Das águas do Janga à mesa da Semana Santa: a história de Elza, pescadora que alimenta tradições
Em períodos quando o consumo de pescado aumenta, histórias como esta ajudam a lembrar que o alimento que chega à mesa tem origem, tem rosto e tem trajetória
Postado em: Gastronomia
Por Andréa Almeida
Na Semana Santa, o peixe ganha protagonismo nas mesas de milhares de famílias pernambucanas. Mas, antes de chegar ao prato, seja no leite de coco, frito ou em moquecas cheias de memória, há histórias que começam ainda de madrugada, no encontro entre o mar e a vida de quem dele tira sustento.
É nesse cenário que vive Elza Anunciada da Silva, pescadora de 60 anos, moradora do Janga, em Paulista, e integrante da Colônia Z2. Mãe de três filhos, casada há 36 anos, Elza carrega no corpo e na fala a experiência de uma vida moldada pelas águas e pela transmissão de saberes.
Filha de uma grande família com 14 irmãos ao todo, sendo sete homens e sete mulheres, foi dentro de casa que a pesca deixou de ser apenas paisagem para se tornar destino. A raiz desse caminho vem da figura do pai. “Eu sou filha de João Hilário, um pescador que pescou a vida toda. Um grande homem, de honra e de garra”, lembra. Foi com ele que viveu uma das primeiras memórias no mar: “Ele lançou a tarrafa e pegou muita tainha de uma vez só. Eu achava muito bonito. Aí peguei o gosto, até hoje”. Com o tempo, a trajetória também passou a ser compartilhada com o marido, que aprendeu o ofício ao seu lado.
Da Rua Caxambu, no Loteamento Conceição, em Paulista-PE, onde mora e também comercializa o pescado, Elza mantém uma relação direta com a comunidade. Quem passa por lá encontra não só peixe fresco, mas o resultado de um trabalho que exige técnica, resistência e profundo conhecimento do mar.
“Às vezes o povo vai lá em casa comprar, às vezes encomenda… eu mesma levo. É muito bom ver as pessoas comprando o peixe que eu peguei”, diz, com orgulho.
Entre os peixes que chegam à sua rede estão tainha, carapeba, bagre, arraia, cambuba e coró. Espécies que, mais do que alimento, carregam possibilidades culinárias que atravessam gerações. Na Semana Santa, elas se transformam em pratos que fazem parte da identidade pernambucana.
“O melhor é o bagre pra fazer no leite de coco, porque ele é bem gordinho, carnudo”, explica Elza, com a propriedade de quem conhece cada detalhe do que pesca. “Fica muito delicioso”, completa. O camurim, também conhecido como robalo, a salema e a carapeba aparecem entre as escolhas, dependendo do dia, da maré e da sorte.
Mais do que listar peixes, Elza descreve um saber tradicional, construído na prática e transmitido no cotidiano. Saber o lugar certo, a época, o tipo de peixe e como ele melhor se transforma na panela é parte de uma tradição que sustenta não só famílias, mas também a cultura alimentar do Estado.
Esse conhecimento também passa pela leitura do próprio mar. “Quando a gente olha e não vê nenhum peixe se mexendo, já sabe que tá fraco. Tem dia que a água tá escura, quente, aí o peixe some”, explica.
Em períodos como a Semana Santa, quando o consumo de pescado aumenta, histórias como a de Elza ajudam a lembrar que o alimento que chega à mesa tem origem, tem rosto e tem trajetória. É fruto do trabalho de mulheres e homens que, como ela, enfrentam o mar para manter vivas tradições que atravessam o tempo. Nem sempre, porém, o retorno é certo. “Tem dia que pega só um ou dois peixes, ou só sargaço”, conta. Ainda assim, ela segue.
Entre a dureza da rotina e a beleza do ofício, é no mar que Elza encontra sentido. “É uma sensação muito boa. Eu me sinto feliz”, resume. Se tivesse que definir a pesca em uma palavra, ela não hesita: “É felicidade. É amor!”.




