com um traço bastante característico sem transformar a história em paródia ou plágio.

Primeiro pôster criado por Clara Simas

Primeiro pôster criado por Clara Simas

7- Quem são os grandes criadores de pôsteres de cinema que te inspiram/influenciam?
Sou péssima com nomes. Mas, assim de cara, lembro de Rogério Duarte, Saul Bass e Eduardo Muñoz Bachs. Talvez, minhas influências venham mais de outros campos mesmo.

8- Um cartaz pode se tornar mais famoso que o próprio filme? Dá para mencionar um exemplo?
Olha, as pessoas costumam achar que o cartaz do filme é uma peça de apoio secundária ao momento do filme. Que o designer chega quando está tudo pronto, assiste e cria sem muito vínculo. É claro que o que está em primeiro plano deve sempre ser o filme, mas o cartaz não deixa de ser uma peça cinematográfica, justamente porque faz parte do processo do filme e também lida com a motivação do espectador que o faz chegar até a sala do cinema. Quanto ao grau da fama do cartaz, acho que tudo é possível. Tem o caso do cartaz de Rogério Duarte para o Deus e o Diabo na Terra do Sol que, se não ficou mais famoso, ficou tão famoso quanto o próprio longa. Já pensou em um filme sem cartaz? Os dois produtos são geminados.

9- Há um mercado aquecido, pronto para consumir essa produção de pôsteres em nosso Estado?
Bom, nem preciso dizer o quanto a produção cinematográfica de Pernambuco tem sido intensa nas últimas décadas. E é claro que, com esse aquecimento no mercado, surge uma demanda mais criteriosa sobre que cartazes devem acompanhar essas produções, e, graças a isso também, muita coisa boa tem sido produzida. Mas, ainda assim, acho que há pouco reconhecimento e incentivo para esse tipo de peça. Não digo somente da necessidade de prêmios específicos. Falo de debate, discussão e espaço para exposição e circulação da produção contemporânea de cartazes no Brasil, como um todo.

10- E os novos projetos? Já dá para adiantar alguma coisa para o Cultura.PE?
Estou finalizando o cartaz do curta-metragem de Marcelo Pinheiro sobre Bajado. Paralelo a isso, estou produzindo umas peças de divulgação para o longa Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro. Agora, a grande novidade é que pela primeira vez vou assinar, em parceria com Isabella Alves, a identidade visual da sétima edição do Festival Janela Internacional de Cinema. Uma felicidade só esse convite.

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