Histórias fantásticas na Casa da Almas
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Por André Dib
“Maldições existem porque acreditamos nelas ou acreditamos nas maldições porque elas existem? Histórias são contadas porque aconteceram ou aconteceram porque foram contadas?”
As perguntas, enunciadas no escuro de uma noite de vento e nuvens sobre a lua, entre árvores de galhos verticais e lápides brancas, deu início à contação de histórias de Trancoso, promovida pelo 1º Encontro de Literatura Fantástica em Triunfo. Longe de tentar respondê-las, o evento sediado na Casa Grande das Almas (fronteira entre Triunfo e Princesa, na Paraíba) optou por explorar o fascínio em torno das narrativas de teor extraordinário, que traduzem do imaginário coletivo lendas e mitos que extraem da realidade elementos sobrenaturais, misteriosos e, sobretudo, capazes de causar medo.
A partir de texto adaptado por Homero Fonseca, o ator carioca João Ricardo interpretou no pequeno cemitério ao lado da capela a história da Dama de Branco, que seduz para o além-morte homens desavisados, no caso, o bisavô do narrador. Na sequência, o jornalista Roberto Beltrão apresentou o público de crianças e adultos dois fantasmas que assolam o Teatro de Santa Isabel, no Recife. “Um deles é o pianista, que toca para os funcionários, quando o teatro está fechado; outra é a bailarina, vista somente através dos espelhos dos frisos, dançando sozinha no palco”.
Além de histórias que assustam, a programação incluiu debates e uma mostra de cinema fantástico, com os curtas “Vinil verde”, de Kleber Mendonça Filho, “A menina do algodão”, de Mendonça e Daniel Bandeira, “A perna cabiluda”, de Marcelo Gomes e “Cinema americano”, de Ticiano Valério.
Durante o dia – Ao longo da tarde, duas mesas trataram do tema, uma pelo viés acadêmico, outra pelo jornalístico-literário. A primeira, coordenada pelo professor da UFPE André de Sena, conceituou a literatura fantástica de acordo com seus estudiosos mais eminentes, como Ernst Hoffmann, considerado o pai da literatura fantástica. “Por usar muita metalinguagem, ela tem um processo de criação ficcional sui generis, pois pensa a própria maneira de se expressar. Outro ponto é que como a diegese se mantém no real, ao fim não se sabe se os fatos aconteceram ou estão restritos à imaginação do personagem”, diz Sena, que enumera algumas características do gênero: apresentação do duplo, experimentação linguística, o chiste romântico, o não dito e a elipse, estes dois últimos, que viriam a ser utilizados pelos escritores simbolistas. “De certa forma, o fantástico antecipou movimentos”.
Antes de passar a palavra para a professora Rúbia Lossio, do Centro de Estudos Folclóricos Mário Souto Maior/Fundaj, Sena lembrou que o fantástico não é tão presente na literatura brasileira por questões miméticas, em que representar o país se tornou mais importante do que a fuga da realidade, mais exercitada pelos europeus.
Por sua vez, Rúbia Lossio começou sua explanação dizendo que mitos e lendas surgem pela vontade coletiva de driblar a morte. “O que não se vê, se cria. Entre o desejo e a proibição, o mito nasce como uma descarga necessária para a vida prosseguir”, diz a pesquisadora, exemplificando com fantasmagorias locais, como a serpente do lago que fica no centro de Triunfo, ou Natália do Espírito Santo, estranha mulher que teria feito um pacto com o diabo, além da semelhança do Careta (um símbolo da cultura local) com o lobisomem. São lendas antigas, que se misturam com histórias contemporâneas como a da menina do bagageiro da bicicleta e a do homem que se transforma em objetos para fugir da polícia.
Com o professor Haroudo Xavier, a criação literária se tornou foco do debate. Para começar, Fonseca leu um trecho de seu contro, Clarissa, sobre uma mulher que vira planta. “O Recife está cheio de assombrações. Cresci em um apartamento em que minha avó via soldados romanos; dizia-se que meu prério foi construido em cima de um antigo quilombo”, diz Haroudo, antes de revelar que se auto-impôs o desafio de escrever um conto por dia, sempre antes da meia-noite. Encerrando a conversa, já com os últimos raios de Sol tornando a atmosfera do local ainda mais lúgubre, Fonseca agradeceu ao público dos vivos e também o que está no cemitério. “As cadeiras de trás estão cheias, a melhor plateia que já tive”.
Aplausos.


