Livro vencedor do Prêmio Cepe revisita tragédia climática no Rio Grande do Sul
Em Cicatrizes na paisagem, Felipe Julius traz road novel em narrativa poética
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Com um tom ambíguo, de realidade melancólica que não perde de vista a perspectiva de um futuro melhor, o livro Cicatrizes na paisagem leva o leitor a revisitar e refletir sobre uma das maiores tragédias climáticas do Brasil, que atingiu cerca de 2,4 milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Assinada pelo gaúcho Felipe Julius, escritor, roteirista e redator publicitário, a obra foi vencedora do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria Poesia, e ganha lançamento neste mês de junho.
A narrativa poética de Cicatrizes na paisagem percorre as estradas do Sul do país, sendo construída a partir de um grupo de personagens que compartilha o mesmo carro (mulher grávida, prestes a dar à luz; sua companheira, Maria; e três recém-conhecidos, integrantes da mesma família). Fogem do caos instalado pelas chuvas em Porto Alegre em busca de alternativa e sobrevivência. É o caminho encontrado por Felipe Julius para expor, de forma lírica e ao mesmo tempo contundente, o fenômeno natural em contraponto ao descaso do poder público e à degradação ambiental. Neste grupo de desabrigados ambientais o leitor passa a ser mais um integrante envolvido pela escrita.
Com 120 páginas, o livro é dividido em três partes, em que os marcadores sinalizam rodovias impactadas pela tragédia, que também foi vivenciada pelo autor. “A ordem foi pensada como um percurso. A rodovia RS-040 é o choque e a travessia do dilúvio; a BR-101 já é respiração, estrada, encontro possível. E ‘A chegada’ é quando a vida insiste, apesar de tudo. Se isso vira esperança, não é uma esperança ingênua. Não apaga o que aconteceu. É aquela que nasce depois do estrago, quando ainda tem lama, mas já tem gesto”, coloca Felipe.
Sete meses marcam o intervalo de tempo entre a tragédia e a materialização de Cicatrizes na paisagem, escrita em apenas uma semana, em janeiro de 2025. “Em 2024, passei o ano pensando em tudo o que aconteceu. Fiz uma promessa de Ano Novo e queria tornar tangível, em texto, tudo o que me atravessava. Também queria que ninguém esquecesse porque aquilo escancarou uma falha grave na nossa estrutura sociopolítica, ética e infraestrutural. Meu impulso de escrever tem muito a ver com a frase de George Santayana que diz: Aqueles que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo”, destaca.
Para o editor da Cepe, Diogo Guedes, a proeza de Cicatrizes na paisagem é que os versos são sóbrios e, ao mesmo tempo, emotivos, resultando num equilíbrio raro. “Felipe Julius revela, por meio de um poema narrativo, um mundo submerso, quase como se acabando — não porque de fato deixará de existir, mas porque nada pode ser o mesmo depois de uma tragédia como as enchentes no Rio Grande do Sul”, pondera.
Sobre o autor – Autista (nível de suporte 1), Felipe Pyhus Julius tem 25 anos de idade e transita entre a criação literária e publicitária. Sua estreia na literatura aconteceu em 2023, com a coletânea poética Foram talvez os anjos revoltados (Editora Urutau), obra indicada ao 66º Prêmio Jabuti na categoria Escritor Estreante – Poesia, e que aborda temas como a neurodiversidade, Geração Z e Porto Alegre. Foi vencedor do XXXII Prêmio Moutonnée de Poesia (categoria Adulto) e teve menção honrosa no 19º Prêmio Lila Ripoll de Poesia.
